A ideia já é antiga. Reunir poetas, actores, leitores, ouvintes. Reunir seres humanos em redor da mais acolhedora das lareiras: a Poesia. Saudosos de outras tertúlias que o tempo consumou e consumiu, sentimos chegada a hora de retomar o hábito de nos desabituarmos da vida em prosa. Ei-nos regressados ao convívio das palavras!
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
PRÓXIMA SESSÃO:
Contamos com a presença de todos os Meninos d´Avó! Qualquer dúvida que tenham contactem-nos por mail que iremos fazer os possíveis para as resolver.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
OLÍMPIO NEVES GONÇALVES
25
Onde mesmo as telúricas tardes são hálito e
sussuro na terra ardente este acsao em cavalgada
inútil passáros toma por muro intransponível
Canta um pássaro o riso e não se derrama oh
tão espalmado ele voa no lastro das dores que estas
modulam seus muitos idiomas e gorjeios seus soluços
baloiçantes nos flocos do sonho
Dores e riso sim na ternura febril das
ancas da insónia e lágrimas cristais verdes de
lágrimas na vertente radiosa dos rostos cúmplices
Que sôfrega demência ante as diáfanas e rarefeitas
Traições desta hora insubmissa
Resíduo flor supérflua na proa da nave que
paira resvala o efémero gume no vislumbre da lâmina
o eco da elegia o escoa na anemia vítrea das iras
26
E então direis
que a alegria desce do maná
na abundância do deserto
e que a vara
fende na rocha adusta o fio cristalino
da água da ablução de cada dia
Nunca mais
as prostrações ante o bezerro dourado
enfeitado nas tranças falazes da serpente
Nos altares
agora alisados nos musgos e líquenes húmidos
dos cultos mortos o fedor das lajes
há muito abandonados na clareira árida
O riso
irrompe por entre os dentes da claridade
da axila orvalhada da manhã
e orvalho embebe sua oleosa pupila
no beijo da frescura das têmporas
Inocência
das coisas puras Inocência nua na epiderme
exposta à libação do vinho e do pão
repartido pelo sacerdócio das carícias e afectos
As bailadeiras ungidas pela osmose do incenso
Sorvem nas volutas os haustos
Da ébria e sinuosa amplitude dos gestos
A ambrósia
excita as papilas da língua Os sápidos sabores
transmutam-se nas licorosas bodas
espasmos nas virgens seduzidas e prontas
São nossas
as janelas de todos os assomos de todos os abraços
ancorados nas angras de todos os seios
são nossas as velas enfunadas de todos
os veleiros do êxtase
Um novo deus
alcança a beatitude nas alturas envadas
os calmos himalaias inundam na paz do silêncio
os inquietos pensamentos os gafanhotos saltadores
na selva das emoções apaziguadas
Se um deus
ronda nas imediações das províncias da alma
nessa fronteira elástica da vertigem das pátrias
quem o reprovará com palavras indiscretas
Olímpio Neves Gonçalves; in “Os Arquétipos”; Tertúlia, 1996.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
SESSÃO DE DIA 15/02/2006
No dia 15 de Fevereiro realizou-se a 27ª sessão dos Meninos d´Avó. Como foi anunciado tivemos a participação da Helena Langrouva, esta estudiosa de cultura Clássica apresentou o seu livro de ensaios "De Homero a Sophia". Depois de uma apresentação biográfica, a autora (sintrense de nascimento), falou dos seus estudos académicos e gostos adquiridos ao longo de uma vida dedicada à literatura. Declamou Sophia de Mello Breyner Anderson e Camões, foi uma participação muito interessante, ainda ficaram por revelar facetas da nossa convidada o que augura novos encontros para o futuro.
Falando de futuro, nesta sessão também se decidiu em assembleia o caminho que os Meninos d´Avó devem tomar, agora que perdemos com extrema tristeza o nosso poiso de sempre: a Casa da Avó. Decidiu-se que o espírito deve ser mantido e que se deve procurar novo poiso!
De entre as várias hipoteses que surgiram e foram debatidas chegou-se ao Resturante da Quinta da Regaleira. Este espaço ainda não é definitivo mas ficou como a hipotese mais desejável para a realização das nossas tertúlias. Até à próxima sessão (dia 1 de Março) esperamos ter garantido um espaço (provisório ou definitivo) para o nosso encontro!
Mais informações serão aqui colocadas e transmitidas por mail.
ACIMA DAS NUVENS
Exige-se uma nota final de agradecimento a todos na Casa da Avó pela sua disponibilidade, simpatia e amizade ao longo deste tempo. Desejamos votos de boa sorte para o futuro e prometemos que não se irá perder o contacto e o espírito criado naquele já saudoso espaço!
O aniversariante Hilário brindou-nos com poesia açoriana!
terça-feira, fevereiro 14, 2006
ESTREIA:
• Casa de Teatro de Sintra: Rua Veiga da Cunha, nº 20, Sintra
• De 16 de Fevereiro a 5 de Março (Quintas, sextas, sábados e domingos às 22h00)
Mais informações em: www.utopiateatro.com
domingo, fevereiro 12, 2006
EVENTO:
O Núcleo de Música da Alagamares-Associação Cultural propõe-lhe, no próximo dia 18 de Fevereiro, Sábado, na Sociedade Filarmónica 'Os Aliados', um Baile de Máscaras fora do modelo habitual, característico dos tradicionais Bailes de Carnaval, prolíferos nesta altura do ano.Para tal, sugerimos-lhe um espectáculo musical ao som dos Almighty Love e da sua abordagem à World Music, com a participação de elementos dos Kump'ania Al-Gazarra e after-show party com o Dj ManMachine (pop 80s, rock, funk, banda-sonora-de-séries-de-tv-antigas).
Dia 18 de Fevereiro de 2006, Sábado, na Sociedade Filarmónica 'Os Aliados', em S. Pedro de Sintra, pelas 21h30 e até às 2h. Compareça e venha divertir-se com os seus amigos!
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
HELENA C. LANGROUVA
Helena Langrouva estudou nas universidades de Lisboa, Paris, Tours, Montpellier e Londres. É licenciada em Filologia Clássica (Lisboa), Maître ès Lettres Modernes - Cinéma (Montpellier III), pós-graduada - D.E.A. (Paris III), M.A. e M. Phil. (Londres) e doutorada em Estudos Portugueses (Lisboa, UNL). Leccionou Literatura Portuguesa Clássica, Teoria da Literatura, Introdução aos Estudos Literários, no ensino superior, com passagem pelo ensino secundário onde leccionou Grego, Latim e Português; foi Leitora de Língua e Cultura Portuguesas nas universidades de Montpellier e Rouen.
Publicações assinadas: Helena Langrouva
“Camões, São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila”, em Homenagem a Maria de Lourdes Belchior, Paris e Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998. Uma versão diferente e ampliada foi publicada com o título: “Viagem interior e via mística: Santa Teresa de Ávila , São João da Cruz e Camões” no volume abaixo indicado De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, 2004.
“As Cartas de Camões: da viagem ao pensamento”, em Humanismo para o nosso tempo- Homenagem a Luís de Sousa Rebelo, Lisboa, edição de que é co-organizadora, com A. A. Nascimento, J. V. De Pina Martins e T.F. Earle, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian (distribuída e comercializada pela A.PPACDM - Braga), 2004. Outra versão deste ensaio foi publicada, com o mesmo título, no volume abaixo mencionado De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, 2004.
De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, ensaios, Coimbra, Angelus Novus, edição patrocinada pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, 2004.
Actualidade de Os Lusíadas, ensaios, Lisboa, Revista Brotéria, Abril, Maio-Junho e Julho, 2004.
No prelo:
A viagem na poesia de Camões (tese de doutoramento), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian em protocolo com a Fundação para a Ciência e Tecnologia;
Actualidade de Os Lusíadas, Lisboa, Roma Editora, edição subsidiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, apoiada pelo Instituto São Tomás de Aquino (ISTA).
DIVULGAÇÃO:
(12 horas – 18h30 às 20h45)
Curso Camoniano I
Dos desafios da escrita e da vida ao humanismo cívico - Revisitando Os Lusíadas e
As Cartas de Camões
por
Helena Langrouva
Este curso permitirá aos inscritos um encontro e/ou reencontro com Os Lusíadas e com duas Cartas de Camões. Dar-se-á prioridade ao estudo das pausas de Os Lusíadas: as invocações e os finais de canto, vendo as suas relações com alguns episódios. Nas invocações, Camões renova a tradição da epopeia clássica e medieval, introduzindo um conjunto de notáveis desafios para a sua própria obra e para todos os vindouros que lutam pela criação de uma obra de arte. O estudo aprofundado dos finais dos cantos (epifonemas) contribui para compreender o que o próprio narrador pensa sobre a epopeia e a sua época, o seu modo de meditar, reflectir, interferir, ter voz, comunicar com os seus contemporâneos as suas preocupações sobre a crise de valores éticos, artísticos, culturais e sociais que perduram no tempo. É a voz do humanista cívico que desafia os seus contemporâneos para a coerência entre o agir e o pensar; que critica, distinguindo o trigo do joio, repondo o sentido original da palavra criticar (gr.krino /lat. cerno): joeirar, ver; que reitera a bipolaridade entre o ser e o dever-ser, e procura ter uma visão distanciada do mundo
Os participantes são ainda convidados à meditação sobre a ligação profunda entre a arte e a vida: o naufrágio de Camões, a consciência do seu próprio valor- sintetizados em Os Lusíadas-, o modo como sentiu a sua época, através das suas Cartas, raramente lidas e conhecidas, a sua denúncia da “pura inveja”de que foi alvo, a sua tentativa de aceitar a vida e de ter uma visão sábia do mundo.
No seu conjunto, este curso convida à meditação, à reflexão e à crítica, para um público alargado, aberto à cultura.
A desenvolver em cursos seguintes.
Este curso destina-se a todos os que se interessam por Luís de Camões e em particular por Os Lusíadas e As Cartas.
Datas: 22 de Fevereiro, 1, 8, 15, 22 e 29 de Março de 2006, das 18h30 às 20h45.
Preço: até 15 de Fevereiro de 2006 – € 90 ("Amigos da Fundação" e Estudantes - € 75). Inscrições Limitadas. Depois de 15 de Fevereiro de 2006, sobretaxa de € 5.
Local: Palácio Fronteira, Largo São Domingos de Benfica, 1, 1500-554 Lisboa.
Informações: Telefone: 21 778 45 99 (Assuntos Culturais) Fax: 21 778 03 57
SESSÃO DE 1/02/06
Esta sessão ficou marcado por uma futura efémeride! A próxima sessão será a última a ser realizada na Casa da Avó! Lamentavelmente e por razões completamente alheias aos Meninos assim como à Paula e ao Luís no fim do presente mês a Casa da Avó encerrara! Tal facto causa-nos um profundo desgosto não só pela perda do espaço assim como pelo simbolismo agregado ao espaço! Na próxima sessão esta problemática será discutida.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
PRÓXIMA SESSÃO:
Com rara felicidade, o título deste delicioso ensaio cinge o seu conteúdo como fechadura de manuscrito antigo e precioso. Ele não nos ilude – o que qualquer amante de Sintra e da Literatura pode encontrar nestas páginas, erguido sobre o fundo de um trabalho árduo, valoroso e honesto de pesquisa documental, é um monumento à Serra e à Literatura que ela inspirou, um palácio de sonho e poesia esculpido pelo Assombro, a Lenda e a História, parafraseando o poeta Mário Beirão, citado pelo autor.
Mas João Rodil não se quis limitar a apresentar ao leitor, de uma forma árida e monótona, qual enfastiado guia de museu, a genealogia ilustre de autores que desde recuados tempos pela Serra da Lua se deixaram inspirar. Nem o poderia, quer como filho genuíno da terra que ele é, quer como homem de Letras profundamente arrebatado pela grandeza de tudo o que a esta Serra sagrada concerne. O que ele criou neste livro, foi uma autêntica prosopopeia da Serra de Sintra, que vira personagem animador e animado pelos mais marcantes momentos da história e da cultura portuguesa, europeia e universal.
O mais extraordinário é aqui, porém, o olhar com que João Rodil vê desfilarem os grandiosos vultos que com suas palavras sábias e belas foram esculpindo essa outra montanha, a do mito e do imaginário dos homens. Porque nesse olhar há a firmeza do homem da terra que observa as estações e as épocas seguirem-se, como quem sabe que existe um grande mistério nas coisas da vida, uma abundância de sinais no livro exposto do cosmos que a humana inteligência vai folheando com panteísta admiração.
Jorge Telles de Menezes.
ANTES DE NÓS, OS OUTROS
Já se fez luz e as trevas se separaram. E até às trevas se deu luz. Rola de dia o Sol por cima da Serra antiga, a admirar-lhe o corpo de serpente. À noite, quando os píncaros se transformam em gigantes de pedra, deambula a Lua perdida em sua casa. Estão enamorados o Sol e a Lua, mas apenas se beijam à esquina da madrugada. E o espaço mágico onde trocam o beijo furtivo, é esta Serra de Sintra: maternidade do tempo, altar primitivo onde os deuses vão rezar, pedaço do coração do velho Pangea.
Depois, não há depois. Só a imitação dos homens, a tentativa desesperada de igualarem o amor dos astros, a vontade impotente de cantarem aquilo que não entendem. E muitos foram os homens a empreenderem essa demanda ao longo dos séculos. Uns, perderam-se ignorados como peões em campo de batalha; outros, aqueles que souberam sentir o pulsar do Universo, que acreditaram na transcendência do Promontório, que beberam de sua água inspiradora, conseguiram transportar para a palavra o que esta terra sem mal lhes segredou.
Em Sintra, lugar imenso e mítico, grande número de poetas e escritores sonharam pelo alto da sua Serra serpentária. Deixaram, então, ao longo de todo o calendário dos homens, uma literatura abundante e viva, inesgotável, ainda hoje por completar. Talvez sempre por completar.
Dá-nos o Sol dias longos ou curtos, conforme toca os dois pontos da eclíptica que ficam nos extremos opostos do equador celeste. E nessas variações de luz, esse grande jogo claro-escuro universal, surgem dias poliédricos, embrionários, comutadores da vida. E é de luz e criação que vamos falar, ao sabor das estações, como se elas produzissem nos homens as mudanças de espírito, de mentalidade. Solstício é plural, assim como plural é a Lua projectada nas águas do mar ocidental. O Mar! Mundo ignoto, magnético e assustador, que puxou os homens à diáspora atlântica. Nadaram em busca da terra iniciática, doadora da vida verdadeira, e escarparam o Promontório para cheirar a Lua. E nesta região entre dois-mundos, admiraram as borboletas de fogo que pairavam na suspensão do pó.
Eram os primeiros artistas a vaguearem por Sintra, espelhando os seus tormentos e sentimentos em materiais líticos ou osteológicos, embrionando a Arte nos suportes naturais. Contudo, desde esses recuados tempos, há-de o homem conferir a Sintra o estatuto de templo sagrado.
João Rodil, in “SERRA, LUAS e LITERATURA”, Edições da Palavra e Câmara Municipal de Sintra, 2ª edição, 2004
terça-feira, janeiro 24, 2006
HOMENAGEM:
Como achamos que a melhor homenagem que se pode fazer a um poeta é a divulgação da sua poesia em seguida ficam exemplos das suas obras e o convite para descobrirem mais destes poetas.
AS SETE VIRTUDES FILOSOFAIS
OU
A ALQUIMIA DOS POETAS
1.
O orgulho
Por vezes no poema
desperdiçamos tudo
e fica apenas
uma terrível faca de silêncio
um muro
uma sebe de sede que defende
a fome de ódio puro.
2.
A Avareza
A palavra vã guardada
A esmola aliterante.
Eis a miséria doirada
da poesia altissonante.
3.
A Luxúria
Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença.
Com elas violentamos
o cerne do silêncio.
4.
A Ira
Uma rosa de cólera
o poema
Uma antena de raiva.
Uma espoleta
na serena gaveta do poeta.
5.
A Gula
Comemos vegetais e animais
Bebemos vinho.
Respiramos fundo.
Somos normais. Apenas
devoramos o mundo.
6.
A Inveja
Não sermos nós a voz
o tacto
o texto.
Darmos cinco sentidos
Para termos o sexto.
7.
A Preguiça
Este
lento
talento
de vazarmos tristeza.
José Carlos Ary dos Santos.
Portugal
Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que de tou.
Mostro aos olhos que não te disfugura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.
E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço.
Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.
Miguel Torga
POEMAS E PENSAMENTOS SOLTOS:
Cecília Meireles
SORTILÉGIO
Se é verdade, quando a noite cai,
E em paz repousam os viventes
E dos céus escorre exangue o raio
Da lua nas lápides dormentes,
Oh, se é verdade que ficam já
Os túmulos vazios, queria
Chamar-te a sombra, esperar Leíla:
Vem, minha amiga, vem cá, vem cá!
Vem, ó sombra bem-amada, tal
Como estavas antes da partida,
Branca e fria como dia invernal
Na última aflição contorcida.
Vem, ó sombra amada, tanto dá
Que sejas um leve toque, um sopro,
Ou visão tétrica de assombro,
Seja qual flores: vem cá, vem cá!...
Não te chamo pra acusar, oh não,
Quem por mal me matou a amiga,
Matou amiga do coração,
Nem para à tumba roubar o enigma,
Ou porque a dúvida me doerá
Não… é por saudade que te chamo,
Pra contar-te como inda te amo
E te pertenço: vem cá, vem cá
Aleksandr Púchkin (1830)
domingo, janeiro 22, 2006
DIVULGAÇÃO
sábado, janeiro 21, 2006
CONFERÊNCIA:
dia 25 de Janeiro de 2006
"Fernando Pessoa - Poeta da Mensagem"
Dr. Francisco Queiroz
Programa: 16h - visita gratuita à Casa-Museu de Leal da Câmara
18h - Conferência
Casa-Museu de Leal da Câmara, Calçada da Rinchôa nº67, Rinchôa
sexta-feira, janeiro 20, 2006
CONCERTO:
União Recreativa e Desportiva Fontanelas e Gouveia
Os Big River Johnson, «com as suas raízes no lodo criativo de Robert Johnson, Sun House, Muddy Waters, Howlin' Wolf, Screamin' Jay Hawkins e outros...», irão dar mais um dos seus enérgicos concertos no próximo dia 28 de Janeiro na União Recreativa e Desportiva Fontanelas e Gouveia em Fontanelas. Mais uma celebração musical com a presença dos elegantes DJ Mauamor e DJ ManMachine que complementarão, com graciosidade, uma noite informal de alegria e convívio...
Mais informações: http://www.alagamares.net/ e www.badblues.blogspot.com
segunda-feira, janeiro 16, 2006
RECUPERAÇÃO DE TEXTOS LIDOS EM SESSÕES ANTIGAS:
MOLÉCULAS ESTRAGADAS
Os crocodilos de hoje já não são crocodilos. Onde ficaram os bons velhos aventureiros, que metiam nas narinas uma bicicleta minúscula e declives de gelo? Os corredores dos quatro pontos cardeais seguiam a rapidez com o dedo e faziam um cumprimento. Que divertido não era outrora, apoiar-se com uma corajosa despreocupação naqueles rios agradáveis polvilhados de pombas e pimenta.
Já não existem pássaros autênticos. As cordas que se esticavam, à noite, sobre os caminhos de regresso, não deixavam ninguém tropeçar, mas em qualquer falso obstáculo tarjavam-se os olhos dos artistas do equilíbrio com alguns sorrisos. O pó cheirava a raio. Antigamente, os bons velhos peixes usavam bonitos sapatos vermelhos nas barbatanas.
Já não existem mais autênticos ciclistas aquáticos, nenhuma microcospia e nenhuma bacteriologia, em verdade, os crocodilos já não são mais crocodilos.
Tradução de George Till, de uma antologia de surrealismo alemão intitulada «Gib Acht tritt nicht auf meine Träume»ed. por Berndt Schulz, Eichborn Verlag.
Ibn Hazm al Andalusi
O COLAR DA POMBA
Conteúdo
A essência do amor. Os sinais do amor. As pessoas que se apaixonam enquanto dormem. As pessoas que se apaixonam com base numa descrição. As pessoas que se apaixonam ao primeiro olhar. As pessoas que só se apaixonam pouco a pouco. As pessoas que se apaixonam por uma característica. O dar a entender por palavras. O fazer sinais com os olhos. A troca de correspondência. O mensageiro. O guardar o segredo de amor. O renunciar ao segredo de amor. A submissão. O comportamento desabrido. O censurador. O amigo solícito. O observador. O caluniador. A união. O esquivar-se. A fidelidade. A infidelidade. A separação. A sobriedade. A enfermidade. O esquecimento. A morte. A abominação do pecado. A excelência da castidade.
Farid ud-Din Attar (1120-1230)
A CONFERÊNCIA DOS PÁSSAROS
De repente abriu-se o portão e saiu de lá um nobre camareiro, um dos cortesãos da suprema Majestade. Ele examinou-os e viu que dos milhares que eram só estes trinta pássaros tinham sobrevivido. «Então, vós pássaros», disse ele, «de onde vindes, e o que fazeis aqui? Como vos chamais? Ó vós, que sois verdadeiramente todas as coisas, onde fica o vosso lar? Como sois chamados no mundo? O que se poderá fazer com vós que não sois mais do que uma frágil mão cheia de pó?»
«Nós viemos», retorquiram os pássaros», «para reconhecermos o Simurgh como nosso rei. Devido ao nosso amor e à nossa saudade por ele perdemos o entendimento e a nossa paz de espírito. Há muito tempo passado, quando nós partimos para a viagem, éramos milhares, e somente trinta e dois de nós chegaram a esta nobre corte. Nós não podemos acreditar que, depois de todo o nosso esforço e sofrimento o Rei nos irá repudiar. Oh não! Ele só nos pode acolher com benevolência!»...
Depois de o camareiro os ter posto assim à prova, abriu-lhes o portão. Um atrás do outro, ele descerrou centenas de cortinados e por trás do véu descobriu-se um mundo inteiramente novo. Agora revelava-se a luz das luzes, e eles sentaram-se todos no Masnad, o assento da majestade e do esplendor. Entregaram-lhes um escrito que eles deviam ler; e depois de o terem lido e nele terem reflectido, entenderam o seu estado. Depois de terem atingido uma paz completa e de se terem libertado de todas as coisas, reconheceram o Simurgh que estava entre eles, e à luz do Simurgh começou uma nova vida para eles.
Tudo o que eles tinham feito até então foi purificado. O sol da majestade irradiava os seus raios, e as suas almas luziam, e no reflexo dos seus rostos observavam estes trinta pássaros (Si-murgh) do mundo exterior o Simurgh do mundo interior, invisível. Isso deixou-os de tal modo espantados, que eles não sabiam mais se ainda eram eles próprios ou se se tinham tornado no Simurgh. Por fim, num estado de contemplação e ensimesmamento, eles reconheceram que eram o Simurgh e que o Simurgh era os trinta pássaros. Quando eles observavam o Simurgh, eles viam que tinham o Simurgh realmente diante de si; e quando dirigiam o olhar para si mesmos, reconheciam que eles eram o próprio Simurgh. E quando eles perceberam os dois ao mesmo tempo, eles próprios e Ele, tiveram consciência de que eles e o Simurgh formavam um e o mesmo ser. Nunca ninguém no mundo ouviu falar de um milagre que se equipare a este.
Textos traduzidos do alemão por George Till, de «Die Erfindung der Liebe», ed. por Claudia Schmölders, Verlag C. H. Beck, Munique.
segunda-feira, janeiro 09, 2006
LUÍS FILIPE SARMENTO

Luís Filipe Sarmento numa sessão dos Meninos d´Avó
Luís Filipe Sarmento nasceu a 12 de Outubro de 1956.
Jornalista desde 1970, publicista, editor, realizador de cinema e vídeo.
Alguns dos seus textos encontram-se traduzidos em inglês, espanhol, francês, mandarim, japonês e romeno.
Produziu e realizou a primeira experiência de Videolivro feita em Portugal no programa “Acontece” para a TV2.
É autor de vários livros dos quais se destacam:
TRILOGIA DA NOITE – 1978
NUVENS – 1979
ORQUESTRAS & COREOGRAFIAS – 1987
GALERIA DE UM SONHO INTRANQUILO – 1988
FIM DE PAISAGEM – 1988
FRAGMENTOS DE UMA CONVERSA DE QUARTO – 1989
EX POSIÇÕES – 1989
BOCA BARROCA – 1990
MATINHAS LAUDAS VÉSPERAS COMPLETAS – 1994
TINTURAS ALQUÍMICAS - 1995
1.
São os cavalos, outra vez que me galopam
incessantes nas planícies em branco
Que eu sei de tantas viagens inacabadas
Que segredos guardo na memória
Busco, buscando o impossível, talvez o Amor
Na página virgem, talvez o infindável
Que perscruto numa espeleologia suicida
Sufoco na ansiedade de querer o inexistente
E quando medito regresso ao quotidiano
como palavra cansada, lugar comum e reinicio
com todo o desinteresse pelas coisas
coisas que me ocupam as horas
que me invadem os lugares secretos
que me retiram a alma. Cá estou, outra vez,
bonecreiro, jongleur sedentário de habilidades.
2.
Associo o impossível com um grito
Associo-me ao grito veloz: impossível busca
Em busca do impossível. Grito:sonoridade
com a idade do som. Hoje impensável o grito
na estrutura social possível: silêncio sociável:
palavras sorridas inquestionáveis marcam o ritmo
da surdez do mundo. Possível. Programado,
sem grito. Grito. Grito a dor pela paixão,
o ódio pelo grito eu grito:
todo o impossível é possível no meu grito.
Gritos. Ecos de plasma
Do impossível que desejo, gritando.
Grito. Com a voz nomeio. Grito com o sangue
o impossível que me grita possível o grito.
3.
Classicamente durmo desesperado:
não durmo: perco-me no sono acordado,
sem ar sufoco no cansaço, acordado.
Durmo sem sono, o sono desesperado
Sonho e não durmo, acordo e não sonho,
ao acordar durmo, ao sonhar esqueço.
Esqueço o sono e dorme o sono que mereço.
Não durmo: sonho o sono que me sonho.
Vivo sem acordar. Não durmo, adormeço
o sonho, o sono, dormindo sem sonho
o sonho que me adormece acordado.
Por fim morro sonhando com o sono,
vou morrendo, dormindo, vidrado,
sem saber do sono, o meu sonho:
o sonho que sempre tive acordado.
Luís Filipe Sarmento, in “Tinturas Alquímicas”, Tertúlia, 1995.
SESSÃO DE 4/01/06
António Gancho (1940-2005) morreu na noite de passagem de ano, na Casa de Saúde do Telhal, onde estava internado desde 1967. Nasceu em 1940 em Évora e veio para Lisboa muito jovem, frequentou o grupo do Café Gelo. Da sua vida pública sabe-se apenas que passou a maior parte do tempo em instituições psiquiátricas. A sua literatura apenas se revelou publicamente em 1985 na antologia «Edoi Lelia Doura», organizada por Herberto Hélder e onde se incluíam onze poemas de Gancho. Em 1995 saí um volume com a sua poesia “O Ar da Manhã”, no ano seguinte é apresentada por Álvaro Lapa, uma novela erótica escrita em 1990 ( “As Diotrias de Elisa”).
De seguida ficam alguns dos poemas lidos deste autor lidos na sessão:
Rui Mário
SINTAXE
Aonde a planície já não tiver um sentido
e os campos forem já só o horizonte
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
e sobre ti a minha fronte.
Por te sobre os joelhos uma flor rubra
por te no lugar das pernas o mais amor que me houver
aí onde a flor deixa o pólen
aí o sémen de mulher.
Por te sobre o sémen o gemido do teu acto
por te sobre o gemido
a planície sem sentido
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
por te sobre as pernas me dilato.
ULISSES-OLISIPO
Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou cantar
Grande a nostalgia do teu néon luminoso
A sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentactular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céus.
ARTÉRIA, TU TENS RAZÃO
A única coisa que aprendi meu Deus
a sofrer a desilusão duma passagem de rua
ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar
mas a única coisa que eu aprendi.
Que um bocado de vidro me inundasse de luz uma artéria
eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz
artéria nenhuma
era uma desilusão a olhar para mim
e dizer movimento de rua
é assim movimento de rua
aí está nós cá estamos nós somos tal e qual
uma desilusão em passagem.
Tinha era ainda mais que tudo isso
um inchaço dum vidro em bocado
espetado em cima de pedra.
Havia um estendal de desilusão a devorar-me
todo com os olhos
eu era uma continuação do meu ser.
Onde um simulacro estava a vantagem
de uma desilusão.
Eu não
Eu cá.
Que um cá estamos considerasse ou não
eu não tinha nada com isso.
Eu fum, eu…
Ah,
Havia é que era eu cá estamos nada disso
eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho
tu quê
nós consideramos.
Onde punha fum
tudo por dentro era duma urânia
tudo por dentro era duma constipação palpável
pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.
Não eu cá não vou.
Quem olha descontenta.
TU ÉS MORTAL
Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus.
António Gancho, in «Edoi Lelia Doura», Assírio e Alvim 1985

sábado, janeiro 07, 2006
EFEMÉRIDES/ ACONTECIMENTOS DA QUINZENA:
Fez-se referência ao recente falecimento do jornalista Cacéres Monteiro e do poeta António Gancho (que acabou por ser alvo de uma homenagem na sessão).
Estreia dia 13 de Janeiro na Casa de Teatro de Sintra a peça "A Entrega" de João Garcia Miguel.
Finalmente está marcada a estreia do "Policial" dos Utopia teatro, ocorrerá no dia 16 de Fevereiro na Casa de Teatro de Sintra.
Concerto de Blues organizado pela associação Alagamares em Fontanelas no dia 28 de Janeiro.
Na próxima sessão de dia 18 teremos como convidado o poeta/escritor Luís Filipe Sarmento.
Como último acontecimento temos que referir a presença nesta sessão de um coladorador do Jornal de Sintra, finalmente uma prova de reconhecimento por parte da comunicação social das nossas tertúlias!
quinta-feira, dezembro 29, 2005
EFEMÉRIDE: 200 ANOS DA MORTE DE MANUEL BARBOSA du BOCAGE
Partiu muito jovem ainda para o Oriente onde permaneceu alguns anos. No regresso a Portugal entrou para a Nova Arcádia com o nome de Elmano Sadino. Em breve, porém, acabou por satirizar os seus membros; foi acusado de revolucionário veio a ser preso.
Faleceu com apenas 40 anos. A sua obra é constituída por todos os géneros poéticos em curso no seu tempo, mas foi no soneto que deixou o melhor de si próprio; nas suas composições combina elementosneoclassicistas com o gosto pelo pré-romantismo. A solidão, o sofrimento, o amor-ciúme, o belo-horrível, a morte, são alguns dos temas que trata, de acordo com o próprio infortúnio da sua vida.
Ficam de seguida alguns sonetos como homenagem a este importante poeta.
"Não dês, encanto meu, não dês, Armia,
Ternas lamentações ao surdo vento;
Se amorosa impaciência é um tormento,
Com ledas esperanças se alivia:
A rigorosa mãe, que te vigia,
Em vão nos prende o lúcido momento
Em que solto, adejando o pensamento,
Sobe ao cume da glória, e da alegria:
As fadigas d'Amor não valem tanto
Como a doce, a furtiva recompensa
Que outorga, inda que tarde, aos ais, e ao pranto:
Amantes estorvar, que astúcia pensa?
Tem asas o desejo, a noite um manto,
Obstáculos não há, que Amor não vença."
A frouxidão no amor é uma ofensa
A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.
Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.
Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.
Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.
Importuna Razão, não me persigas
Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;
Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.
É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.
Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
Oh retrato da Morte, oh Noite amiga
Oh retrato da Morte, oh Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.
Magro, de olhos azuis, carão moreno
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;
Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou cagando ao vento.
Nota – em face da Censura totalitária e fradesca, o último verso deste soneto tem andando por aí, em antologias e não só, ao longo destes anos todos, com a seguinte redacção:
“Num dia em que se achou mais pachorrento”.
A verdade é que não foi isso que o Poeta sadino e alfacinha escreveu, mas, sim, o que, agora, aqui se reproduz, composto pelos computadores do secúlo XXI – Fernando Grade.


