sexta-feira, outubro 14, 2005

HOMENAGEM A ANTONIO JUNIOR

Antonio Junior


Hoje regressou ao Brasil (de onde é natural) Antonio Naud Júnior, poeta, escritor e Menino d´Avó desde os primeiros tempos. A sua presença foi marcante, a sua ausência será muito sentida. Como um dos principais impulsionadores deste blog deixamos a justa, merecida e sentida homenagem a alguns dos seus textos poéticos. Mesmo com um oceano de distância sabemos que continuará presente em espírito e esperamos em texto!

Um Abraço e um até breve (é assim que nos despedimos daqueles que não esquecemos)



PARA CADA UM A SUA VERDADE


acendem-se falésias
sob o mundo de inês
(sim inês de castro a concubina untada de mel!)
no quebra-vento
na água salgada
no caminho de mágoas
que leva a lugar nenhum
e a luz? a luz a luz
onde a sophia luz?
onde os sóis as estrelas as luas
dentro de mim e de ti?
as rochas calam-se calam sempre
calam todos os demais
num silêncio esmagador
de medo renovado
sem rosto nem perguntas
como ontem como hoje como amanhã
antigas almas na escuridão
antigos olhos saramago
em naus à caminho de noites de fado
rendição e solidão

acendem-se pássaros azuis
sob a imensidão de mar e céu
talvez uma última chance para compreender
talvez uma última chance para amar
cansado de sombras
cansado do viver por viver
digo calma calma é preciso calma
eu e todos os demais
outros e iguais e provincianos
estes murmúrios equívocos
silêncios de fantoches
ergue-se a esperança em gaivotas imóveis na areia!
na raiz-divina na sabina-das-praias no chorão!
no lagarto-sardão no rabirruivo-preto!
em todas as coisas helder da vida!
calma calma é preciso calma
de nada adianta esta ofendida angústia
a verdade é uma colméia de complexos
besuntada de variações obscenas
de nada adianta a florbela melancolia
tudo cai no esquecimento
poucas vozes são realmente importantes
e um e a um os sonhos cintilarão outra vez

arrancam-me o al berto coração
que não sabe saber fingir?
invento outro!
ainda tenho tempo para alvéolos sustos
garante-me pessoa
ainda tenho tempo para outros amores
calma calma muita calma ainda tenho tempo
para caminhar noite adentro
estremecendo como uma virgem
garante-me llansol
renovado coração quente
pés na estrada poética
galopando o cavalo eugénio dos sonhos


Antonio Júnior, Praia da Aguda, outubro de 2005.


Junho & Juny


Nits (*)


incêndio sem chamas.
abro os olhos e vejo o que está aqui.
durante minutos, o pensamento exato, na trajetória da
fumaça de um cigarro que se dissolve
no lamento de tristão.

pré-ocupação.

seu agudo
canto de sereia
faíscas febris de noites inúteis,
semidestruída
reputação (mas o que é a reputação?)

já não faz falta sentir
a língua fria
da melancolia.

recebido com ramos de lírios
por parábolas e ofensas,
neste instante,
o éden é a meta,

erguido aos céus de pelúcia
o pensamento oculto
bendito em noites
de bestas interesseiras
em noites de equilíbrio,
de nervos de aço,
de freqüência.


(*) Nits: Noites em catalão.


Outubro & Octubre

Dolor (*)



chegaram todos, não falta ninguém.
(estão presentes poetas nunca lidos e
suas intenções desleixadas).

veio também um anjo

com lágrimas do tamanho do lustre imperial,
penetrado de saudades, sensibilizado
pela falta de respostas.

não ditas por quem?

“já passou”, ele diz,
enxugando o rosto.
a dor talvez seja só um excesso
de uísque, lástimas e tristezas.

já passou.
“eu creio em algo que você não crê”, digo.

a dor declarada desfaz-se no seu sorriso
e suaviza a imagem encantadora.


(*) Dolor: Dor em catalão.

António Júnior, in “Calendário Azul”


montanhas são vozes, falam,
falam,
falam em silêncio

falam emoções, emoções esquecidas
falam através de curtas e definitivas frases:
o amor é uma águia que voa alto, muito alto
é uma delas.

Entre elas, numa clareira, irradia-se um carvalho
único e imortal
está assim, fincado na terra dura
cúmplice durante séculos do silêncio,
constante em sua verdade todas as nossas esperanças
vivem nele
as minhas, as suas
e as dos outros.
é um segredo da nobre arvore
que sabemos e não sabemos.

e vou, não nego: as montanhas
são um caminho interior.

António Júnior, in “Se um Viajante numa Espanha de Lorca”, Pé de Página Editores, Maio de 2005.

terça-feira, outubro 11, 2005

SESSÃO DE 5/10/2005:

A última sessão dos Meninos d´Avó (dia 5 de Outubro) decorreu num ambiente muito pouco convencional, onde se discutiram temáticas bastante díspares da poesia, a proximidade de eleições e os festejos de dois aniversários são as justificações para esta dispersão.

Esta sessão marcou o início de uma pequena interrupção ( a sessão de dia 19 não se irá realizar) dos Meninos d´Avó pois a Casa da Avó entrou (muito merecidamente) de férias, apesar deste interregno as actividades poéticas e culturais não parám e delas iremos dando conta no Blog. Entretanto fica o aviso aos interessados que no reinício esperam-nos sessões que estão a criar grandes expectativas! A seu tempo iremos divulgando os próximos convidados!

A Poesia está na rua. Não Pisar.

terça-feira, outubro 04, 2005

IMPEDIMENTO IMPREVISTO

Informamos que por impedimentos técnicos afinal já não será exibido o filme "VIAGEM AO ARCO ÍRIS". Mais e melhores explicações serão dadas amanhã na sessão dos Meninos d´Avó!
Por esta contrariedade pedimos desculpa, mas são acontecimentos que nos ultrapassam!

A Poesia está na Rua. Não pisar.

sábado, outubro 01, 2005

PRÓXIMA SESSÃO:

Informamos que na próxima sessão dos Meninos d´Avó será exibido o vídeo “VIAGEM AO ARCO-ÍRIS” realizado por José Ricardo tem a duração de 11 minutos e conta com a participação especial de Pedro Possidônio. O vídeo é descrito como: Uma viagem poética pela Alemanha e Itália no Verão de 2005.

Também será discutida a problemática, levantada por Adriana Jones, relativamente à limpeza da serra de Sintra. Foi sugerido um passeio no dia 8 de Outubro (sabádo) de manhã pela serra para in loco verificarmos o estado de desleixo. Mais desenvolvimentos na próxima sessão dos Meninos d´Avó dia 5 de Outubro.


A Poesia está na rua. Não Pisar.

SELENOGRAPHIA IN CYNTHIA

A propósito de “SELENOGRAPHIA IN CYNTHIA” de Jorge Telles de Menezes

por João Rodil


Eu já vi muitas pessoas em Sintra. Vi gente que passa, gente que fica, gente que lhe admira a Natureza e os monumentos, mas o que levam dela é apenas uma vaga lembrança de cheiros e de verde, ou umas fotos postais, clichés da vida mundana e vazia atirados em seguida para o fundo de uma gaveta esquecida.

Mas Sintra não é um lugar para se ver só com os olhos. Ou antes, Sintra é muito mais um lugar para se sentir do que para se ver. Porque a sua imensidão ultrapassa o que a nossa pobre vista alcança. Porque a sua mensagem é cantada em linguagens veladas. Porque é um lugar com espírito.

Por isso, das muitas gentes que já vi em Sintra, apenas conheci algumas, poucas essas, que ao percorrerem o sei corpo majestoso de deusa tivessem comungado com ela. É que só aqueles que acreditam na transcendência desta Serra da Lua um dia poderão penetrar verdadeiramente nela.

E tal como a Lua, senhora e rainha de todas as marés, também Sintra é um grande íman que atrai aqueles que sabem sonhar quando contemplam o seu corpo serpentário. Jorge Telles de Menezes é um poeta chamado por ela. E, logo que chegou a ela, soube escalar o Promontório para beijar a Lua.

Quero eu com isto dizer que Jorge Telles de Menezes, ao escrever Selenographia in Cynthia, não se limitou a construir uma aprimorada obra poética, a lançar versos aos outros, plenos de lirismo e musicalidade. É que a Serra da Lua segredou-lhe alguns dos seus mistérios, deixou cair o véu e mostrou-se por dentro ao poeta. Nua e perfeita em todas as suas formas e símbolos.

Por isso, aquilo que estamos a beber quando lemos esta Selenographia é uma água baptismal que nos pode renovar, que nos deve servir de catalisador para regressarmos ao ser primordial, ao útero da Terra-Mãe, à consciência profunda dos valores mais sincréticos do Homem Universal.

Sintra foi, durante milénios, terra de fronteira entre o mundo conhecido e o mar ignoto, o abismo azul povoado de lendas e monstros. E os povos caminharam até a essa zona limítrofe, uns atrás dos outros, sempre em demanda peregrina e em pleno respeito e adoração pelas forças telúricas, aquáticas e ígneas que nestas montanhas da Lua se conjugam.

É esse respeito primordial que nos surge em Selenographia in Cynthia. É esse renascer interior do homem de hoje, a busca do Graal em nós, o rebuscar das emoções verdadeiras no mais secreto da nossa intimidade que o poeta Jorge de Menezes nos sugere.

Inclusivamente, chega a apontar-nos as veredas que nos poderão levar a esse lugar de início. O espelho e a água. Um, como objecto de retorno, de reflexão, para que nos conheçamos a nós próprios. Outra, a água, como elemento renovador e purificador por excelência, gerador da vida e espelho do céu, morada atlante de tritões, sereias, ninfas e tantos outros seres que fazem parte do imenso bestiário sintrense.

Não é de estranhar, portanto, que a personagem principal se chama Till Espelho de Água, ou antes, uma personagem multiplicada no seu Replicante. Ou o surgimento de Alice, aquela mesma do País das Maravilhas, a «musa ninfeácea do autor canhoto».

Quando li, pela primeira vez Selenographia in Cynthia, recordei de imediato alguns dos espíritos elevados que escreveram sobre Sintra, sobretudo aqueles que o fizeram de uma forma poética e dramática. Camões e Eça, aliás personagens que integram a obra, mas também outros nomes me saltaram à memória, como Teixeira de Pascoaes, António Quadros, Frei Heitor Pinto, João de Barros e, muitos especialmente, o mestre Gil Vicente e as duas peças em que dedicou maior atenção a Sintra: O Triunfo do Inverno e a Farsa da Lusitânia. Ainda me lembrei de Byron, de Southey, de W. H. Auden e de Christopher Isherwood, estes últimos mais pela concepção dos chamados dream poems, muito embora também eles tenham sido tocados pela Serra da Lua.

Mas tudo isto aconteceu-me apenas numa primeira leitura. Porque depois veio a verificação e a certeza da originalidade e profundeza da escrita poética e dramática de Jorge Telles de Menezes. Há ali um fluir de sinais que nos conhecem por dentro, um toque de mágica que nos faz acreditar nos amanhãs impossíveis. O poeta tinha estado, de facto, no útero do grande santuário da Lua.

Não quero especular sobre esta Selenographia in Cynthia. Não quero, nem devo. Tenho a certeza que muitos o farão através dos tempos, pois estou em crer que éobra do presente com mensagens do futuro. Acho que cada um de nós deve fazer a sua leitura e buscar o seu próprio entendimento.

É esta, afinal, a grande missiva do autor. Que procuremos todos a flor, a nossa flor, com toda a valorização espiritual e hermética que ela comporta.

Uma coisa eu posso afiançar. É que o Promontório da Lua está cheio de campos de flores. Basta descobri-las com os olhos do coração.

Azenhas do Mar, Solstício do Verão de 2003



HYNO A CYNTHIA


Suave deusa da ilha
saturnina cynthia celta
romana vestal do ocaso
moura alma encantada
deusa que caças no bosque,
revela-me a tua face!


Eterna criança da lua,
amada e trágica ninfa,
revela-te!
E ao teu laço em desaperto.
A mim,
que me consigo mover
(como um fantasma)
por tuas árvores-estelas
teu mapa de muros vivos
tua cascata de orquestras
tua fonte, ao meio-dia estranha,
teu perfume de montanha
em mares de um vento d´além,
pelos palácios, veloz –
e como nuvem branca
ao fundear no teu colo,
renasço
no teu misticismo pagão
adorando a lua, bacante,
e sou o
noivo desvairado ao luar
devindo os olhos de um poeta
em viagem para a luz.


A mim!
Revela-me!
Mulher telúrica e virgem,
de teu corpo o selo
de tua fonte os amores
no santuário dos fetos
na cynthia dos eremitérios
dos conventos e das tabas,
em oriente,
dentro
de ti.


Revela-te!
a mim,
que padeço desta insónia
de amar tua branca aparição,
hárpica cynthia,
dá-me a visão, uma vez,
da tua face…
… e enterra meu corpo frio,
quando morrer, mais tarde,
dentro de ti,
antes do céu,
para que eu leia
no teu cabelo
frases com pena,
folhas com música
eternidade escrita
por um poeta.


E que depois de saciado na terra nua,
na harmonia do bosque mágico
em ritual sagrado e sensual
na clareira magmática eu renascesse
da pira quente do megalito
a um ritmo extático de cítaras
que a minha voz transformassem –
oh deusa mais pura, selena,
na de um poeta da lua.

JORGE TELLES DE MENEZES, in “Selenographia in Cynthia”, Hugin editores, Agosto de 2003.

CARTA A UM CAMARADA MORTO DE INGLATERRA PARA QUE RENASÇA EM SINTRA NA CASA DA AVÓ


Jorge Telles de Menezes Posted by Picasa


Não viste, George, no meu país a memória de um tempo em que fomos irmãos, em que fomos iguais; então combatíamos em contendas de cavalaria no Minho e no Lancastre, para conquistar corações e afinar pontarias para outras guerras; chamavam-nos antanho os Magriços. Nada do teu olhar pousou sobre a arca da aliança forjada na defesa de nosso torrão sagrado, nem por teu relance passou essa heróica união de armas e de sangue na Batalha para que sempre fôssemos independentes. Nem da estirpe comum soubeste, camarada, que levou essas naus impetuosas com a cruz herética do templo abaixo de todos os céus do mundo; não, não soubeste dessa arremetida no sonho, na utopia que teu conterrâneo More nos ofereceu. Tinhas razão, porém, nós é que no século em que vieste vivíamos sob o peso da saudade, saudade de tudo, até da própria vida... Vivemos demais em curto tempo, envelhecemos precocemente, fizemos o nosso melhor, esquecemo-nos da reforma, e se fomos iguais na infância, não passamos hoje de um velho marinheiro, que indiferente à higiénica ordem da tua civilização, contempla absorto e mudo o mar, um irmão teu que se tornou irreconhecível para ti, velho Albião, que doseaste bem tua energia, cresceste rapaz comportado, com boa educação, deitas hoje as cartas e dás meridianos sobre a mesa do mundo - apesar de nós sabermos de teus fáusticos pactos... Nossa diferença consiste em que o mundo em que tu ages e brilhas com glória já não o vemos, por isso nos deixa indiferente o teu moderno sucesso. Eu vivi a idade do verdadeiro ouro, aquele de que é feito o sonho, tu viveste na idade que comerceia com o que foi o meu sonho, transformando-o no ouro vil da matéria.

Eu estou há muito reformado da História, e como a reforma é uma miséria, vou vivendo de uns biscates em frente ao mar. Tu és um burguês rico e lustroso, jovem e confiante nas tuas certezas práticas sobre o mundo. O teu drama moderno nada diz ao meu silenciado ser, entendo-o perfeitamente, mas a minha religião, que consiste em não ter qualquer religião, não me provoca histeria. Tenho costumes que respeito, como ensinava Confúcio. Não me esqueço, contudo, do teu outro lado, oh fugitivo de ti mesmo, cantor exilado da liberdade absoluta, rebelde contra a própria ordem que te formou. A tua neurose, contudo, eu não partilho, o conceito de ordem na minha mente já não existe, eu ando em barcos à vela, meu rei é o vento.

Fizeste bem em vir visitar-me, inventaste o conforto e o fair-play, mas eu não gosto dos teus jogos, por isso dispenso também as tuas regras. Que pena não ter havido cinema nem música rock na tua época, terias vivido como um herói da imagem e mais um derrotado do coração. Afinal, tinhas que te sacrificar, oh prometaico herói moderno; eu morri nas Filipinas, lembras-te? quantos séculos antes foram? Vem, entra no círculo dos poetas-heróis, ali tens Camões, ele falará contigo. Vem, arrogante irmão mais novo, não me impressionas com teu drama burguês, nós compreendêmo-lo hoje, vem, volta para nós aqui em Sintra que amamos todos os românticos, vais ver que ainda não viste o que julgavas já ter visto.

Jorge Telles de Menezes, 17 de Maio de 2005.

ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

Sempre a poesia foi aproximação ao real. Mas que significa essa aproximação? Uma aproximação ao que no mundo nos faz sentir reais: a leitura de um poema, a conversa interessada e interessante com o outro, o silêncio de certos olhares, as lágrimas de certas dores ou paixões, uma paisagem na qual nos projectamos outros, com outro tempo e lugar… e a música e a pintura…

Afinal numa definição muito afim de certos poetas portugueses (uma Sophia, um António Osório, um Eugénio…), poesia será a preservação da árvore do real, sendo o real a raiz afectuosa em cuja matéria solar a arte poética, a visão do mundo de quem humanamente se vai mostrando… É que também a poesia tem para mim este não-sei-quê de revelação nunca revelada, constituindo um mistério fascinante essa mesma raiz, essa mesma matéria, essa mesma arte; fascínio diante do qual ficamos à espera que um poema aconteça!

Ora este livro de «sonetos» – imperfeitos, ambíguos, rendilhados, desafiando sempre o leitor a procurar um sentido do sentido – responde, por assim dizer, a poemas de vários poetas que fui lendo ao longo destes últimos dois anos. A modernidade de muitos, a modernidade dos melhores só fazia sentido para mim (ao lê-los) quando estes remetiam para a leitura de autores clássicos. Daí que a forma escolhida seja, ainda que camuflada, da nossa tradição lírico-especulativa ou lírico-sentimental, o soneto. Daí também que lirismo, como o entende Henri Brémond, dê as mãos a esse mistério do insondável à luz do qual, na presença de um poema, somos por instantes a árvore do real tremendo por dentro, tomando registo do outro que há em nós. Para que a árvore seja agitada e os pássaros desse real se evadam, se libertem das amarras humanas é preciso, pois, imaginar. O sentimento de evasão que estes poemas possam suscitar justificam, quanto a mim, o grau de metaforização desse real vivido, desvivido, sonhando e pressentido à medida que fui escrevendo este A Sombra no Limite. Preservar o real ou, se quisermos, preservar a imaginação, eis o que está em causa. E compete à imaginação de cada um descobrir em si o que se possa ser essa sombra e de que limite se trata.

Servem estas breves palavras para dizer que devo a coragem de apresentar estes textos a António Osório que pacientemente me foi fazendo acreditar que era possível apresentar uma nova proposta poética adentro do que em matéria de poesia entre nós se publica e a ele deverei a ressonância que estes poemas possam ter em leitores possíveis.

António Carlos Cortez


que sombra tem o limite da sombra e
que nome possui o teu nome além do meu
que folha é o papel pressentido na pele
que incontida beleza de águia de rapina
olhar de sol e luz é o nome do teu nome
que arquitectura é o fio de líquen com rigor de ave
que outra vida para além da vida desenho do corpo
(turva claridade a dos seios pelas mãos de pétala
brilho o do teu frémito feroz de rocha e lava
rigor o do tempo entregue às águas da noite
o teu nome é o poema interrompido na implacável cinza
das noites percorridas em lençóis de água)
que nome é o teu afinal que nome é o teu de mulher rara
que nome é o teu condição violenta das pedras da memória


espaço íntimo de ínfimo
espaço de pétalas e lírios e claras águas
o teu espaço é a carne concentrada em fogo
ó suspensa criação da nulidade inútil
teu som brutal íntimo das ondas
espaço aberto ao espaço sideral do corpo
suspensa diluição da flama em nada
lenta habitação da célula nocturnal diurna
espaço da cidade onde jamais te encontras
pétala da língua no fazer do tempo
mais total que a totalidade total do íntimo
mais total que a totalidade total de um corpo
mais total que a totalidade total do ínfimo
ó palavra inacessível criadora de tudo


há o teu reflexo a fazer de espelho sombra no limite
pesar a sílaba na balança e os teus olhos com elas
a rápida e intacta forma trabalhada da madeira
tempo sobre tempo e sobre o tempo ainda
há o teu reflexo apenas olha águia que é o sol
não sei mas há o teu limite um quadrado
que se vai despenhando até ao centro da sombra
até à deslocação da formatura que adormece
há o despertar constante e continuado de uma pétala
o teu ombro de crisálida num poema
há o teu reflexo com uma fecundada madrugada
um nível de verde sombra a que chamamos mundo
o olhar despenha-se é certo mas recupera o gosto
de desenhar uma espada com a direcção do corpo


é a um animal esplêndido que irrompe
é a imortalidade numa coluna de diónisos
é o vinho vindo só da tua boca
é esse gesto de nocturna consumação do dia
é um pirilampo de água tresmalhado da sua emanação
é um olhar vertiginoso numa sábia ignorância
é a invenção consanguínea à palavra terrestre
é um dilúvio precipitado no corpo
é um lento desfiar de cavalos jovens em praias eternas
é um sinal dado por ti numa manhã de inverno
é o fim da cerração e da treva é um existir de penumbra
é o cessar das cinzas e o fim de todas as espadas
é o regresso ao luminoso subterrâneo és tu
tu na tua certeza incerta de saber um não sei quê que vem não
[sei onde

António Carlos Cortez, in “A Sombra no Limite”, editora Gótica, Maio de 2004.

ESTEVA DE ALBA

Prestamos a nossa homenagem à poetisa esteva de alba que já esteve presente em sessões dos Meninos d´Avó.

Imagine-se uma sala desenhada a céu
aberto um espaço esférico assente em
raízes de carvalho antigo e adornado
pelos limites de um céu a invocar o
anoitecer
Imagine-se o bulício do ar tornado
partículas de luz insuflado pela
penumbra crescente
Imagine-se um profundo silêncio
convocando uma assembleia de astros
peregrinos
Imagine-se o silêncio valsando com a
solidão ao som de uma dança antiga
para celebrar um itinerário sem memória
Imagine-se um conjunto de cadeiras
solidárias dispostas em círculo a observar
o movimento
atentas ao equilíbrio das órbitas

Imagine-se então sob o signo da luz a
fala de cada cadeira e só essa
iluminada de som


EU

Eu de mim

Trazida
na voz que espalha o vento
enfrento-me

Do desfiladeiro do Tempo
arca sagrada das ânsias perdidas
recolho na palma da mão
retenho na raiz do momento
a anunciada memória
de uma virtuosa miragem

Vapores de mim
suspensos na viagem
errante do pensamento
revelam-se imagens
de entes do antes
que não conheço


TU

E tu - quem és
que só existes
nos fios suspensos de mim?

Contornos dúbios
de uma outra forma de ser
pressinto que estejas aí
a ocupar outra cadeira
da minha vida


ELE

No embalo das noites
claras já tão distantes da vigília escura
crescem os dias serenos
ampliando horizontes
e acolhendo novas companhias
na varanda do ser


Porquê um outro?
Ele nada é!
Não o deixemos quebrar
nosso cúmplice aprumo
a exigir outro arrumo
segredamos


NÓS

Nós
das mil formas
Nós
de todas as cordas

Quimeras de vitórias
fomos povo fomos gente
urro brado
grito inconsciente

Nuvens de pós
lançados ao acaso ou
fruto d´uma promessa urgente?


VÓS

Vós
voz frígida da autoridade
no comando e no confronto
entre irmãos desleais


ELES

Deles
eu sei
dos outros

Todos os outros
desalinhos do igual
enredos da não pertença

Eles
o restolho da diferença
para as sobras do nós


VOZES
TODAS

Tempo
dardo lançado
abrindo a direcção
dos possíveis
no itinerário dos deuses
e no coração dos homens

Divididos e multiplicados
por um todos fomos
sendo em todos
nenhum
revelou-me o espelho


O foco de luz apagara-se
As cadeiras vazias descansam
da enorme pressão do som e da luz
Atentas escutam a espiral do silêncio
que recolhe vagarosa os vestígios
da virgem memória
Arrumadas em outra arquitectura de
sentires estão agora mais próximas
quase unidas de braços para acolher
novo fio de luz herança do primeiro
já recolhido
E se a umas quantas cadeiras é
imperceptível o prenúncio desta nova
luz – por excesso de polimento ou de
rugosidades no verniz – outras
cansadas de estar sentadas
abandonam-se às mãos
guiantes e fraternas ávidas por receber
o pólen de ouro que as conduzirá
por entre as esquinas das
sombras

Assim que se retirarem da sala.

esteva de alba, in “Eu de mim e outras vozes”, Pé de Página Editores, Junho de 2003.

LANÇAMENTO DO LIVRO "SE UM VIAJANTE NUMA ESPANHA DE LORCA" DE ANTONIO NAUD JÚNIOR


Antonio Júnior Posted by Picasa



À Viagem

Cigano incorrigível por vocação luminosa ou oculto Fado, António Júnior realiza a vida nômade com que todos sonhamos, imersos em nossas vigílias sedentárias. É por nós, generosamente, que ele cruza oceanos, contempla as paisagens, sem hesitar penetra em labirintos, ausculta cavernas, desvela horizontes, revela territórios reais e poéticos, se expõe face a face com geografias desconhecidas e interroga o humano em Diálogos reveladores, sempre, por onde passa. Capturadas em vivências que ele transforma em palavras, preservando, nessa alquimia, a mais pura autenticidade, suas Peregrinações nos enriquecem de sabores e sabores novos. À maneira de Xavier de Maistre em sua “Viagem em Torno do meu Quarto”. Sim? Mas um Xavier de Maistre invertido, porque o quarto de António Júnior é o mundo. Como ele outro e lendário cigano: Marco Pólo, é à Viagem que eles convidam. E não apenas à exterior, mas também a nós mesmos. Aceitemos o convite.

por Vicente Franz Cecim, Andara, 03 de Maio 2005.


Um sorriso de Gato para um viajante na Espanha de Lorca

Fada sorriu para mim o seu maravilhoso sorriso de criança, que não é sorriso arquivado em memória de actriz, porque Fada, mulher feita e formosa por fora, é criança por dentro, e isso eu soube logo em nosso primeiro encontro, que despertou em mim uma tremenda vontade de brincar, de mergulhar com frescura de asas numa brincadeira sem limites, até sentir aquela febre infantil, aquele delírio de querer evangelizar o mundo adulto, frio, mecânico absurdo e cínico, com nossa fé na Imaginação, nosso credo infantil e pagão na bondade natural e última do universo criado.

Ana sorriu para mim aquele seu espantoso sorriso de inocência, que é um sorriso que lhe sai do olhar e que fica pairando como um livro de contos, com florestas e duendes, numa promessa de aventura sem fim, de sonho, de utopia como nos contos fantásticos de minha infância. Ana, porém, é mulher acabada na máxima perfeição, design biológico do mais belo traço, adulta em carne e espírito. Mas que Ana é criança por dentro também eu soube desde nosso primeiro encontro selenográfico sob o arvoredo protector da Regaleira.

Fátima sorriu para mim seu grande, vasto, imenso sorriso protector, sorriso da irmã que tem juízo, aquela irmã que desculpa todas as nossas tontearias infantis, que reúne os cacos partidos por nossos excessos e os apresenta depois como objecto novo, inesperado, anunciador da boa nova. Fátima vai escrevendo um diário deste mundo traquinas que é o nosso, um diário que guarda num recanto de seu coração, que não nos mostra para que sua seriedade e gravidade não perturbem esta nossa descuidada infância. Pois Fátima, mulher-mãe, mulher-guardiã, mulher-anjo protector também é criança por dentro, e isso eu vi desde o primeiro sorriso que ela me ofereceu.

Teresa sorriu para mim aquele seu subtil sorriso de princesa, que concede um halo de mistério à sua pessoa, e nos deixa acreditando que ela terá as chaves de entrada para todos os palácios ocultos no interior da montanha, lugares de sonho com tesouros, livros fantásticos, gnomos e fadas, onde toda a criança adora brincar porque aí só regem as leis da bondade, da generosidade e da entreajuda para todos os seres. E esse seu sorriso me convenceu de que ela é igualmente uma criança por dentro, apesar de por fora ela ser mulher que a natureza concluiu com esmerada perfeição. E isso eu li em seu sorriso desde nosso primeiro encontro.

Rui sorriu para mim aquele seu sorriso de pirata bonzinho, de quem está na aventura da vida somente para descobrir o tesouro do Ser, desafiando-nos a atravessar o oceano encapelado e brumoso do conhecimento, como quem brinca com um barquinho no pequeno regato que passa junto da casa com que todos sonhamos. Ora, logo que conheci Rui e ele sorriu para mim, eu soube que ele também era criança por dentro, como eu afinal.

E que fiz eu com os sorrisos de Fada, Ana, Fátima, Teresa e Rui? Peguei neles, juntei-lhes o meu sorriso, e fui dar o sorriso daí resultante a António. Porquê? Porque foi ele quem, no fundo, com seu livro à boca de cena (“Se um Viajante numa Espanha de Lorca”, Ed. Pé da Página, Coimbra, 2005), nesse palco trágico e místico que leva de nome Espanha, nos fez a todos sorrir de novo como crianças. Se um Viajante numa Espanha de Lorca é uma narrativa para aqueles adultos que nunca deixaram esquecida no fundo das escadas de si, a criança que um dia foram. Nosso sorriso só quer dizer que entendemos bem o que é ser-atirado-no-mundo com a integral inocência do poeta-criança, para descrever esse país de arrepiar, de assombrosa e excêntrica história de nosso irmão ibérico. Como crianças crescidas nós sabemos que «a substância de um olhar é um trabalho de longo aprendizado, porque leva tempo descobrir em que sentido estamos “dentro” do que vemos.» (idem, pag.85). Com toda a cumplicidade de um poeta-criança, aqui deixo para você, António, meu sorriso igual àquele do Gato de Carrol, o Cheshire, que fica só pairando no ar, sem rosto.

George Till, Aguda, 2 de Junho de 2005.



dentro das conspirações da alma, nas
montanhas
da lua,
vive uma dama prateada,

desnuda,
olhos permanentemente abertos; ao redor,
um véu azulado, montanhas
de silêncio

com docilidade
ela acaricia luas e vaga-lumes e árvores,
sem tocá-los

e também acaricia, leitor invisível,
soprando versos nunca escritos, exalando um
cheiro de mandrágoras,
hortelãs na axilas

às vezes, nada é realmente real
ou tudo é real-terráqueo
e sonho e intensidade e vida
conectam-se, e a dama prateada sorri.


António Júnior, in “Se um Viajante numa Espanha de Lorca”, Pé de Página Editores, Maio de 2005.

LANÇAMENTO DO LIVRO "SEMPRE TIVE UM VINHO MUITO CIUMENTO" DE FERNANDO GRADE

Fernando Grade um Poeta à boca da História

Destacados pelo império para o solaparmos por dentro das suas fronteiras – ninguém sabia muito bem a origem deste missionarismo destruidor – encontrámo-nos nas ruas ardentes de Luanda, nos cafés onde se escreviam revelações apocalípticas nas portas dos lavabos, e os denunciantes não tinham mãos a medir entre os jovens estudantes, os doidos, os poetas, as mulheres que nunca foram virgens, os agentes de outros impérios, os passadores de liamba, os teólogos em ruptura, os travestis, os masoquistas, outros poetas que falavam da loucura dos mortos, pintores bêbedos e morfinómanos, belas mulheres, também outras, que chegavam de barco e avião para oferecerem seus corpos aos desertores nas praias, enlevos arrebatados ao pôr-do-sol do império.

Era preciso que o Fernando Grade chegasse, porque havia um vazio antes dele, o vazio das palavras cósmicas, do ritmo planetário em que se desenhava o futuro dos impérios que tinham de soçobrar, de desaparecerem do mapa político, para que o Big Brother estendesse as suas garras até aos intestinos de uma Europa viúva, de uma África exausta, de uma Ásia adormecida, de uma América do Sul depauperada. Ele fazia falta com suas provocadoras conferências sobre arte contemporânea, seus poemas surrealizantes, seu inconformismo genético para colocar o problema da Revolução, que sorvíamos nos textos de Marx, de Guevara, de Bakunine, de Vaneigem, no plano da transformação mental e da clarificação dos costumes. Até na sua idiossincrasia ele fazia falta, com seu bengali, seu casaco de linho azul, sua boina preta e seu cabelo sempre mais comprido do que os regulamentos militares permitiam.

Depois do Grade, o poeta David Mestre nunca mais foi o mesmo e crismado ficou de Xoné, o poeta João Serra nunca mais foi o mesmo, para além de ter passado a ser o João Maluco, eu próprio nunca mais fui o mesmo e passei a ser o “Jójó”, e quando partíamos à boleia para os planaltos ou o deserto com a “beat generation” na mochila, os olhos cheios de flores de San Francisco e libertarianismo de Amsterdam, passámos a levar também a antologia do «Desintegracionismo», desse último ismo da literatura portuguesa, movimento fundado por ele e outros poetas como o Armando Ventura Ferreira ou o Hugo Beja, para jantarmos os corpos amazónicos das Cuanhamas no gelo que o Grade trazia da Gronelândia (V. Poema de Fernando Grade «Uma Rapariga na Gronelândia ou Jantarei o teu Corpo sobre o Gelo», in «Desintegracionismo», Lisboa, 1965), incendiando a sintaxe do catecúmeno Português liceal para obter novas formulações sobre o ocaso de um império perante nós a desintegrar-se. Democracia, sim, mas onde ficaria o amor, revolução, sim, mas onde ficaria o pacifismo de um Cristo social? Perante a boca dos fuzis nós representávamos, com a vida na ponta das mãos, a angústia dos palhaços.

Num império em declínio toda a gente está de passagem, os próprios colonizados estão de passagem para serem cidadãos do seu país, todos lançam sementes para o ser que encontrarão no espelho quando o dia zero chegar. Por isso também o Grade partiu um dia, deixou o quarto da pensão na Maianga, as amantes fáceis e as mais difíceis, quadros da série «Teoria das Multidões» no Museu de Angola, a fulminância do gosto intervencionista, saudades, exposições, conferências, poemas, as sementes de que precisávamos para o dia zero. Deixou um exemplo de coerência e desassombro para combatermos até ao crespúsculo no nosso posto de poetas incontroláveis.

Nesse teatro trágico, sanguinário, em que vida e morte combatem no teu próprio corpo, em tua própria mente, nessa macabra encenação que o império escolheu para o seu destroçamento, a nossa trincheira chamava-se poesia. Depois de o Grade partir, o David Mestre Xoné, o Jorge Ribeiro e o Jójó, criaram o grupo Poesia-Hoje, para lerem poemas do Agostinho Neto, do Viriato da Cruz, do António Jacinto olhando nos olhos os inspectores da pide presentes nos recitais. Descobri os musseques e a sua imensa vida espiritual, era lá que eu aprendia a tocar piano com meu professor africano, era lá que eu ia às missas evangélicas para ouvir os gospels, era lá que eu amava. De madrugada, o Xoné e eu sentávamo-nos nas esplanadas dos cafés fechados na baía de Luanda, e na noite húmida e inchada de violência contida, líamos, escrevíamos, conversávamos do futuro nas entrelinhas. Tudo acabou mal, muito mal, da pior maneira possível. A pide matou. Um soldado podia ser poeta, mas a poesia não devia agitar o sono hipócrita da ordem moribunda.

O novo era mais forte do que o velho, foi por isso que andámos juntos nas ruas de Lisboa no 25 de Abril de 1974, não precisávamos de nos ver, andávamos lado a lado, éramos todos um único querer durante momentos que pareciam nunca acabar. O novo enterrou o velho, o velho enterrou o novo, e vimo-nos então no Chiado, no Verão Quente de 1975, enquanto os ingleses desciam a Rua Nova da Trindade, com seus sorrisos sardónicos, lendo em voz alta dos cartazes que cobriam todas as paredes, num coro que nunca parava: Pi Ci Pi! Pi Ci Pi! Pi Ci Pi!. Dei-te um poema novo nessa ocasião, não sei o que lhe fizeste, mas disseste-me na altura com toda a tua franqueza que eu não percebia nada da tua «Teoria das Multidões». Talvez na altura não percebesse, mas com a evolução que as coisas tiveram no nosso país e no mundo, garanto-te hoje que a única teoria das multidões que eu percebo é a tua.

Que não se ofendam os presentes por eu estar a escrever para o futuro, mas para além do calor que a poesia do Fernando Grade continuará a irradiar, calor do sonho, da rebeldia, da utopia, é essencial que se saiba que ele é um exemplo alto do que é um escritor empenhado, como um actor na boca da história, empenhado na escrita, mas primordialmente empenhado no homem, no social, nas questões fundamentais para todos nós. O que distingue o seu empenhamento é a sua vertebração poética. Falo de uma unidade nele manifesta entre o ser social e o ser poeta: coincidência plena. Bem pode a comunidade regozijar-se por existirem tais seres como ele, embora igual eu não conheça, para que ela se reveja no seu inconformismo como um sinal de esperança, daquela profunda esperança que todos temos no desocultamento do ser que tudo clarificará. Enquanto vivermos temos a responsabilidade de colocar questões fundamentais ao Fernando Grade.

Jorge Telles de Menezes



TRAGAM MAIS VINHO PARA OS ROMÂNTICOS

A maior morte que aconteceu na minha infância
foi Billy the Kid.
Por esse tempo há muito tempo passaram
frutos e pedras e, então, havia aves a descerem
para o mar, havia névoas da cor das uvas
moscatéis e, talvez, a salsugem
e as sestas saboreadas dormidas em cima da caruma
nos Capuchos; era uma altura
em que o teu corpo ainda não me ameaçara
com o mar dos feitiços.
Volto atrás e sou meninos
tenho uma madrinha que era fanática
pela praia da Adraga:
os méis ainda estavam todos vivos,
não havia um verme lustroso
a roer a maçã,
foi numa noite de Verão com vento
que apareceu morto Billy the Kid
apunhalado na minha caixa dos brinquedos.

Agora quando vou aos Capuchos são outros os meus fantasmas:
o teu corpo está à beira do tempo:
os segredos que nos uniram
a mim e à parte fumegante que de ti resta
são como trapos sangrentos;
olho para o retrato da tua boca
como se fosses feita de
Lama,
nuvens que nunca vi.
Mas gostava da maneira como tratavas as plantas:
as plantas são crianças indefesas
que sentem as catástrofes
lambem a neve das estradas.

Vivi uma destas tardes a praia toda
o mar fulo, rebolei-me na areia velha onde cresci alguns verões,
lá estavam os mirones, porventura os filhos dos outros mirones,
o coxo sábio e o maneta,
tudo a cheirar a chuva e a muito sal,
as casas grandes eram sempre neuróticas
ter uma casa enorme aberta às brisas
era como sustentar uma rapariga neurótica.
Bem, havia sombras afugentadas por olhos de
pedra, lábios submersos por maçãs
vinhedos, o sabor bruxo dos pêssegos
a resina a escorrer para o rio de Colares

A praia da Adraga
foi o vinho mais feliz da minha vida.


POR QUE NÃO CHOVEM AQUI AS TUAS LÁGRIMAS?

O lobo das trevas posso ser eu.
Olha bem os dentes de saibro que deixei crescer por dentro da alma.
Repara que as tardes caem, chega o vento atiçado de mar,
gordos peixes, a salsugem
tem o peso sórdido dos navios com sereia,
todos os objectos de som e larva vão começar
a ter ferrugem digna de quem não sabe a cor da pressa.
Acorda, pressa mansa, acorda: os objectos tornam-se
seres, respiram por brânquias, poros de seda,
talvez pulmões onde o aço do sangue corre até ser dia
de um novo sangue.
A minha vida desce no vácuo, destruí com as próprias mãos
as roseiras. Alguém de azul e noite pegou nos cristais
como se fossem dedos de capador: as angústias arderão
qual carne rose de rena, porco de muitos.
Um longo bafo vertical cava nos ossos o sítio esconso
onde o fogo reina, e na crosta onde o fogo é pantera e rei
passa um rio: sempre o retrato fugitivo da minha vida
em serpente de astros, palha de vassoura e obus,
sempre as românticas trevas e os beijos do lobo
e rente aos canaviais o meu inóspito coração de vagabundo.
Fulminadas as portas de sebo com as chaves dentro,
os dentes mágicos do lobo vivem, rasgam a sintaxe e
os olhos de cisne, misturam o deserto sem motores ou lâmpadas
no gosto por placentas e raízes.
O verde zero que foi pedra há-de afastar-se de mim
na velhice; quero ser um velho súbito, varão de roupas
em chamas, colete de terra.
Estão preparados os andaimes para que o clítoris
possa ser fogo cru e vir chamar-se coração.
Assim como o lobo das trevas posso à mesma ser eu,
chão d´uvas, rostos minados, pedras, e o sangue
novo canta sempre:
- POR QUE NÃO CHOVEM AQUI AS TUAS LÁGRIMAS?


AULA DE FILOSOFIA

Eu sei:
em Sócrates,
que foi o fantasma rústico de Platão,
tu sempre foste burro.
Ou burra
(com ou sem asas),
minha cálida e sórdida gorda.

Águas carnais nos olhos de Moira e de Lorna,
o salitre roído por larvas aos pés de Jurgen.

Os meus alunos serão gagos da alma?,
ou sou eu – anticasto – gago de mim mesmo?

Vejo-te deitada na cama com Spinoza.
Descobri que vivias satisfeito e latino
nos braços vulcânicos de Heraclito.

Sentei-me em cima do sangue do toiro morto
e em todos os beijos há uma fenda de água.

Sei
de conversas fúteis que não sabem a morango.

Fernando Grade, in “SEMPRE TIVE UM VINHO MUITO CIUMENTO”, Edições Mic, Maio de 2005

sexta-feira, setembro 23, 2005

POEMAS LIDOS NA SESSÃO Nº 18



(02)

havia sobre a mesa, mangas maduras,
um copo d´água de côco bem gelada,
uma flor desconhecida,
mas de aspecto dulcíssima, e carnuda,
de onde se extraía só com o olhar,
a beleza mais voluptuosa já vista
- esta flor agonizava no vaso,
numa morte lânguida, e morria digna.
havia abacates apodrecendo dentro do frigorífico
e limões graúdos, intocáveis.
havia uma ausência de fome
no quarto desabrochado
onde os amantes, nus, saciados,
desprezavam a fatia de carmim de melancia
exposta na mesa da cabeceira.


(04)

deixas que preencha tuas mãos
com o meu sexo úmido,
e feito cortesã, puta cadela,
um desonrado anjo azul,
permitas que ponha a cabeça,
pulsando rubra, trêmula donzela,
nos teus lábios macios, e faça desta maçã
um néctar deslizando na língua vibrátil.
fecha os olhos, não me olhe,
nem de viés, temo que desperte do extâse.
vejo que tremes o peito
e as narinas cantam
como o vento mais brusco.

apoiando-se na cama,
ergue lentamente os joelhos ossudos,
sentindo o mel do melhor
e suspira,

suspira a eternidade de um amor sem máculas.


Antonio Naud Júnior
da série «GOZO Y SOMBRAS» (poemas eróticos pensando em Konstantinos Kaváfis)
Cádiz (Espanha) 2005.



De coração vazio

Nós que nunca chorámos um único dia deixado por viver
Não iremos ter quem nos limpe as lágrimas ao lembrarmos o que deixámos por fazer
Então um dia iremos sentar-nos sem encarar a noite e
esperar o amor passar
Aguardar as horas mais perdidas sem nunca as ver regressar

Tal como uma vez, ingénuos os amantes prometeram amar-se
num grito rouco
Nunca eles tinham adivinhado as suas palavras num breve sufoco

Somos uma vida deixada por acidente numa jovem palma da mão
De quem tem boca mas nunca arrisca dizer sim ou não

Tudo nos foi dado, cada dia e cada sentimento
Um vago amor, seguido do abrupto arrependimento
E fugimos das paredes que falam repetindo versos de poesia
que nós cantávamos
De coração vazio em direcção ao nada, desencontrados com o fim que ansiávamos

Maria Gomes, in revista "Singularidades, nº24", Nov. 2004


Sozinhos sem reparar

Dizem que a porta de casa está sempre aberta para quem se lembra do caminho
Mas já são tantas as pessoas que não caminham temendo deixar o seu rasto no chão
Como marcas na lama para toda a gente ver e apontar, olhar de perto e até tocar
Todos nós que mentimos até acreditar, todos os que perdoamos e não esquecemos
Estamos sozinhos sem reparar, e sem respirar continuamos a pensar em viver
E guardados pela solidão esperaremos até nenhum coração bater
E se olharmos pela janela, até o vento parou para ver

Maria Gomes, in "Singularidades, nº25", Maio, 2005



MONSERRATE

Digo monserrate.
A palavra toca das suas inúmeras patas o meu corpo desviado.
...a concavidade do som que se desfaz em bola de
sabão sobre o terreiro que aquaticamente estala, os anos
que passam ao fundo...

Alexandre Vargas, in “Vento de Pedra”, Moraes Editores, Lisboa, 1981.

quinta-feira, setembro 22, 2005

LANÇAMENTO "ESTILHAÇOS DO ESPELHO DE ALICE"


Fernando Dias Antunes



Salto sem Rede

Verso Irreverso

Está decidido
Doravante como sempre aliás
Não há futuro nem ontem
Neste barco à deriva da razão
Vogando nos labirintos do prazer
Sem guia de bordo
Ou manual de sobrevivência
Ao leme só sonho e desejo
Ausência de horizontes
Não há abismo intransponível
Nem eu
Ancorado no buraco negro da realidade


As musas

Com todos os sentidos

No mar doce da tua pele
sorvendo o orvalho que escorre
do suor quente do teu cio
poro a poro me sacio
no musgo da tua fonte de sal e mel


O espírito do lugar

Goa bucólica

Sopra quente o vento tímido
nas margens verdes do rio
salpicado de nenúfares.
Dançam garças no arrozal
e a doce flauta de Krishna
insinua-se por entre o bambu
ondulando
nas ancas das lavadeiras.
Mistura-se o mel e a manga
no ébrio incenso do âmbar.
Enlaçam-se os corpos
sequiosos
na sombra fresca do palmar.
Ao longe, o repicar dos sinos
chama os deuses para a festa do desejo.

Fernando Dias Antunes

MEMÓRIAS D´O OUTRO LADO DO ESPELHO

Prestamos a nossa homenagem à galeria de arte O OUTRO LADO DO ESPELHO que dinamizou as actividades culturais em Sintra nos finais dos anos 80 até a meio dos anos 90.



Aportaram os primeiros pedradores, em clans que buscavam refúgio, casa e a água miraculosa das fontes. Estávamos na era da Grande Mãe, a fértil parideira e o estranho magnetismo lunar da montanha levou-os a edificar o primeiro templo à nívea face da divindade.

Vieram os do fogo e do metal, alquimistas de civilizações desaparecidas, com sua religião megalítica. Deixaram as pedras sagradas, druídicas em lugares não casuais, envoltas nas brumas da Floresta Encantada.

Chegou o Grego e nome deu: Kynthia. Era a montanha da Deusa, Diana de Janas. O empreendedor Romano, suas vilas construiu em abundância, na idílica planície, olhando o mar que nunca lhe pertenceu. E o do Crescente, aqui lavou seu exílio em sangue, que o Português temerário, lhe não perdoou a conquista.

Desembarcaram reis, artistas, poetas. E a montanha ia-se tornando o painel gigantesco onde mãos inspiradas acrescentavam sempre um novo signo. Assim ela se transformou num imenso livro ou numa pintura. Só era necessário saber interpretar essa maravilhosa carta mitológica.

Os Grandes Solitários, os últimos pressentiram já que Cynthia desafiava todos os conceitos de realidade. O seu jogo decorria precisamente entre aquilo que nós sentíamos como real, e que não era mais do que uma aparência, e a imagem sem fuga que o espelho oferecia.

Chegaram por fim os dO OUTRO LADO DO ESPELHO. Agora sim, de uma vez por todas, alargava-se a realidade. Entrava-se por uma porta como todas as outras, mas de imediato nos apercebíamos que aqui começava qualquer coisa de diferente. Podia-se ficar ali horas esquecidas, que sempre um pormenor novo nos recordava, fugitivo, que estávamos já de facto nO OUTRO LADO DO ESPELHO. Sair dpara a lineridade das coisas, das caras, das ruas, era sempre difícil. Ao contrário de Alice, bastava-nos abrir os olhos para começar a sonhar.
Quanto a mim, desde esse dia que nunca mais saí dO OUTRO LADO DO ESPELHO.

Jorge Teles de Menezes

AGENDA DOS MENINOS D´AVÓ

Temas e sugestões apresentados no inicio da tertúlia:

A sessão de dia 21/09 foi a 18ª tornando esta tertúlia poética na mais douradora da actualidade.

Realização de uma feira do livro pela associação 3 pontos no fim de semana 24/25 de Setembro em Fontanelas.

Realização da primeira reunião da associação Alagamares e eleição dos seus corpos sociais.

Comemoração do terceiro aniversário do referendo que levou Timor Lorosae à independência.

Recordação de H.G. Wells.

Debate com os candidatos à câmara municipal de Sintra sobre cultura, realiza-se dia 26 de Setembro na casa do teatro de Sintra às 21h.

Sugestão de teatro: A Menina Júlia, obra de Strindberg levada a cena na casa de teatro de Sintra pelo grupo de teatro de Sintra.

terça-feira, setembro 20, 2005

OS MENINOS DA AVÓ:

Rui Lopo (ao centro) em confratenização

A ideia é já antiga. Reunir poetas, actores, leitores, ouvintes. Reunir seres humanos em redor da mais acolhedora das lareiras: a Poesia. Saudosos de outras tertúlias que o tempo consumou e consumiu, sentimos chegada a hora de retomar o hábito de nos desabituarmos da vida em prosa. Ei-nos regressados ao convívio das palavras.

Nenhum lugar seria melhor do que a Casa da Avó para nos encontrarmos: última casa de pasto da Vila de Sintra, imagem de todas as casas de pasto, como aquela em que, um dia, Fernando Pessoa conheceu Bernardo Soares. Este lugar soube preservar a alma de Sintra e é isso mesmo que os visitantes mais avisados procuram e não a aborrecida assepsia dos ares condicionados das estações de metro ou das agências bancárias. É a isto mesmo que se chama património vivo da Humanidade. A alma.

Todas as primeiras e terceiras quartas-feiras de cada mês, pelas 22 horas, estaremos na Casa da Avó, junto ao Museu do Brinquedo na Vila de Sintra. Nas primeiras sessões de cada mês haverá um tema pré-determindao, na outra o tema será livre. Por aqui passaram e passam poetas, músicos, saltimbancos, marinheiros, errantes, visionários e todos os outros… e nós? Por que não?

A poesia está na rua. Não pisar.

Rui Lopo

APRESENTAÇÃO DOS TATO



Os amigos brasileiros Katiane Negrão e Dico Ferreira (TATO Criação Cénica), apresentaram o seu espectáculo Tropeço, um conceito inovador de teatro de mãos que sensibilizou todos os presentes! Aos TATO agradecemos a sua presença, esperemos por nova visita em breve e desejamos muitas felicidades no futuro.


Cenário da representação


Teatro de mãos

LANÇAMENTO "IGNOTA FAUNA" DE PAULO BRITO E ABREU

«Ignota Fauna» é manobra e manifesto duma certa alteridade, do eubiótico e crítico direito à diferença. Essa diferença é o sonho, ou discurso do Outro, por isso mesmo, avisamos: o «Verbo Escuro» do Teixeira de Pascoaes é a «Noite Escura» e pura, do S. João da Cruz, de tal sorte que assertaremos: meninos de sua Mãe, todos os Poetas se alimentam, ou lactam, no úbere e nos peitos da Noite universal….

Paulo Brito e Abreu


Loas à IGNOTA FAUNA de Paulo Brito e Abreu

Disseram: o Paulo está passado. Retorquiram: mas não passou, nem nunca passará; passou-se da chatice vazia do vosso quotidiano, que é coisa bem diferente. E digam lá, sem inveja e com uma pontinha de sinceridade: quem não gostaria de se passar deste quotidiano achatante para um mundo muito melhor, como aquele tão beatnífico em que o Paulo navega seu carro alado, tal anjo mercurial? Vá, admitam, um poucochinho que nos baste, que viver, nem que seja por uns momentos no mundo do Paulo, é como respirar um halo de beatnítica beatitude, é deixar o Ser ser sacudido de camadas bolorentas e atrofiantes de hábitos e de um costumeiro ir sendo; é também sentir o fluxo vital que habita no seu espírito como uma dádiva da Graça (porque o Paulo é in-graçado!) tocar-nos, libertar em nós gargalhadas primordiais que não imaginávamos existirem nos absconsos do que somos; ah, o mundo do Paulo não é deste-mundo-aí-existente. Eis o nosso santo Paulo, aquele que nos devolve (se andarmos perdidos dela...) à inocência absoluta de existir, à criança anterior a todas as religiões instituídas, anterior a todos os sistemas de governação, anterior a todos os sofistas, teólogos e médicos; ele é aquele que nos deixa EXISTIR sem culpa, como crianças indomáveis. O Paulo é uma criança selvagem, por isso é santo. O Paulo é louco, por isso é santo. O Paulo não corta o cabelo, por isso é santo. O Paulo é santo, santo, santo!
- Oremos! – elevando nossos copos.

O Paulo é anarquista. O Paulo já fumou haxixe. O Paulo disse à tropa em guerra que a tropa dele eram os Rolling Stones. O Paulo desvirginou a filha de um oficial do exército. O Paulo foi por isso internado num manicómio e amou e foi amado pela psiquiatra que o ‘tratava’. O Paulo foi expulso de uma banda de rock and roll por querer revelar as suas profecias ao som do rock. O Paulo sub-viveu. Super-viveu. Sobre-viveu. O Paulo nasceu a protestar, foi nik beat, hippie, yippie, mas nunca um yuppie, por isso é santo. O Paulo é dionisíaco, por isso é santo. O Paulo toma banho uma vez por semana, por isso é santo. O Paulo é um inimigo de todos os sistemas políticos que recusam a emancipação da humanidade, por isso é santo. O Paulo é inrockuptível, por isso é santo.
- Oremos – elevando nossos copos.

O Paulo escreve loas à lua e cânticos imortais para a tua rebelião. O Paulo é prometaico e acredita que os poetas são possuídos de uma loucura inspirada pelos deuses, uma mania, por isso a sua ensaística é delirante, ela nasce da concessão pelas divinas potentades da faculdade da clarividência. Ele sabe, com Platão, que a alma é imortal porque ela se move a si mesma, é animada, e por isso o seu espírito é antigo, porque ele se recorda de já ter contemplado a verdade quando olha hoje para as coisas citéreas e constata que a mentira é a senhora deste mundo, a fomentadora da injustiça, porque o homem se esqueceu que um dia já contemplou a verdade das coisas e conheceu os mistérios supremos do Ser. Mas o Paulo não se deixa enganar pela mentira. Aliás, ele encontra-se aqui somente para receber as asas e partir, pois esta julgo eu ser a sua terceira reencarnação como filósofo, esteta e poeta. Agora que sabemos que o Paulo tem asas invisíveis e que ele transmigrará para junto dos eternos, digamos com convicção que é por as coisas serem assim que o Paulo é santo. E porque na sua rebelião de alma antiga ele não pode ser aceite em nenhum partido político ou grupo anarquista, digamos irmãos, com convicção, que o Paulo é santo. E porque o Paulo nos ama a todos na sua comovedora compaixão, repitamos: o Paulo é santo!
-Oremos! – levantando nossos copos.

Ouçamos, então, amigos, o delirante ensaísmo do Paulo, melhor seria dizer, os ensaios que a própria Loucura escreveu pela mão do Paulo. Não tenhais receio da loucura, irmãos, pois como diz Freud citado pelo Paulo, ‘em todos os tempos, aqueles que tinham alguma coisa a dizer, mas que não podiam dizê-la sem perigo, se cobriram com o barrete dos loucos.’


Considerandos para a Beatnificação de Paulo Brito

Perante esta tão digna assembleia de lunáticos con-frades e co-madres da Ordem de Cynthia, e outros ex-cêntricos e ana-crónicos Amigos aqui presentes, vimos postular, após uma investigação preliminar que confirmou por inequívocos testemunhos a sua fama de beatnikitude e de prática de heróicas virtudes, o Poeta de ‘Loas à Lua’ como membro da nossa intangível Ordem.

Ao estudar os seus escritos encontrei evidências claras da sua vida mística, que atinge os planos mais altos da contemplação e da profissão da simplicidade. Também não encontrei factos de ordem mística ou doutrinas desviantes que costumam atrasar estes processos. Postulamos, por conseguinte, à apreciação da Suma Sacerdotisa de Cynthia a beatnificação do Poeta de ‘A Minha Tropa Foram os Rolling Stones’.
Irmão beat e nik Paulo, fratre nostrum: junta-te a nós na celebração de tão auspicioso evento!

Jorge Telles de Menezes



A caminhada dos pacifistas

Caminham com flores brancas brilhando nos cabelos
Um cigarro rubro na mão direita
A matéria do poema renascendo
Nos seus lábios puros como trigo
A Revolução da paz cantada até ao Sol do alvorecer
Cantam músicas dos Beatles e dos Stones
E fumam ervas orientais até que o mesmo Sol
Dê luz às suas guitarras de mel e Parusia
Não falam de bombas mas sim de papoilas
Vermelhas como o sangue que lhes corre
Nas suas veias abençoadas
Nunca morrerão


O arcanjo do esterco

Em ti começa a bênção do piolho.
Em ti começam as avenidas porcas;
Passa por ti o corpo de Diógenes
E a barba dos primeiros cristãos…
Por isso eu vou atar a tua Loucura
À minha Santa Paranóia, rapariga
Piolhosa e despenteada.
Vou dar-te a minha penugem deslavada
E o meu sotaque americano;
Vamos saborear a Sabedoria do Silêncio
Em sacos velhos e rotos cheios de estrume,
Poetas sendo todos aqueles
Que queimam as suas narinas
Na carraça do tabaco
E na sífilis do vinho

Paulo Brito e Abreu, in "A minha Tropa foram os Rolling Stones"

LANÇAMENTO "CANTOS DE AMOR" DO VI DALAI LAMA

Paulo Borges numa sessão dos Meninos d´Avó

A presente obra, juntamente com o seu autor, constituem certamente um dos casos mais singulares de toda a história da literatura e da espiritualidade. Nestes Cantos de Amor, Lobsang Rigdzin Tsangyang Gyatso, “Precioso Oceano de Pura Melodia”, o VI Dalai Lama, elo da respeitável e venerável linhagem de incarnações de Chenrezig, o bodhisattva da compaixão e protector do Tibete, que desde o século XV até ao presente assume a suprema autoridade espiritual e política tibetana, nada oculta de tudo o que lhe valeu a fama de poeta boémio, libertino, rebelde e iconoclasta, e que contribuiu para a sua curta vida e o seu fim trágico.

Paulo Borges, 5º DIA DO 3º MÊS DO ANO DA AVE DE MADEIRA (2005)


CANTO DA VIAGEM

Sobre as altas montanhas do Este
Ergue-se a lua, clara e branca.
No meu espírito revoluteia
A eternidade do teu rosto.


CANTO DE LHASA

Pavões da Índia oriental,
Papagaios das profundezas de Kongpo,
Nascidos embora em países distintos
Em Lhasa se reencontram, onde gira a Roda do Dharma.


CANTO DE UM JOVEM AMANTE

Ó florescente malva-rosa,
Se ofereces a tua glória ao templo,
Leva-me nas tuas pétalas,
A mim, a jovem abelha turquesa!


CANTO DA AUSÊNCIA

Minha amada desde a infância
Não é ela irmã do lobo?
Saciada de carne, farta de amor,
Regressa à sua montanha!


CANTO DA EXPERIÊNCIA

Quando se extingue a estação das flores
Não se afligem as abelhas.
Quando finda a estação dos corações
Não se entristecem os amantes.


CANTO TÂNTRICO

A pura água de neve da santa Montanha de Cristal,
As gotas de orvalho da adamantina erva dos Nagas,
Essência da ambrósia fermentada pela Filha do espaço
De sabedoria
Incarnada como uma taberneira,
Do renascimento nos reinos inferiores os
Bebedores salva
Se o néctar haurido for com espírito sábio!

(Tradução feita por Paulo Borges)

Nuno Vicente - Sessão zero

DE SÚBITO, LORD BYRON!

“He was also a great poet and wished to be admired: two incompatible desires, and an immense source of unhappiness for him”
(Stendhal, “Memories of Lord Byron, 1829)




Precisamente numa quarta-feira de Primavera deste ano, George Gordon, mais conhecido pelo seu nome aristocrático, Lord Byron, regressou a Sintra. Havia o vento, algum calor mas nem sombra da auréola de neblina que verte um ambiente de mistério à vila. Noite de azul profundo, perfumada por inúmeras ervas e flores aromáticas; de um silêncio absoluto em harmonia com as sensações e sentidos, como se um segredo fundamental estivesse disposto a revelar-se. Nesta paisagem romântica e sensorial, um pouco acima do Museu do Brinquedo, na Casa da Avó, poetas e admiradores do lírico, chamados de “Meninos d’Avó”, iniciavam mais um dos habituais encontros poéticos. Então, de súbito, numa deslocação instantânea, Lord Byron surgiu com um grosso volume entre os delicados dedos, atravessou o salão e sentou-se, pedindo discretamente uma taça de vinho tinto à Paula, a dona do simpático local, que também é desenhista nos momentos de ócio. O seu belo porte cintilava e os olhos não escondiam um destino plúmbeo, uma melancolia acentuada e um caráter excepcional. Pronto para conceder poemas inéditos, guardados na memória durante quase dois séculos, desvendando assim a Serra da Lua e sua concentração de energia visionária. A passagem do poeta inglês por Sintra, em julho de 1809, dera origem a versos: “Ó minha Sintra, és cá um Paraíso glorioso / mas o capacete de neblina que trazes sempre na tromba / Faz-me sentir saudoso / da minha solarenga Albiona / Bem, sempre é melhor fugir para Missalonga com um marujo português / E quem fala assim não é coxo / Como eu” (Tradução de Mário Nafarros, anos 50). Retratou-a como bela e enigmática, não tendo em grande conta o caráter dos portugueses, ditando-lhe algumas critícas lendárias que ainda hoje silvam como um látego no poema ”Childe Harold’s Pilgrimage”. Ele lembrava-se de tudo isso, os olhos piscando por momentos como asas de colibri – quase um adormecimento ou um princípio de desmaio, talvez fadado a tornar-se forma espectral. Ficou como que no centro de um palco, ao alcance do meu olhar semicerrado a acompanhar os seus movimentos. O que fazia Byron na Casa da Avó? Ou o que é a Casa da Avó? Calma, meu caro leitor. Eu explico direitinho.


O local foi fundado durante a I Guerra Mundial por uma velha camponesa viúva, avó Madalena, de uma estirpe de muitos filhos e netos, dois deles ainda vivos. É uma casa de pasto (restaurante popular com receitas caseiras) que mantém a velha tradição, conduzida atualmente com boa vontade por Paula e Luis Ribeiro. Quinzenalmente, às quartas, os Meninos d’Avó reúnem-se para ler ou ouvir poesia na pequena sala do restaurante, entre muito vinho e, por vezes, um suculento bacalhau à Brás. Organizam noites temáticas (a mais recente delas, Revolução, com poemas de Pablo Neruda, José Gomes Ferreira, etc.) e homenageiam poetas, porém quase sempre o tema é livre. Por lá já passaram figuras supimpas: Paulo Brito e Abreu, Fátima Freitas, Risoleta Pinto Pedro e tantos outros. Os talentosos Carlos Pinto e José Ricardo – o angelical Zezinho! - respectivamente engenheiro de som e fotógrafo, estão sempre presentes, atentos, embora nunca abram a boca para a récita. Atores mostram sua verve, desde Rui Mário, do Tapafuros a Nuno Vicente, do Utopia. Rui Lopo, Jorge Telles de Menezes e Rui Bráz dirigem sutilmente o espétaculo, sempre dando preferência ao espontâneo. Menezes, autor do vibrante “Selenographia in Cynthia”, interpreta poemas de forma pausada, sentida, com uma voz grave, carregada de vivências. Na noite em que recebemos a visita de Byron, leu poetas germânicos do pós-guerra traduzidos por ele próprio. É um grande escritor, poeta, ensaísta e tradutor à procura de um editor com consistência. Procurando superar a timidez e uma tendência para mergulhar numa emoção intensa e contida, pouco a pouco, vou tomando o gosto da “performance interiorizada”. Considero-me, e com um certo deleite, um dos Meninos d’Avó. Esse é o panorama, a geléia geral: poetas abrem a boca e lêem poemas, seus ou de nomes mais sonantes.


Assim, entre nós, entusiasmados espíritos delirantes, Lord Byron, com uma voz aveludada e magnética, clara e firme, sem esconder rasgos de sensibilidade, falou sobre Drummond, Mário e Oswald de Andrade; a seguir leu o brasileiro Carlos Oliveira. Durante o sarau continuou com uma série de leituras carismáticas, pontuada com reflexões literárias cheias de desenvoltura e sensibilidade. Sua beleza luminosa, de estampa de cinema, provocou encabulamentos. E êxtase, como foi o meu caso. Parecendo que por dentro estava a arder e, ao mesmo tempo, tomado por um gélido e discreto embaraço, o poeta disse-nos o seu nome: Antonio Cortez. Ah, Byron, que pseudônimo, que alter-ego, que heterônimo, que personagem, que verso vivo, que possessão espetacular! Cortez, Antonio Cortez, sim, gosto, admirável eleição. Pouco depois da meia noite, cumprida a sua missão, ele partiu, despedindo-se amavelmente e deixando a promessa de voltar. Cheguei a imaginar um indômito alazão negro à sua espera. Enfeitiçado, prestes a rebentar de luminosidade, levantei os olhos e vi o fundo dos seus olhos. Lá estava a sua história, a história de um aventureiro que viveu dores insuportáveis, que tinha um leque de preocupações humanitárias muito para além do seu tempo, que escandalizou o mundo pela sua pose elegante e as várias relações afetivas de ambos os sexos, que deixou uma obra romântica de profundo interesse.


Toda a criação de Lord Byron está trespassada pelo pessimismo, revolta contra os outros e contra a sociedade, podendo ser vista como um grande painel autobiográfico. Apesar da violenta ironia, do tom declarado de rebeldia, a melancolia quase sempre acompanha os seus versos. O poeta era um sofredor de amor, um apaixonado, caçava a ânsia do infinito e foi rotulado como louco, devido ao seu desprezo pelas regras do comportamento social, que acabaram por fazer dele um ser socialmente rejeitado e, ao mesmo tempo, invejado pela sua originalidade e pelo seu gênio criador. Alma inquieta e aventureira, com desejos libertários, tal e como escreveu no seu poema “O Corsário”, Byron legou-nos também frases célebres como esta: “O passado é sem dúvida o melhor profeta do futuro”.


Nasceu em Londres no congelante 22 de Janeiro de 1788, numa família à beira da ruína econômica. Com uma malformação congênita num dos pés, o que lhe provocou um visível coxear, mesmo assim o nosso protagonista viria a destacar-se em esportes como o boxe e a natação. Sua mãe, Catherine, uma mulher superprotetora e com certa alteração psicológica, focalizava no filho único todas as desgraças que aconteciam na sua vida. Aos nove anos, faleceu seu tio avô – o quinto Lord Byron - deixando o sobrinho neto como depositário do título familiar. Torna-se um jovem de beleza invulgar e no Trinity College de Cambridge é apelidado de “bom garoto” por seu carisma e excelente disposição. Em 1806, aos 18 anos, publica o seu primeiro poemário, mal recebido pela crítica, intitulado “Horas Ociosas”. Nessa altura, a Inglaterra prosperava em plena evolução industrial e Byron, dando rédeas à sua ânsia de aventura, iniciou em 1809 uma viagem por vários países mediterrâneos: Portugal, Espanha, Grécia, Turquia. Foi nesse tempo errante que passou alguns dias em Sintra e aqui começou a escrever “As Peregrinações de Childe Harold” – seu alter ego literário -, protagonista de mil avatares poéticos.


Cantadas por vozes relevantes da literatura portuguesa – Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Ramalho Urtigão, Teixeira de Pascoaes, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira e José Saramago, entre tantos – e do romantismo inglês – William Beckford, Robert Southey - as paisagens idílicas de Sintra sempre encantaram os viajantes e turistas de ocasião, que aqui procuram o grandioso cenário de uma natureza pagã e sagrada. Esta natureza deslumbrou Lord Byron como um romântico que se revia nela, e ele soube apreciar a solidão dos lugares tranquilos, escrevendo que “a vilazinha de Sintra é talvez a mais bela de todo o mundo”. Admirador de Beckford (1760-1844), um escritor milionário que teve grande influência na sua obra e que se instalou durante poucos anos na admirável e sintrense Quinta e Palácio de Monserrate, escreveu sobre a vivenda lusa do autor de “Vathek” (1786): “Aqui moraste, e aqui sonhaste ser feliz, vendo ao longe a montanha: a beleza imutável. Agora, este local parece amaldiçoado: teu palácio está só como tu próprio és só”. Na sua carta a Francis Hodgson, escrita a 16 de Julho de 1809, podemos ver que se apaixonou pela paisagem da mística e mítica vila, deixando-se fascinar por sua exuberância natural, escrevendo-a em versos como “The Glorious Eden”, com o mesmo ardor e magnificência do local reconhecidos mais de meio século depois pelo notável escritor português Eça de Queirós (1845-1900). O autor de “Os Maias” (1888) interpretou Sintra com uma visão pessoal e emotiva, que é recordada sob a expressão “Sintra Queirosiana”, e pode-se afirmar que ela está presente em quase toda a sua fértil obra. Ainda antes do ídilio de Byron, outro poeta britânico, Robert Southey (1744-1843), estendeu os olhos pela cenografia sintrense, chamando-a “o mais abençoado torrão de todo o globo habitável”. Byron, um dos maiores poetas de língua inglesa, esteve hospedado na Estalagem dos Cavaleiros e todas as suas aventuras e desventuras em terra portuguesa são narradas num livro de Alberto Teles publicado em 1879.


A fama do furacão romântico foi crescendo e o regresso em 1811 de sua peripécia européia foi aclamado nos melhores salões londrinos. Todos quiseram tê-lo como convidado e atribuíram-lhe centenas de romances com mulheres e homens. No entanto, foi Annabella Mibanke quem o levou ao altar em Janeiro de 1815. Onze meses mais tarde nasceu sua filha Augusta Ada. Por então, a polêmica e o escândalo já haviam salpicado sua vida. Acabou por ser acusado publicamente de sodomia e de incesto, este último, ao que parece, porque foi visto em atitude demasiado carinhosa com uma irmanastra chamada Augusta. Annabella abandonou-o e ele, sob os rumores e o provável julgamento, decidiu deixar o seu país sem intenção de regressar.
Esteve em Bruxelas e dali a Suíça, onde fez amizade com Mary e Percy Shelley, John Polidori e Claire Clairmont. Com os seus novos amigos e, por que não dizer, amantes, navegou por lagos e organizou veladas literárias em que propôs a criação de novelas macabras. Desse modo, Polidori inspirou-se em Byron para escrever sua novela “O Vampiro”, semente de todo um gênero, enquanto que Mary Shelley concebeu “Frankenstein”, aproximando-se do mito do novo Prometeu. Byron incrementou sua já por si fértil criatividade quando se estabeleceu em Itália. Dali apoiou causas libertadoras, publicando também textos imortais como “Manfred”. Em 1822, com apenas 34 anos, mergulhado numa melancolia cada vez mais abrumadora, procura combatê-la viajando pela Grécia, disposto a lutar pela liberdade dos gregos frente ao poder otomano. Foi recebido como herói, mas em pouco tempo, ferido, contraiu uma febre que o levou à morte a 19 de Abril de 1824. Morreu na praia, dizendo para um amigo que o acompanhava: “É chegada a ocasião de descansar!”.


Poeta de amores perdidos, ocultos dos olhares alheios, recorreu à simbologia dos elementos naturais para cantar seu dilema existencial, muitas vezes envolvido por presságios e morte. Além da ironia que revela nos seus versos e de uma certa ruptura com a temática romântica, denunciou um leque de preocupações muito adiante do seu tempo, muito de hoje. Donjuanesco, de temperamento forte, sensualidade vibrante e possuidor de grande poder de comunicação, produziu poemas de uma fúria inaudita, emblemáticos da violência que o escritor exerce sobre si próprio. Egocentrista, apesar de procurar desesperadamente a união dos seres e dos espíritos, morreu sem encontrar as atenções nem ouvir os aplausos que julgaria merecidos.


Tumultuoso e sutil. Assim foi o meu encontro com Lord Byron numa noite voluptuosa de Primavera, de atmosfera enigmática e perfumada. O que nele encontrei relato-o nesta crônica que acaba de ler, meu caro leitor. Sem nenhuma invenção. O George Gordon, o Byron, o poeta romântico e desiludido, o Cortez, partiu pouco depois da meia-noite, numa visão sobrenatural, não compartilhada por todos os presentes. Tomou um caminho tão solitário como o das estrelas. Logo a seguir também eu deixei a Casa da Avó; era-me impossível sufocar a convulsão que me arrancava dos laços terrenos e, a caminho da estação ferroviária, notei que as pontas dos ramos das árvores incendiavam-se numa luz violeta pálida, e os troncos passavam gradualmente da púrpura ao negro. Uma linha de luz violeta, como uma teia de néon, destacava o serpentário da Serra, num belo efeito plástico. Noite sombria, inquietante, mas duma suavidade de efeitos mágicos. Então, soltei o meu choro, feliz, pressentindo que é das trevas, do mais oculto e profundo, que nascem a luz, as fábulas e as mais irresistíveis palpitações.


Antonio Naud Júnior - Sintra


Bibliografia:
Coleção “Gigantes da Literatura Universal”, Editora Verbo, Lisboa, 1972;
Macbeth, Georges. “Lord Byron”, Longman Group, Essex, 1979;
Rodil, João. “Serra, Luas e Literatura”, Veredas-Sintra Editora, Sintra, 1995