quinta-feira, dezembro 29, 2005

EFEMÉRIDE: 200 ANOS DA MORTE DE MANUEL BARBOSA du BOCAGE

Manuel Maria Hedoïs Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal - na rua de S.Domingos – a 7 de Setembro de 1765, e faleceu em Lisboa, a 2 de Dezembro de 1805, numa travessa da rua Formosa (actual rua do Século).
Partiu muito jovem ainda para o Oriente onde permaneceu alguns anos. No regresso a Portugal entrou para a Nova Arcádia com o nome de Elmano Sadino. Em breve, porém, acabou por satirizar os seus membros; foi acusado de revolucionário veio a ser preso.
Faleceu com apenas 40 anos. A sua obra é constituída por todos os géneros poéticos em curso no seu tempo, mas foi no soneto que deixou o melhor de si próprio; nas suas composições combina elementosneoclassicistas com o gosto pelo pré-romantismo. A solidão, o sofrimento, o amor-ciúme, o belo-horrível, a morte, são alguns dos temas que trata, de acordo com o próprio infortúnio da sua vida.

Ficam de seguida alguns sonetos como homenagem a este importante poeta.



"Não dês, encanto meu, não dês, Armia,
Ternas lamentações ao surdo vento;
Se amorosa impaciência é um tormento,
Com ledas esperanças se alivia:

A rigorosa mãe, que te vigia,
Em vão nos prende o lúcido momento
Em que solto, adejando o pensamento,
Sobe ao cume da glória, e da alegria:

As fadigas d'Amor não valem tanto
Como a doce, a furtiva recompensa
Que outorga, inda que tarde, aos ais, e ao pranto:

Amantes estorvar, que astúcia pensa?
Tem asas o desejo, a noite um manto,
Obstáculos não há, que Amor não vença."



A frouxidão no amor é uma ofensa

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.



Importuna Razão, não me persigas

Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.



Oh retrato da Morte, oh Noite amiga

Oh retrato da Morte, oh Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.



Magro, de olhos azuis, carão moreno

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou cagando ao vento.

Nota – em face da Censura totalitária e fradesca, o último verso deste soneto tem andando por aí, em antologias e não só, ao longo destes anos todos, com a seguinte redacção:

“Num dia em que se achou mais pachorrento”.


A verdade é que não foi isso que o Poeta sadino e alfacinha escreveu, mas, sim, o que, agora, aqui se reproduz, composto pelos computadores do secúlo XXI – Fernando Grade.

sábado, dezembro 24, 2005

SESSÃO DE DIA 21/12/05

Realizou-se no dia 21 de Dezembro a 23ª sessão dos Meninos d´Avó! Uma sessão que marca o primeiro aniversário das nossas sessões! Para celebrar esta data tivemos connosco o poeta Fernando Grade. Numa apresentação sempre cativante o poeta falou-nos do seu novo livro ("Poemas de Natal") e do seu fascinante passado.
Desta vez não vão ser colocados poemas lidos na sessão mas sim fotos!
Como se diz uma imagem vale por mil palavras e esta é a nossa forma de agradecer aos presentes (e aos ausentes que por várias razões não podem ir à sessões) que criam o espiríto e o ambiente que todos elogiam e se sentem confortáveis!

A Todos o nosso muito Obrigado!!


Fernando Grade ladeado por Rui Lopo e Jorge Menezes



Que este seja apenas o primeiro de muitos! Obrigado a todos os que passaram ao longo deste ano e ben-vindos sejam nos próximos!

A Poesia está na rua! Não pisar

quinta-feira, dezembro 15, 2005

FERNANDO GRADE

Fernando Grade numa sessão dos Meninos d´Avó

Na próxima sessão (dia 21) voltaremos a ter o poeta Fernando Grade connosco! Desta vez a sua participação irá incidir na apresentação do livro "Poemas de Natal", voltamos a destacar a sua obra, desta vez com um maior enfâse bíográfico:

Fernando Grade nasceu no Estoril (1943, sob o signo do Carneiro). Empenhado na agitação e dinamização de ideias, antes e depois do «25 de Abril», Grade organizou recitais, disse poemas dos outros e seus, dirigiu colóquios sobre poesia moderna, mormente do Orpheu ao Desintegracionismo, fez conferências acerca de artes plásticas, realizou teatro de acção e sessões-a-poesia-está-na-rua, em sociedades de cultura popular, bibliotecas, unidades fabris, clubes desportivos, escolas técnicas, liceus, sessões de esclarecimento e comícios políticos, museus, na via pública, em suma, em muitos e contrastados sítios, nomeadamente Leiria, Lisboa, Amoreira, Carcavelos, Luanda, Cabinda, Barreiro, Paris, Caparide, Benguela, Cambambe, Almada, Parede, Torres Vedras, Caldas da Rainha, Londres, Cascais, Murtal, Sevilha, Caxias. Alcabideche, Montijo, Abóboda, Guimarães, Oeiras, castelo Branco, Estoris, Madorna, Alvide, Peniche, Fundão, Idanha-a-Nova, Póvoa de Penafirme, Vale do Jamor.
Como artista plástico, é o criador da Teoria das Multidões e das Colagens Perversas. Expôs, individualmente, em Lisboa (por três vezes), Benguela, Luanda, Parede, Angra do Heroísmo, Horta, Cascais e Castelo Branco. Está representado com a sua Teoria das Multidões no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Museu de Angola, no Museu de Castelo Branco e nas colecções da Galeria Nacional de Arte Moderna e do Museu da Cidade de Luanda, bem como em diversas colecções particulares nacionais e estrangeiras.
Crítico de arte, tem trabalhos, dispersos especialmente pelo «Jornal de Letras e Artes», «O Século», «Século Ilustrado» (nesta publicação manteve uma secção semanal durante 3 anos) e «Diário de Notícias» (de Maio a Novembro de 1975).

Foi crítico literário do «ABC – Diário de Angola» e do «Podium». Crítico de televisão e espectáculos da «Vida Mundial». Cronista literário de «A Capital», «O Século», «Jornal de Viana e «A Bola». Foi director e chefe de Redacção da revista «Costa do Sol».
Pertenceu à Sociedade Portuguesa de Escritores, destruída pela PIDE e extinta. Foi director técnico da Associação Portuguesa de Escritores e da Associação Portuguesa de Críticos.
Faz parte do MIC (movimento de Intervenção Cultural).
Foi vereador, pela FEPU, da Câmara Municipal de Cascais.


NATAL

Hoje nasceu um poeta
no escuro da minha rua
Cresceu fez-se homem
apagou o sol
e bateu na lua

Amanhã será tão nutrido
que tremem as balanças de esquina
sentido o ranger de sapatos
os seus passos não beatos
Amanhã será tão angélico
que os anjos ruins ou não
sentem a inveja nascer
sob a membrana da fala

vendo voar rente aos astros
esse poeta maldito
sem carne nem abraços
abaixo os sexos e a lua
hoje nascido aqui
do ventre mais volumoso
da virgem da minha rua

Fernando Grade, in "Sangria" (1962), Edições Mic



OS LOUCOS E AS FACAS

Sim os loucos adoram as facas
mas detestam as espingardas carregadas
de sal
Eles matam todos os bicharocos
menos os pobres
Adoram as facas de lâmina prateada
as vermelhas de cortar melancia
as azuis
e cospem nos verdes revólveres
armas luzidias
O manual artístico dos canhotos
é da autoria de um louco

Os loucos são belos divertidos são castanhos
e todos me parecem mestres famoso
O meu primo pintor abstracto
já constrói muito melhor as coisas de dentro
desde que recebe lições de um louco
Dantes era uma nulidade cinzenta
agora só vira a cabeça na rua
quando o tratam por génio

Vou a Hyde Park defender a causa dos loucos
Pois claro hão-de fazer exame de Latim

Como a História é um rebuçado multicor
os loucos sairão distintos em megalomania

Fernando Grade, in “Um Arbusto Entre os Calhaus” (1965), Edições Mic



Anti-Necrológica

para o Urbano Tavares Rodrigues

Os que choram o morto,
o seu antigo rosto trigueiro,
não choram a razão do morto.

Só a lógica na relva
Nos dá a raiva e a semente.

(Quem chora o morto,
chora-o apenas
parvamente).

Não choro os mortos-com-razão:
as suas veias verticais
são riscos onde
os dedos ganham a forma do sal
e dos pardais.

Fernando Grade, in “A + 2 = Raiva” (1970), Edições Mic

quinta-feira, dezembro 08, 2005

F.M. PALMA-DIAS

Durante a sessão dedicada a este poeta ficamos a saber que o Francisco Palma Dias morreu enquanto poeta em 1985, desde então a sua obra vem assinada como F.M. Palma-Dias. Aproveitamos para deixar publicado alguns poemas inéditos que fazem parte dos volumes de Obras Imperfeitas do poeta:

dobragem

sul


olhar de efebo a ver-se
macho. Máscara a máscara, margens e hexílio
suas cartas

[mamuda nos dentes, uma dona
em serpente, tínhamos
vinte anos…Trocar
de língua, de livros, de canções…Tropeçar
em mumadona

no cansaço e no grito – aquele jeito antigo, o mar dos aflitos
mais o sakristédio a jeringonça o país catita
[mas o´neill
de amigo na onça – e o césar
in]



ósculo na boca e unicórneo na máscara
o barco de tânger
atraca num óculo

enxame de abelhas
tangerinas soltas, abrodagens, fruta. Mulas da senhora
carregando verdura e tremoço, bilhas de água fresca

[olhar sem estorvo
alcachofra
fogo]

moldadas pelos dentes, rente à madeira dos licores
chamas vivas en sombras estridentes. Astear
teixeira gomes


pirar en caravelle, rouler DS ou dar
o salto – mais, bientôt, ce nétait plus
le temps des cerises

bruxelas em telhados de zinco
punhos em pino na falha da flandres
e a meia desfeita granulando as coxas. Estrellas

estrelas e maganos travestem a noite.
Churros toledanos y madrugá con
Chocolate [avental, peitoril blanco y goma]
por dos más feas que las meninas
pero con el fuego del inferno en los aceites [puro homenaje
a don luís e federico]


el rímel se deshacia. Detrás
la máscara, en los espejos reclinados,
saliam efebos cábrios del mediterrâneo


solia fumar-se kif con aguardente anisada. La CEE
no sabia que su europa ya estava tocada
. Rue de tanneurs
rehaciamos en circulo la cuadratura hispânica


F.M. Palma-Dias, “Bruxelas de Uzifur”, 1965, tomo 1 de Obras Incompletas, (editor: Procura-se)

LANÇAMENTO:

O que será que um livro esconde?... terá apenas letras? … e se os livros fossem pessoas?... sim, sim personagens animadas que falam, cantam, riem, brincam, sonham, provocam, discutem, espantam-se… mas que sobretudo, divertem-nos, divertindo-se!

Acordem os Livros que queremos ouvir Ler

É este o nosso desafio na apresentação d´”Os livros que gostam de contar histórias”. A pé de Página Editores, os autores fátima & zé-luís & marc & amigos têm o grato prazer de vos convidar&animar.
Quando? Ora, ora, no dia 10 de Dezembro (sábado) às 16.30h. onde? No Espaço Por Timor em frente à Assembleia da Republica (ui!) na R. de S.Bento, 182/184, 1200 Lisboa. Contamos convosco para a Festa dos Livros!... (ah! E podem trazer os pais!)

SESSÃO DO DIA 7/12/05

Francisco Palma-Dias e Jorge Telles de Menezes em destaque



Realizou-se no dia 7 de Dezembro a 22ª sessão dos Meninos d´Avó. Esta sessão ficou marcada por duas visitas, o poeta F.M. Palma-Dias que veio falar-nos da sua obra poética e da presença de três elementos pertencentes à Orquestra de Palavras, um grupo de leitura e escrita criativa da Ericeira. De realçar ainda a adesão ao cantinho do tricot que passou a ser uma imagem de marca das nossas sessões. De seguida reproduzem-se os poemas lidos/representados pelos elementos da Orquestra de Palavras:
Os Anos Felizes

eu tlim ciências
tu tlim matemáticas
ele tlim trabalhos manuais
nós tlim recreio
vós tlim senhora
eles tlim castigo

Mário Cesariny (com António Domingues)



Um Velho no Restelo

Irado, e meio de recusa, olha as gaivotas.

É o Homem do leme?
Não o creio.

Dá tudo por tabaco. Um cigarrinho
Apazigua o velho. A sua queixa
(histórica?) é, afinal, conforme.

Vem para terra o velho. Perde uma alpergata
e apostrofa o mar que não tem culpa
do alcatrão fervente.

O velho morde um pão
E deixa nele o dente.

O velho bebe um copo
Não deixa nele a sede.

O mar é ladrão.
De pais a filhos o mar é o ladrão.

O sal das sobrancelhas alveja em seu olhar.
Está por tudo o velho, menos pelo mar.

Alexandre O´Neill



Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar.

Sophia de Mello Breyner Andersen


Esquecido no Outono

Eram sete e meia
do Outono
e eu esperava
não ineteressa quem.
O tempo
cansado de estar ali comigo
a pouco e pouco desandou
e deixou-me sozinho.
Fiquei então com a areia
do dia, com a água,
sedimentos
duma semana triste, assassinada.

- Que foi? – perguntaram-me
as folhas de Paris. – quem é que
esperas?

E assim fui várias vezes humilhado
primeiro pela luz que se apagava,
depois por cães, por gatos e gendarmes.

Fiquei só
como um cavalo só
quando no pasto não há noite nem dia,
apenas sal de Inverno.
Fiquei
tão sem ninguém, tão vazio
que choravam as folhas,
as últimas, e depois
caíam como lágrimas.

Nunca antes
nem depois
fiquei tão de repente só.
E foi à espera de quem,
não me recordo,
foi tolamente,
passageiramente,
mas aquilo foi
a instantânea solidão,
a mesma
que se tinha perdido no caminho
e num instante como a própria sombra
desenrolou o seu infinito estandarte.

Então saí daquela
esquina louca com os passos mais rápidos que tive,
foi como se fugisse
da noite
ou da pedra escura e roladora.
Não é isto que eu conto
mas passou-se quando eu estava a espera
de não sei quem um dia.

Pablo Neruda

EFEMÉRIDES/ACONTECIMENTOS:

No ínicio da sessão de 7 de Dezembro demos destaque aos seguintes acontecimentos:
Dia 28 de Novembro foram lançados dois livros do Miguel Real na Fnac do Chiado, um sobre o Marquês de Pombal e o outro sobre o terramoto de Lisboa.

Dia 1 de Dezembro comemorou-se a restauração da independência de Portugal.

Dia 8 de Dezembro comemora-se o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal.

Relembrou-se José Alfredo da Costa Azevedo, ilustre sintrense, autor do livro “Velharias de Sintra”, foi presidente interino da câmara municipal de Sintra no pós-25 de Abril.

Estreou a peça “Histórias do Arco da Velha” levada a cena pelo grupo de teatro Tapa-Furos.

Na próxima sessão dos Meninos d´Avó irá ser apresentado o livro “Poemas de Natal” do poeta Fernando Grade e comemoram-se o primeiro aniversário das nossas tertúlias! Espera-se uma sessão muito especial no dia 21 de Dezembro.

Devido a problemas burocráticos e impedimentos vários não se realizaram no fim de semana passado algumas actividades previstas para se realizarem na sociedade filarmónica “Os Aliados”, nomeadamente um concerto organizado pela Alagamares e a Feira Biológica. Uma situação que apenas empobrece o curto panorama cultural de Sintra e que merece a reprovação de todos nós.

sexta-feira, novembro 25, 2005

FRANCISCO PALMA DIAS

Poeta que será alvo da nossa atenção na próxima sessão dos Meninos d´Avó, fica uma amostra (pequena) da sua obra e o convite a descobrirem mais deste autor:


SOBRE PORTUGAL

Nestes Tempos do Fim onde merecemos viver,
pois que neles nascemos – e onde, portanto, temos
de viver assumindo, cada um de nós, o nosso
destino como parte, também, das egrégoras (das
pessoas colectivas) às quais estamos ligados -,
a Poesia deveria ser particularmente iluminadora.
Mais do que em qualquer outro sítio, ela o tem
Sido, de facto, em Portugal. Bastará que lembremos
essa vanguarda da época das vanguardas,
objecto recente das atenções duma crítica (o tex
tualismo acudindo ao historicismo) que ameaça
sacrificar o que elas dizem, em benefício da época
em que o diziam e da maneira como o diziam.
No conjunto das vanguardas europeias, a vanguarda
Portuguesa é aquela que mais depressa
Assumiu, sem equívoco ainda que numa ordem
Dispersa, aquilo a que chamo a fatalidade da
modernidade: simultaneamente ao que ninguém, no
nosso tempo, pode escapar, e aquilo que, longe
de libertar o homem, como lhe repetem há dois
séculos, o degrada cada dia que passa.
A vanguarda portuguesa foi a única, de todas
as vanguardas europeias, que ulteriormente reencontrou
a tradição, no sentido ultra-religioso do
termo.

André Coyné



I
Gema, modo de usar e de fazer, trama


1

Donde vai parindo esta história vera
descobre-se e faz-se
refaz-se

esta passagem da ilha dos amores
à do único fervor
a dos ardentes


2

este canto aqui deitado
a ninguém pode servir
mas pode ser levantado
por quem o deixar subir
pelo corpo e que dum trago
cantar então a luzir.

Um dia ou outro se olha
porque então do que canto ousamos
chegar ao quinto que é cante
se olhas de caras e dorso
a inesfacelada
face

e é
o nosso rosto
e todas as máscaras que aqui estão


3

artefacção
e arte fátua
ofício
e artificio
trazer as estrelas aos cabelos alargados à dansa
[que é voar silente
e no corpo frígido o grito desunhado em gritaria
com as cores sintéticas no ácido na boca (silenciar
que mesmo se de branco na face do nada

é sangue espavorido que nela seca ou secará
mais tarde
estampilhado
ou num estoiro de esmagar os dentes)

é arte egónica
convulsa ou embalando o ricto na noite onde ago-
[niza e se resolve
o ego (se o fortalece é a morrinha pêca)

canónica renasce estoutra
duma tradição que se descobre
Tradição é
a que tece as madeixas e os eixos a que se desdobra
o soçobro do mosto (e o vinho faz-se
e desce pelo corpo do artesão
que desaparece).

Duma e doutra
bate meu coração aqui escrevendo (e que ele me leve
à perdição de tudo o que sonhei
que se extinga o nome e que
nomei


4

repousas sobre a terra
poisada dentro de ti mesma e despertas
desfraldando meu corpo que murmuras
(sopro a sopro te descubro) e proferes
todos os sabores que prefiro
(amargosos, sem açúcar)

de ti a mim
amar reúne e nutre
de mim a ti
o mar desata um nó amarrotado.
Assim nos funda

estamos e somos
esta travessia que em nós pulsa


5

nas frases outonais deste inferno
soletro letras ilustrando a bruma
d´aquém e d´além estar, ou seja, a espuma
que brame em continente submerso.

Ao veio donde fomos rastejando
volveste velida alma minha erguida
louçana e pura entrançado o sirgo
que cose a ligadura a lume brando.

É fogo luso para a quinta essência
Atalantando. E nesta lonjura
a soidade pena em mim pulsando

o futuro presente agora e quando
o ferro fundente descobre a armadura
que veste o fiel de luz, perdidamente

Francisco Palma Dias, in “cante quinto”, Guimarães editores, 1981.

quinta-feira, novembro 17, 2005

AGENDA DA QUINZENA:

Sábado dia 19 de Novembro comemoração do aniversário do ManMachine, DJ de vários encontros e festas míticas. O tema da festa é o ano de 1977 (ano do nascimento do DJ) e o local é no LisboaBar perto do Teatro da Trindade. Mais informações www.manmachine.pt.vu

Dia 28 de Novembro vai realizar-se na Fnac do Chiado às 18h30m o lançamento dos dois últimos livros de Miguel Real. Uma oportunidade para ver ou rever este escritor que esteve presente numas das nossas últimas sessões.

Dia 2 de Dezembro na Sociedade Filarmónica “Os Aliados” a associação Alagamares apresenta a banda de Blues: Big River Johnson, depois do concerto a música e animação fica à cargo dos DJs ManMachine e Mau Amor. O concerto inicia-se às 21h. mais informações em www.alagamares.net

Na próxima sessão dos Meninos d´Avó estará presente o poeta Palma Dias. A sessão realiza-se dia 7 de Dezembro.

Entretanto comemoram-se os aniversários de dois grupos de teatro de Sintra: Utopia Teatro e Tapa-furos e. Informações nos respectivos sites: www.utopiateatro.com e www.tapafuros.com

SESSÃO DE DIA 16/11/05

"Avó" Paula no espaço do tricot

Realizou-se no dia 16 a 21ª sessão dos Meninos d´Avó.
No nosso habitual ambiente de tertúlia poética foi inaugurado um novo espaço, um cantinho dedicado ao tricot! A união entre poesia e tricot passará a ser feita nas nossas sessões contando com o dinamismo e saber da Sandra Pereira, a ela e a quem se juntou/juntará no futuro o nosso agradecimento e desejos de boa costura.
Numa sessão de tema livre vários foram os poetas evocados: homenageou-se Teixeira de Pascoaes com a leitura de textos e poemas, relembram-se poetas que já presentes e homenageados em sessões anteriores (Fernando Grade, Paulo Brito e Abreu e Fernando Dias Antunes) e tivemos ainda o privilégio de ouvir poemas inéditos!


Ficam alguns dos poemas lidos na sessão:


Solidão agridoce

Há uma ilha ancorada no oceano da ausência
Uma criança perdida na praia à procura da mãe
Uma viúva virgem no leito da morte
à espera da extrema unção

Há um homem nu correndo de chama na mão
anunciando o fim da guerra
Por entre ossos e destroços de padrões
De um império desfeito
Um rei imberbe e deserto numa tenda berbere
fumando haxixe por um cachimbo de
[água
Uma guitarra velha chorando as notas de um fado triste

Há um poeta sentado na falésia bebendo inspiração
onde o ar e o mar se beijam no azul distante do tempo

Fernando Dias Antunes, in “Estilhaços do Espelho de Alice”.



NÓS OS VENCIDOS DO CATOLICISMO

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós é que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

Ruy Belo



Argonauta 1 – O Azul Marinho

Na espuma de A-Mar
Há locais onde te afogas
No enrolar de ti próprio…
Em silêncio
A tua divisão dá-se
E és areia…
És a-mar…

Alexandra P. 1996

O ambiente descontraído predominou nesta sessão

sexta-feira, novembro 11, 2005

ANÚNCIO:

Na próxima terça feira (dia 15 e véspera da próxima sessão dos Meninos d´Avó) vai ocorrer o lançamento do novo livro de poesia de Vicente Cecim. Esta é uma oportunidade única para conhecer e contactar com aquele que é considerado como um dos maiores poetas brasileiros da actualidade! O lançamento é na livraria Almedina (situada no centro comercial Atrium no Saldanha) e inicia-se às 18h30m!
Imperdível para quem tenha a disponibilidade!


Vicente Franz Cecim nasceu em Belém do Pará. Desde A asa e a serpente (1979) que transfigura a sua região natural, a Amazónia, em Andara: uma região onírica, um território metafórico, onde ambienta todos os seus livros. Viagem a Andara, o livro invisível, o volume em que reuniu os primeiros 7 livros de Andara, recebeu o Grande Prémio da Crítica, da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1988. Na decáda de 80, o Grande Prémio só foi também atribuído a Cora Coralina, Mário Quintana e Hilda Hilst. Neste ano de 2001, a invenção de Andara completa vinte e dois anos.
No caldeirão de um escrita em absoluta liberdade, na qual a literatura se irmana à alquimia, abolem-se as fronteiras entre a prosa e a poesia, funde-se o natural com o sobrenatural e o profano incorpora o sagrado – lançando-se numa intensa busca metafísico do sentido do ser e da vida. Como diz Cecim, os livros de Andara são literatura fantasma: corpo de um sonho que se sonha.


A História

Em Andara,
é quando os homens esperam um anoitecer mais
calmo que vêm as noites da vida nos lançar pedras de
sombras

e asas de areia
vêm nos açoitar.

Sendo assim Andara: ó ser de espanto, ó ser
despanto, ó serdespanto.
Passando, pois, aquele homem a se chamar
assim
Serdespanto.
Pois esse o nome que lhe deram quando ele nas-
Céu, diz-se disso, a mãe, essa que denomina uma parte
de si que sai de si aqui para fora, humanamente, para ser
outro ser. Um outro espanto isso, deve-se reconhecer
com melancolias, resignações, suspiros. Isso de nascer

Em Andara, pois. Mais um tendo vindo.


Vicente Franz Cecim, in “O SERDESPANTO”, Íman Edições, 2001.

HOMENAGEM A RIMBAUD E A TEIXEIRA DE PASCOAES

Durante o período de férias da nossa tertúlia, passaram duas efémerides que não podem passar em branco! Fica a nossa homenagem a Jean-Arthur Rimbaud (nascido a 20 de Outubro de 1854) e a Teixeira de Pascoaes (nascido a 2 de Novembro de 1877, falecido a 14 de Dezembro de 1952).

Mística

Na descida da rampa os anjos rodam os saios de lã nas silvas
de aço e de esmeralda.
Prados de chamas lavram a colina. À esquerda o cimo do
terreiro é pisado por todos os homicídios e todo o fragor de desgraça
descreve a sua curva. Atrás da crista da direita a linha dos orientes,
dos progressos.
E enquanto a faixa superior do quadro é formada pelo rumor
hiante e turbilhante das conchas dos mares e das noites humanas,
A doçura florida das estrelas e do céu e do resto desce frente
à rampa, como um cesto, contra a tua face, e gera o abismo floral
e azul lá em baixo.

Jean-Arthur Rimbaud, in “Iluminações”, Assírio&Alvim, 1989.



I

Desejei falar de mim, neste livro. Falei dos outros, afinal. Mas quem
somos nós senão os outros? Um homem é todas as cousas que ele viu e
todas as pessoas que passaram por ele, nesta vida.

II

Sou todas as cousas e todas as criaturas. Eu, na verdade, não sou eu:
sou o Chico Nozes e o seu remorso vagabundo; o Chichilro carcereiro e
os presos da cadeia, o ladrão, o assassino; sou a Gravuna e a sua fome;
sou o Gesso a pedir esmola para as alminhas do Purgatório; sou a Beatriz
e sou a procissão de Quinta-Feira Santa das Trevas… e aquela nuvem
ao pôr do Sol; e aquele pinheiro abastracto e solitário; e aquela árvore
desgrenhada, ao vento, como as traças da Aflição…

III

Eis aí o assunto deste livro: cousas e pessoas que o Tempo espectra-
lizou na minha lembrança, amei-as, assimilei-as; não as distingo do meu
ser: - floresta de sombras, ao luar… Há este e aquele vulto que se dês-
taca no meio duma turba indecisa; depois mergulham na mesma onda
sentimental que me leva nos braços para o Abismo. Eu e as minhas lem-
brancas vamos todos na onda… E elas agarram-se a mim para que eu
as salve – a mim que vou também na onda, vamos abraçados uns aos
outros, desesperadamente, como naufrágos…

Teixeira de Pascoaes, in “O Bailado”, Assírio&Alvim, 1987.


ANTIGA DOR

O subtil, o reflexo, o vago, o indefinido,
Tudo o que o nosso olhar só vê por um momento,
Tudo o que fica na Distância diluído,
Como num coração a voz do sentimento.
Tudo o que vive no lugar onde termina
Um amor, uma luz, uma canção, um grito,
A última onda duma fonte cristalina,
A última nebulosa etérea do Infinito...
Esse país aonde tudo principia
A ser névoa, a ser sombra ou vaga claridade,
Onde a noite se muda em clara luz do dia,
Onde o amor começa a ser uma saudade;
O longínquo lugar aonde o que é real
Principia a ser sonho, esperança, ilusão;
O lugar onde nasce a aurora do Ideal
E aonde a luz começa a ser escuridão...
A última fronteira, o último horizonte,
Onde a Essência aparece e a Forma terminou...
O sítio onde se muda a natureza inteira
Nessa infinita Luz que a mim me deslumbrou!...
O indefinido, a sombra, a nuvem, o apagado,
O limite da luz, o termo dum amor
Tornou o meu olhar saudoso e magoado,
Na minha vida foi minha primeira dor...
Mas hoje, que o segredo oculto da Existência,
Num momento de luz, o soube desvendar,
Depois que pude ver das Cousas a essência
E a sua eterna luz chegou ao meu olhar,
Meu infinito amor é a Alma universal,
Essa nuvem primeira, essa sombra d’outrora...
O Bem que tenho hoje é o meu antigo Mal,
A minha antiga noite é hoje a minha aurora!...

Teixeira de Pascoaes.

terça-feira, novembro 08, 2005

SESSÃO DE DIA 2/11/05



Miguel Real


Na vigésima sessão dos Meninos d´Avó evocou-se a efémeride do grande terramoto de Lisboa (1755). O convidado especial foi o escritor Miguel Real, sintrense e professor de Filosofia, desdobra a sua actividade pelos domínios do Ensaio, da Crítica Literaria, da Dramaturgia e do Romance. Entre a sua produção ensaística destaca-se Portugal - Ser e Representação (Primio Revelação de Ensaio da APE em 1998). No romance, destaque para A Visco de Tyndalo por Eça de Queiroz (Prémio Ler/Circulo de Leitores 2000). Para além de nos fazer uma contextualização histórica do Portugal do sec. XVIII ainda falou das discussões morais e religiosas que surgiram após o terramoto! Para quem já foi seu aluno foi um regresso ás salas de aula, onde o seu tom e dom oratório captou e fascinou várias gerações de alunos!

sexta-feira, outubro 14, 2005

HOMENAGEM A ANTONIO JUNIOR

Antonio Junior


Hoje regressou ao Brasil (de onde é natural) Antonio Naud Júnior, poeta, escritor e Menino d´Avó desde os primeiros tempos. A sua presença foi marcante, a sua ausência será muito sentida. Como um dos principais impulsionadores deste blog deixamos a justa, merecida e sentida homenagem a alguns dos seus textos poéticos. Mesmo com um oceano de distância sabemos que continuará presente em espírito e esperamos em texto!

Um Abraço e um até breve (é assim que nos despedimos daqueles que não esquecemos)



PARA CADA UM A SUA VERDADE


acendem-se falésias
sob o mundo de inês
(sim inês de castro a concubina untada de mel!)
no quebra-vento
na água salgada
no caminho de mágoas
que leva a lugar nenhum
e a luz? a luz a luz
onde a sophia luz?
onde os sóis as estrelas as luas
dentro de mim e de ti?
as rochas calam-se calam sempre
calam todos os demais
num silêncio esmagador
de medo renovado
sem rosto nem perguntas
como ontem como hoje como amanhã
antigas almas na escuridão
antigos olhos saramago
em naus à caminho de noites de fado
rendição e solidão

acendem-se pássaros azuis
sob a imensidão de mar e céu
talvez uma última chance para compreender
talvez uma última chance para amar
cansado de sombras
cansado do viver por viver
digo calma calma é preciso calma
eu e todos os demais
outros e iguais e provincianos
estes murmúrios equívocos
silêncios de fantoches
ergue-se a esperança em gaivotas imóveis na areia!
na raiz-divina na sabina-das-praias no chorão!
no lagarto-sardão no rabirruivo-preto!
em todas as coisas helder da vida!
calma calma é preciso calma
de nada adianta esta ofendida angústia
a verdade é uma colméia de complexos
besuntada de variações obscenas
de nada adianta a florbela melancolia
tudo cai no esquecimento
poucas vozes são realmente importantes
e um e a um os sonhos cintilarão outra vez

arrancam-me o al berto coração
que não sabe saber fingir?
invento outro!
ainda tenho tempo para alvéolos sustos
garante-me pessoa
ainda tenho tempo para outros amores
calma calma muita calma ainda tenho tempo
para caminhar noite adentro
estremecendo como uma virgem
garante-me llansol
renovado coração quente
pés na estrada poética
galopando o cavalo eugénio dos sonhos


Antonio Júnior, Praia da Aguda, outubro de 2005.


Junho & Juny


Nits (*)


incêndio sem chamas.
abro os olhos e vejo o que está aqui.
durante minutos, o pensamento exato, na trajetória da
fumaça de um cigarro que se dissolve
no lamento de tristão.

pré-ocupação.

seu agudo
canto de sereia
faíscas febris de noites inúteis,
semidestruída
reputação (mas o que é a reputação?)

já não faz falta sentir
a língua fria
da melancolia.

recebido com ramos de lírios
por parábolas e ofensas,
neste instante,
o éden é a meta,

erguido aos céus de pelúcia
o pensamento oculto
bendito em noites
de bestas interesseiras
em noites de equilíbrio,
de nervos de aço,
de freqüência.


(*) Nits: Noites em catalão.


Outubro & Octubre

Dolor (*)



chegaram todos, não falta ninguém.
(estão presentes poetas nunca lidos e
suas intenções desleixadas).

veio também um anjo

com lágrimas do tamanho do lustre imperial,
penetrado de saudades, sensibilizado
pela falta de respostas.

não ditas por quem?

“já passou”, ele diz,
enxugando o rosto.
a dor talvez seja só um excesso
de uísque, lástimas e tristezas.

já passou.
“eu creio em algo que você não crê”, digo.

a dor declarada desfaz-se no seu sorriso
e suaviza a imagem encantadora.


(*) Dolor: Dor em catalão.

António Júnior, in “Calendário Azul”


montanhas são vozes, falam,
falam,
falam em silêncio

falam emoções, emoções esquecidas
falam através de curtas e definitivas frases:
o amor é uma águia que voa alto, muito alto
é uma delas.

Entre elas, numa clareira, irradia-se um carvalho
único e imortal
está assim, fincado na terra dura
cúmplice durante séculos do silêncio,
constante em sua verdade todas as nossas esperanças
vivem nele
as minhas, as suas
e as dos outros.
é um segredo da nobre arvore
que sabemos e não sabemos.

e vou, não nego: as montanhas
são um caminho interior.

António Júnior, in “Se um Viajante numa Espanha de Lorca”, Pé de Página Editores, Maio de 2005.

terça-feira, outubro 11, 2005

SESSÃO DE 5/10/2005:

A última sessão dos Meninos d´Avó (dia 5 de Outubro) decorreu num ambiente muito pouco convencional, onde se discutiram temáticas bastante díspares da poesia, a proximidade de eleições e os festejos de dois aniversários são as justificações para esta dispersão.

Esta sessão marcou o início de uma pequena interrupção ( a sessão de dia 19 não se irá realizar) dos Meninos d´Avó pois a Casa da Avó entrou (muito merecidamente) de férias, apesar deste interregno as actividades poéticas e culturais não parám e delas iremos dando conta no Blog. Entretanto fica o aviso aos interessados que no reinício esperam-nos sessões que estão a criar grandes expectativas! A seu tempo iremos divulgando os próximos convidados!

A Poesia está na rua. Não Pisar.

terça-feira, outubro 04, 2005

IMPEDIMENTO IMPREVISTO

Informamos que por impedimentos técnicos afinal já não será exibido o filme "VIAGEM AO ARCO ÍRIS". Mais e melhores explicações serão dadas amanhã na sessão dos Meninos d´Avó!
Por esta contrariedade pedimos desculpa, mas são acontecimentos que nos ultrapassam!

A Poesia está na Rua. Não pisar.

sábado, outubro 01, 2005

PRÓXIMA SESSÃO:

Informamos que na próxima sessão dos Meninos d´Avó será exibido o vídeo “VIAGEM AO ARCO-ÍRIS” realizado por José Ricardo tem a duração de 11 minutos e conta com a participação especial de Pedro Possidônio. O vídeo é descrito como: Uma viagem poética pela Alemanha e Itália no Verão de 2005.

Também será discutida a problemática, levantada por Adriana Jones, relativamente à limpeza da serra de Sintra. Foi sugerido um passeio no dia 8 de Outubro (sabádo) de manhã pela serra para in loco verificarmos o estado de desleixo. Mais desenvolvimentos na próxima sessão dos Meninos d´Avó dia 5 de Outubro.


A Poesia está na rua. Não Pisar.

SELENOGRAPHIA IN CYNTHIA

A propósito de “SELENOGRAPHIA IN CYNTHIA” de Jorge Telles de Menezes

por João Rodil


Eu já vi muitas pessoas em Sintra. Vi gente que passa, gente que fica, gente que lhe admira a Natureza e os monumentos, mas o que levam dela é apenas uma vaga lembrança de cheiros e de verde, ou umas fotos postais, clichés da vida mundana e vazia atirados em seguida para o fundo de uma gaveta esquecida.

Mas Sintra não é um lugar para se ver só com os olhos. Ou antes, Sintra é muito mais um lugar para se sentir do que para se ver. Porque a sua imensidão ultrapassa o que a nossa pobre vista alcança. Porque a sua mensagem é cantada em linguagens veladas. Porque é um lugar com espírito.

Por isso, das muitas gentes que já vi em Sintra, apenas conheci algumas, poucas essas, que ao percorrerem o sei corpo majestoso de deusa tivessem comungado com ela. É que só aqueles que acreditam na transcendência desta Serra da Lua um dia poderão penetrar verdadeiramente nela.

E tal como a Lua, senhora e rainha de todas as marés, também Sintra é um grande íman que atrai aqueles que sabem sonhar quando contemplam o seu corpo serpentário. Jorge Telles de Menezes é um poeta chamado por ela. E, logo que chegou a ela, soube escalar o Promontório para beijar a Lua.

Quero eu com isto dizer que Jorge Telles de Menezes, ao escrever Selenographia in Cynthia, não se limitou a construir uma aprimorada obra poética, a lançar versos aos outros, plenos de lirismo e musicalidade. É que a Serra da Lua segredou-lhe alguns dos seus mistérios, deixou cair o véu e mostrou-se por dentro ao poeta. Nua e perfeita em todas as suas formas e símbolos.

Por isso, aquilo que estamos a beber quando lemos esta Selenographia é uma água baptismal que nos pode renovar, que nos deve servir de catalisador para regressarmos ao ser primordial, ao útero da Terra-Mãe, à consciência profunda dos valores mais sincréticos do Homem Universal.

Sintra foi, durante milénios, terra de fronteira entre o mundo conhecido e o mar ignoto, o abismo azul povoado de lendas e monstros. E os povos caminharam até a essa zona limítrofe, uns atrás dos outros, sempre em demanda peregrina e em pleno respeito e adoração pelas forças telúricas, aquáticas e ígneas que nestas montanhas da Lua se conjugam.

É esse respeito primordial que nos surge em Selenographia in Cynthia. É esse renascer interior do homem de hoje, a busca do Graal em nós, o rebuscar das emoções verdadeiras no mais secreto da nossa intimidade que o poeta Jorge de Menezes nos sugere.

Inclusivamente, chega a apontar-nos as veredas que nos poderão levar a esse lugar de início. O espelho e a água. Um, como objecto de retorno, de reflexão, para que nos conheçamos a nós próprios. Outra, a água, como elemento renovador e purificador por excelência, gerador da vida e espelho do céu, morada atlante de tritões, sereias, ninfas e tantos outros seres que fazem parte do imenso bestiário sintrense.

Não é de estranhar, portanto, que a personagem principal se chama Till Espelho de Água, ou antes, uma personagem multiplicada no seu Replicante. Ou o surgimento de Alice, aquela mesma do País das Maravilhas, a «musa ninfeácea do autor canhoto».

Quando li, pela primeira vez Selenographia in Cynthia, recordei de imediato alguns dos espíritos elevados que escreveram sobre Sintra, sobretudo aqueles que o fizeram de uma forma poética e dramática. Camões e Eça, aliás personagens que integram a obra, mas também outros nomes me saltaram à memória, como Teixeira de Pascoaes, António Quadros, Frei Heitor Pinto, João de Barros e, muitos especialmente, o mestre Gil Vicente e as duas peças em que dedicou maior atenção a Sintra: O Triunfo do Inverno e a Farsa da Lusitânia. Ainda me lembrei de Byron, de Southey, de W. H. Auden e de Christopher Isherwood, estes últimos mais pela concepção dos chamados dream poems, muito embora também eles tenham sido tocados pela Serra da Lua.

Mas tudo isto aconteceu-me apenas numa primeira leitura. Porque depois veio a verificação e a certeza da originalidade e profundeza da escrita poética e dramática de Jorge Telles de Menezes. Há ali um fluir de sinais que nos conhecem por dentro, um toque de mágica que nos faz acreditar nos amanhãs impossíveis. O poeta tinha estado, de facto, no útero do grande santuário da Lua.

Não quero especular sobre esta Selenographia in Cynthia. Não quero, nem devo. Tenho a certeza que muitos o farão através dos tempos, pois estou em crer que éobra do presente com mensagens do futuro. Acho que cada um de nós deve fazer a sua leitura e buscar o seu próprio entendimento.

É esta, afinal, a grande missiva do autor. Que procuremos todos a flor, a nossa flor, com toda a valorização espiritual e hermética que ela comporta.

Uma coisa eu posso afiançar. É que o Promontório da Lua está cheio de campos de flores. Basta descobri-las com os olhos do coração.

Azenhas do Mar, Solstício do Verão de 2003



HYNO A CYNTHIA


Suave deusa da ilha
saturnina cynthia celta
romana vestal do ocaso
moura alma encantada
deusa que caças no bosque,
revela-me a tua face!


Eterna criança da lua,
amada e trágica ninfa,
revela-te!
E ao teu laço em desaperto.
A mim,
que me consigo mover
(como um fantasma)
por tuas árvores-estelas
teu mapa de muros vivos
tua cascata de orquestras
tua fonte, ao meio-dia estranha,
teu perfume de montanha
em mares de um vento d´além,
pelos palácios, veloz –
e como nuvem branca
ao fundear no teu colo,
renasço
no teu misticismo pagão
adorando a lua, bacante,
e sou o
noivo desvairado ao luar
devindo os olhos de um poeta
em viagem para a luz.


A mim!
Revela-me!
Mulher telúrica e virgem,
de teu corpo o selo
de tua fonte os amores
no santuário dos fetos
na cynthia dos eremitérios
dos conventos e das tabas,
em oriente,
dentro
de ti.


Revela-te!
a mim,
que padeço desta insónia
de amar tua branca aparição,
hárpica cynthia,
dá-me a visão, uma vez,
da tua face…
… e enterra meu corpo frio,
quando morrer, mais tarde,
dentro de ti,
antes do céu,
para que eu leia
no teu cabelo
frases com pena,
folhas com música
eternidade escrita
por um poeta.


E que depois de saciado na terra nua,
na harmonia do bosque mágico
em ritual sagrado e sensual
na clareira magmática eu renascesse
da pira quente do megalito
a um ritmo extático de cítaras
que a minha voz transformassem –
oh deusa mais pura, selena,
na de um poeta da lua.

JORGE TELLES DE MENEZES, in “Selenographia in Cynthia”, Hugin editores, Agosto de 2003.

CARTA A UM CAMARADA MORTO DE INGLATERRA PARA QUE RENASÇA EM SINTRA NA CASA DA AVÓ


Jorge Telles de Menezes Posted by Picasa


Não viste, George, no meu país a memória de um tempo em que fomos irmãos, em que fomos iguais; então combatíamos em contendas de cavalaria no Minho e no Lancastre, para conquistar corações e afinar pontarias para outras guerras; chamavam-nos antanho os Magriços. Nada do teu olhar pousou sobre a arca da aliança forjada na defesa de nosso torrão sagrado, nem por teu relance passou essa heróica união de armas e de sangue na Batalha para que sempre fôssemos independentes. Nem da estirpe comum soubeste, camarada, que levou essas naus impetuosas com a cruz herética do templo abaixo de todos os céus do mundo; não, não soubeste dessa arremetida no sonho, na utopia que teu conterrâneo More nos ofereceu. Tinhas razão, porém, nós é que no século em que vieste vivíamos sob o peso da saudade, saudade de tudo, até da própria vida... Vivemos demais em curto tempo, envelhecemos precocemente, fizemos o nosso melhor, esquecemo-nos da reforma, e se fomos iguais na infância, não passamos hoje de um velho marinheiro, que indiferente à higiénica ordem da tua civilização, contempla absorto e mudo o mar, um irmão teu que se tornou irreconhecível para ti, velho Albião, que doseaste bem tua energia, cresceste rapaz comportado, com boa educação, deitas hoje as cartas e dás meridianos sobre a mesa do mundo - apesar de nós sabermos de teus fáusticos pactos... Nossa diferença consiste em que o mundo em que tu ages e brilhas com glória já não o vemos, por isso nos deixa indiferente o teu moderno sucesso. Eu vivi a idade do verdadeiro ouro, aquele de que é feito o sonho, tu viveste na idade que comerceia com o que foi o meu sonho, transformando-o no ouro vil da matéria.

Eu estou há muito reformado da História, e como a reforma é uma miséria, vou vivendo de uns biscates em frente ao mar. Tu és um burguês rico e lustroso, jovem e confiante nas tuas certezas práticas sobre o mundo. O teu drama moderno nada diz ao meu silenciado ser, entendo-o perfeitamente, mas a minha religião, que consiste em não ter qualquer religião, não me provoca histeria. Tenho costumes que respeito, como ensinava Confúcio. Não me esqueço, contudo, do teu outro lado, oh fugitivo de ti mesmo, cantor exilado da liberdade absoluta, rebelde contra a própria ordem que te formou. A tua neurose, contudo, eu não partilho, o conceito de ordem na minha mente já não existe, eu ando em barcos à vela, meu rei é o vento.

Fizeste bem em vir visitar-me, inventaste o conforto e o fair-play, mas eu não gosto dos teus jogos, por isso dispenso também as tuas regras. Que pena não ter havido cinema nem música rock na tua época, terias vivido como um herói da imagem e mais um derrotado do coração. Afinal, tinhas que te sacrificar, oh prometaico herói moderno; eu morri nas Filipinas, lembras-te? quantos séculos antes foram? Vem, entra no círculo dos poetas-heróis, ali tens Camões, ele falará contigo. Vem, arrogante irmão mais novo, não me impressionas com teu drama burguês, nós compreendêmo-lo hoje, vem, volta para nós aqui em Sintra que amamos todos os românticos, vais ver que ainda não viste o que julgavas já ter visto.

Jorge Telles de Menezes, 17 de Maio de 2005.

ANTÓNIO CARLOS CORTEZ

Sempre a poesia foi aproximação ao real. Mas que significa essa aproximação? Uma aproximação ao que no mundo nos faz sentir reais: a leitura de um poema, a conversa interessada e interessante com o outro, o silêncio de certos olhares, as lágrimas de certas dores ou paixões, uma paisagem na qual nos projectamos outros, com outro tempo e lugar… e a música e a pintura…

Afinal numa definição muito afim de certos poetas portugueses (uma Sophia, um António Osório, um Eugénio…), poesia será a preservação da árvore do real, sendo o real a raiz afectuosa em cuja matéria solar a arte poética, a visão do mundo de quem humanamente se vai mostrando… É que também a poesia tem para mim este não-sei-quê de revelação nunca revelada, constituindo um mistério fascinante essa mesma raiz, essa mesma matéria, essa mesma arte; fascínio diante do qual ficamos à espera que um poema aconteça!

Ora este livro de «sonetos» – imperfeitos, ambíguos, rendilhados, desafiando sempre o leitor a procurar um sentido do sentido – responde, por assim dizer, a poemas de vários poetas que fui lendo ao longo destes últimos dois anos. A modernidade de muitos, a modernidade dos melhores só fazia sentido para mim (ao lê-los) quando estes remetiam para a leitura de autores clássicos. Daí que a forma escolhida seja, ainda que camuflada, da nossa tradição lírico-especulativa ou lírico-sentimental, o soneto. Daí também que lirismo, como o entende Henri Brémond, dê as mãos a esse mistério do insondável à luz do qual, na presença de um poema, somos por instantes a árvore do real tremendo por dentro, tomando registo do outro que há em nós. Para que a árvore seja agitada e os pássaros desse real se evadam, se libertem das amarras humanas é preciso, pois, imaginar. O sentimento de evasão que estes poemas possam suscitar justificam, quanto a mim, o grau de metaforização desse real vivido, desvivido, sonhando e pressentido à medida que fui escrevendo este A Sombra no Limite. Preservar o real ou, se quisermos, preservar a imaginação, eis o que está em causa. E compete à imaginação de cada um descobrir em si o que se possa ser essa sombra e de que limite se trata.

Servem estas breves palavras para dizer que devo a coragem de apresentar estes textos a António Osório que pacientemente me foi fazendo acreditar que era possível apresentar uma nova proposta poética adentro do que em matéria de poesia entre nós se publica e a ele deverei a ressonância que estes poemas possam ter em leitores possíveis.

António Carlos Cortez


que sombra tem o limite da sombra e
que nome possui o teu nome além do meu
que folha é o papel pressentido na pele
que incontida beleza de águia de rapina
olhar de sol e luz é o nome do teu nome
que arquitectura é o fio de líquen com rigor de ave
que outra vida para além da vida desenho do corpo
(turva claridade a dos seios pelas mãos de pétala
brilho o do teu frémito feroz de rocha e lava
rigor o do tempo entregue às águas da noite
o teu nome é o poema interrompido na implacável cinza
das noites percorridas em lençóis de água)
que nome é o teu afinal que nome é o teu de mulher rara
que nome é o teu condição violenta das pedras da memória


espaço íntimo de ínfimo
espaço de pétalas e lírios e claras águas
o teu espaço é a carne concentrada em fogo
ó suspensa criação da nulidade inútil
teu som brutal íntimo das ondas
espaço aberto ao espaço sideral do corpo
suspensa diluição da flama em nada
lenta habitação da célula nocturnal diurna
espaço da cidade onde jamais te encontras
pétala da língua no fazer do tempo
mais total que a totalidade total do íntimo
mais total que a totalidade total de um corpo
mais total que a totalidade total do ínfimo
ó palavra inacessível criadora de tudo


há o teu reflexo a fazer de espelho sombra no limite
pesar a sílaba na balança e os teus olhos com elas
a rápida e intacta forma trabalhada da madeira
tempo sobre tempo e sobre o tempo ainda
há o teu reflexo apenas olha águia que é o sol
não sei mas há o teu limite um quadrado
que se vai despenhando até ao centro da sombra
até à deslocação da formatura que adormece
há o despertar constante e continuado de uma pétala
o teu ombro de crisálida num poema
há o teu reflexo com uma fecundada madrugada
um nível de verde sombra a que chamamos mundo
o olhar despenha-se é certo mas recupera o gosto
de desenhar uma espada com a direcção do corpo


é a um animal esplêndido que irrompe
é a imortalidade numa coluna de diónisos
é o vinho vindo só da tua boca
é esse gesto de nocturna consumação do dia
é um pirilampo de água tresmalhado da sua emanação
é um olhar vertiginoso numa sábia ignorância
é a invenção consanguínea à palavra terrestre
é um dilúvio precipitado no corpo
é um lento desfiar de cavalos jovens em praias eternas
é um sinal dado por ti numa manhã de inverno
é o fim da cerração e da treva é um existir de penumbra
é o cessar das cinzas e o fim de todas as espadas
é o regresso ao luminoso subterrâneo és tu
tu na tua certeza incerta de saber um não sei quê que vem não
[sei onde

António Carlos Cortez, in “A Sombra no Limite”, editora Gótica, Maio de 2004.