A ideia já é antiga. Reunir poetas, actores, leitores, ouvintes. Reunir seres humanos em redor da mais acolhedora das lareiras: a Poesia. Saudosos de outras tertúlias que o tempo consumou e consumiu, sentimos chegada a hora de retomar o hábito de nos desabituarmos da vida em prosa. Ei-nos regressados ao convívio das palavras!
segunda-feira, junho 12, 2006
PRÓXIMA SESSÃO:
Esta autora residente em Sintra publicou recentemente o romance “A Duração dos Crepúsculos”, ilustrado com os inconfundíveis desenhos de outra sintrense, Maria José Ferreira.
Este livro publicado pela D.Quixote, desperta no leitor um gosto nascido do cruzamento simultâneo entre os sentimentos de harmonia e melancolia.
É uma obra complexa e intrigante que se passa em três espaços geométricos temporais diferentes, apresenta um elevado número de personagens.
Para melhor compreender a construção desta obra contaremos com a presença não só da autora e da ilustradora assim como do escritor Miguel Real de quem nos vamos socorrer da sua acutilância e experiência na análise literária.
A POESIA ESTÀ NA RUA. NÂO PISAR
sexta-feira, junho 09, 2006
SESSÃO DO DIA 07/06/2006:
Tivemos o prazer de ter igualmente como convidados dois jograis que fizeram uma leitura teatrilizada e muito interessante de alguns trechos do último romance do escritor ("Ambulância").
A introdução e contextualização da obra do autor foi feita por Jorge Menezes e Miguel Real, depois da leitura dos jograis tivemos uma pequena introdução na vivência do autor ao longo dos tempos: desde os tempos em que esteve em França até ao seu regresso a Portugal, sempre pontuada com pequenas histórias cheias de humor e peripécias!
Em seguida fica o texto escrito por Jorge Telles de Menezes acerca do último romance do escritor Manuel da Silva Ramos:
UMA «AMBULÂNCIA» COM URGÊNCIA PARA PORTUGAL!
DO ROMANCE DE MANUEL DA SILVA RAMOS
A última obra do escritor Manuel da Silva Ramos, «Ambulância», é uma reportagem poética profunda sobre o Portugal coevo, uma inquirição sociológica à realidade que somos hoje, acabados que estão todos os impérios e afastado, parece, o fantasma do autoritarismo das mentalidades e costumes pela crescente internacionalização da economia, da política e dos padrões de vida.
Este é um Portugal desajeitado ainda no seu papel de país «civilizado» pareando com os países reformados do Norte, um novo-rico envergonhado do seu passado pobretana e que à boa maneira do Sul afirma a sua identidade pela competição nos sinais exteriores de riqueza. Este Portugal-Cherne, alegoria ao conhecido político mundanamente célebre por suas férias como convidado de milionários, continua subdesenvolvido na pobreza de muitos dos seus velhos, excluídos, desempregados, mas sobretudo na desumanidade a que vota os seus mais fracos e deficientes, tão bem personificados no destino de Carlitos.
Na nova ordem internacional, contudo, os salários dos trolhas portugueses, dos empregados do comércio, mas também os rendimentos de comerciantes ou profissionais qualificados chegam para alimentar os prostíbulos de meninas brasileiras que enxameiam o interior do país neste retrato impiedoso e verosímil de uma paisagem social que atravessa um processo de inquietantes transformações.
O caso da morte de Carlitos, um jovem portador de deficiência, mas doce e amigo de todos, às mãos da sua mãe, constitui-se como a parábola estruturante do livro, o núcleo narrativo em torno do qual gira a investigação do narrador ao nosso modus vivendis actual. Sua mãe é uma mulher brutalizada pela vida, pela nossa vida, uma vítima da falta de apoio e de solidariedade de uma sociedade que parece adormecida, hipnotizada e bloqueada por esta democracia que num plano social se revela completamente impotente para re-humanizar os portugueses. Embora pintada com cores muito cruas e violentas sentimos que por trás desta mulher e do seu comportamento esvaziado de valores morais está toda uma sociedade. Ela não é culpada, todos nós o somos, se tivermos que encontrar um bode expiatório.
O Portugal por trás de Carlitos e de sua mãe é ainda o do obscurantismo religioso e da superstição tão escandalosamente explorada por santinhas milagreiras, mas que também encontra forças nalgumas das suas tradições, como na festa do bacalhau em Alenquer, para ser iconoclasta, crítico e satírico retomando a veia de um espírito que se exprimia livremente na nossa Idade Média. A crítica de uma vida quotidiana dessacralizada, grosseiramente materialista, violenta e desumana, num país onde até os «inocentes são impuros» é feita a partir da perspectiva europeia do narrador; o alter ego com quem dialogamos é essa Europa rica onde afinal acabámos por não nos integrar, à qual só aparentemente pertencemos. Onde ficará o nosso centro? Este livro é com certeza um desafio para que meditemos sobre o que andamos para aqui a fazer, neste Portugal hodierno tão falho de coesão social, tão ignorante e jactanciosamente novo-rico.
Mas para além dos desafios que «Ambulância» coloca à nossa identidade, não devemos alhear-nos da impressionante densidade estética que este livro carrega. Quem gostar de ler a sério os nossos escritores encontrará aqui deleites estilísticos inesperados e refrescantes, uma sintaxe desenvolta e original, uma linguagem desculpabilizada e fracamente policiada que corre livre e directa para o que quer dizer e encontra ao fim a emotividade do leitor rendido à plasticidade da sua expressão. Pelo intenso e rigoroso elaboramento da palavra «Ambulância» é também um livro que se insere na tradição dos nossos grandes textos literários, e que pelo seu profundo sarcasmo e modernidade faz ressoar no leitor não só a tradição portuguesa do escárnio mas também aquela agudeza de espírito e verve tão características dos melhores escritores irlandeses, e pensamos muito concretamente em James Joyce. Muitas outras associações à tradição do espírito crítico europeu são também possíveis e certamente que o leitor as encontrará nesta «Ambulância» de que Portugal precisa com tanta urgência.
Jorge Telles de Menezes
terça-feira, junho 06, 2006
LANÇAMENTOS:
No dia 8 de Junho é apresentado o livro "1755 - O GRANDE TERRAMOTO", de Filomena Oliveira e Miguel Real. A apresentação será feita pelo Dr. António Braz Teixeira, inicia-se às 18h30m e decorre no salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II.
No dia 10 de Junho pelas 17h decorrerá a sessão de lançamento do livro "Actualidade d’ Os Lusíadas" de Helena Langrouva, a obra será apresentada pelo historiador José Eduardo Franco. O local do lançamento é o foyer da Feira do Livro de Lisboa.
sexta-feira, junho 02, 2006
APRESENTÃO DO LIVRO "ERA CRISTOVÃO COLÓN (COLOMBO) PORTUGUÊS?".

Alagamares e a tertúlia literária Meninos da Avó levaram a cabo dia 31 de Maio, na Quinta da Regaleira, uma sessão de apresentação do livro de Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva "Era Cristovão Colón (Colombo) português?".
Emigrantes nos EUA há mais de 60 anos, mas portugueses arreigados a um conceito de portugalidade própria de quem a mais sente quanto maior é a distância do rincão pátrio, esta obra, fruto de investigações em vários países da Europa e nos Estados Unidos, reitera a tese, cada vez mais consistente, de que Cristovão Colón era um judeu de ascendência alentejana, envolvido nas lutas de corte por vezes fraticidas do tempo de D. João II.
Fluente no texto, profundo na abordagem científica da tese, esta obra é uma profunda pesquisa na noite da História dos Descobrimentos e seus mistérios, produto dum olhar científico e metódico e não de qualquer patrioteirismo bacoco de exaltação.
Português da diáspora, este enérgico escritor fruto do ecumenismo e do ser português naquilo que hoje tal possa significar numa época de globalização unidimensional, representa uma lufada de refrescamento na normalmente pacata e engajada "inteligentsia" portuguesa, e trás à memória os cronistas de antanho, na sua escrita escorreita e absorvente.
Leiam este Colón português e descubram que tudo o que julgamos saber ainda está no patamar da dúvida e da especulação. Foi pois um fim de tarde mágico naquela Regaleira sobranceira aos Castelos onde se viu e ouviu essencialmente algo que cada vez mais rareia: um Português

Uma nota de destaque para a nossa amiga Teresa Ricaro cujo dinamismo e espírito de iniciativa tornou este acontecimento possível!
terça-feira, maio 30, 2006
SESSÃO EXTRAORDINÁRIA:

Anuncia-se que nesta quarta (dia 31 de Maio), vamos ter uma sessão especial, aproveitando a presença na Feira do Livro de Lisboa, contamos com a presença do escritor: Manuel Luciano da Silva. Este autor vem apresentar o livro "Cristovão Colon (Colombo) era Português".
A sessão decorre num horário diferente do habitual já que a sessão inicia-se às 18 horas, seguindo depois o habitual jantar.
Esta sessão é feita em parceria com a associação Alagamares, segue-se uma breve apresentação do livro e dos autores:
Sobre o livro:
Pela informação extraordinária que contém ou pelas interpretações originais dos vários monumentos históricos que apresenta, será difícil a qualquer leitor ficar diferente a este livro
Usando uma linguagem clara e objectiva, acessível a qualquer leitor, nem por isso os autores deixam de se exprimir com garra, veemêcia, firmeza e convicção.
(nota do editor)
Os autores:
Casal de emigrantes portugueses nos Estados Unidos da América, Manuel Luciano da Silva, médico, desembarcou em Nova Iorque a 26 de Janeiro de 1946. Sílivia Neto Tavares Jorge da Silva, professora, chegou a Boston, Massachusetts, a 11 de Abril de 1961.
Desde 1963 têm vivido com a sua família em Bristol, estado de Rhode Island, Nova Inglaterra, local que pode ser considerado o epicentro de todos os lugares históricos desta região relacionados com o descobrimento e a colonização portuguesa nestas paragens.
Ao londo de mais cinco décadas, Manuel Luciano da Silva tem investigado a história das inscrições da Pedra de Dighton, gravadas por Miguel Corte Real, em 1511.
Demonstrou, com pesquisas originais, que a primeira colónia europeia na Nova Inglaterra foi portuguesa.
Agora, com este "Cristovão Colon (Colombo) era Português" , os autores divulgam o resultado dos seus mais recentes estudos e pesquisas, fruto de múltiplas análises, efectuadas nos locais históricos e não sentados nas bibliotecas ou feitos a distâncias de mais de três mil milhas..."
Agradecimentos a Marina Emanuel de Lemos Ricardo e a João Emanuel Moniz por tornarem esta Tertúlia Literária possível.
sábado, maio 27, 2006
PRÓXIMA SESSÃO:
Segue-se uma nota bio e bibliográfica do autor: Manuel da Silva Ramos nasceu em 1947, na Covilhã, onde fez os seus estudos liceais. Estudou Direito em Lisboa mas ao fim de quatro anos abandona a universidade e o país e exila-se em França para fugir ao fascismo. Aos 21 anos ganha o Prémio de Novelística Almeida Garrett de 1968, instituído pela Editorial Inova e Portugália Editora, com Os Três Seios de Novélia. Publica três livros em parceria com Alface: Os Lusíadas (1977), As Noites Brancas do Papa Negro (1982) e Beijinhos (1996). Volta definitivamente a Portugal em 1997 depois de ter ganho uma Bolsa de Criação Literária atribuída pelo Ministério da Cultura. Em 1999 publica Portugal, e o Futuro?, O Tanatoperador, Adeusamália e Coisas do Vinho, com ilustrações de Zé Dalmeida. Em 2000, depois de uma viagem de investigação a Moçambique, publica o seu romance mais ambicioso Viagem com Branco no Bolso. Em 2001, depois de ter ganho uma outra Bolsa de Criação Literária, instala-se durante três meses em Praga, na República Checa, onde escreve Jesus, The Last Adventure of Franz Kafka, publicado em 2002. Em 2003, realiza uma factoficção sobre a sua cidade natal e o mundo dos têxteis: Café Montalto. Tem numerosos inéditos e a sua ficção, como disse um dia Ernesto Sampaio, é uma brisa fresca na literatura portuguesa.
Sobre «Ambulância» escreveu Miguel Real: «Puro O’Neill em prosa, Ambulância corresponde à irrupção actual da veia satírica que tem alimentado a literatura portuguesa desde a sua origem, com as Cantigas de Escárnio e Maldizer e algum teatro de Gil Vicente, corrente abafada pelo espírito da Contra-Reforma entre as segundas metades dos séculos XVI e XVIII, ressuscitada por Bocage, Cruz e Silva, Nicolau Tolentino e Agostinho de Macedo, majestosamente praticada por Eça de Queiroz no século XIX, e, no século XX, cultivada com mestria por Almada Negreiros, Natália Correia, Alexandre O’Neill e Luís Pacheco. Alguns textos de Rui Zink e, principalmente, dois livrinhos de Sérgio Almeida, Análise Epistemológica da Treta (2003) e Armai-vos Uns aos Outros (2004) (Quasi Editores), tentaram, já no século XXI, prestar actual legitimidade ao romance satírico como modo crítico e mordaz de denúncia social. Superior em qualidade, é, no entanto, em Ambulância que a vertente satírica do romance português, confluindo com a tradição portuguesa da graça jocosa, a frase curta ao modo do epigrama faceto, o refrão trocista, a repetição pela semelhança fonética ao modo surrealista, o entremez escarnecedor e acutilante, numa palavra, o universo literário da farsa e da sátira se revê hoje como arma de arremesso contra os poderosos do mundo da política, do futebol, da Igreja e da construção civil.»
quinta-feira, maio 18, 2006
SESSÃO DE DIA 17/05/2006:
Evocaram e leram-se textos de vários autores, mas um destacou-se! um manifesto enviado pelo amigo e companheiro António Naud Júnior, reproduzimos esse manifesto em seguida como forma de matar saudades!
MANIFESTO: Arte, Poesia & Vida
Os homens esqueceram-se do seu dever de pensar.
Nós, poetas do mundo, dizemos "Basta!" e falamos ainda dos "lobos".
"Basta": uma das mais belas palavras poéticas pronunciadas ou ainda possíveis de pronunciar.
"Lobos". Nós poetas, nós somos "lobos"; organizamo-nos como os lobos e não como o homem, enquanto lobo do homem.
Os lobos foram perseguidos, cercados e falsamente acusados de serem insaciáveis, pérfidos, demasiado agressivos e, em particular, serem menos respeitosos que os seus detratores. Eles foram o alvo dos que desejavam não só limpar a selva mais ainda queriam eliminar o território mais selvagem do psiquismo, neutralizando o intuitivo até o ponto de não deixar rastro algum. A depredação exercida contra os lobos por aqueles que não os compreendem é espantosa.
Nós, poetas do mundo, somos lobos, defensores deste "território selvagem" e sublime que ainda felizmente existe, escondido na sombra desta vida feita à imagem do "Deus Mercado".
Nós, poetas do mundo, uivamos alto e em bom som que a Poesia é antagonista, crítica, rebelde e subversiva por natureza. Que a poesia destrói e se destrói num só movimento.Que ela cria e recria permanentemente o mundo. Nós dizemos, tal como os surrealistas, que a Poesia é uma liberdade absoluta. Ela é imaginação. Num grito de anjos, nós uivamos que a Poesia é um sistema luminoso de sinais.
Após o nosso "Basta!", os nossos sinais, a nossa tentativa de asas:
1. "Eis o tempo dos assassinos!", escreveu Rimbaud. Esse tempo perdura até hoje, impôe-se mais que nunca e, finalmente, parece ter ganho para sempre raízes em toda a Terra;
2. Nós, poetas do mundo, erguemo-nos contra esse "Tempo dos Assassinos", como sempre fez a Poesia, desde o nascimento do primeiro verso feito pelo primeiro ser humano e desde a primeira marca deixada pelo primeiro ser humano na primeira caverna;
3. Nós, poetas do século XXI, decidimos lutar, através das nossas palavras, contra os Assassinos da beleza lúdica
4. A Ilíada e a Odisséia eram poemas tão belos quanto populares. Nesses tempos longínquos não havia nenhuma diferença entre os gregos, ou os seus predecessores, e os seus poetas. A Grécia foi antes de tudo Poesia e só mais tarde Filosofia. E a Poesia, durante séculos, foi transmitida de boca em boca (e assim nasceu a tradição oral), e discutia-se filosofia em plena praça pública, no mercado - em miniatura, pois era só um mercado de ovos e de galinhas. Germinou assim a dialética, a discussão razoável, hoje tão repreendida.
5. O positivismo, o pragmatismo e a Razão Técnica espoliaram os seres humanos da sua ferramenta principal, a possibilidade de dizer "Não", de criticar, de contradizer. Eles espoliaram-no da sua "negatividade", atributo humano por excelência, exceção que justamente nos diferencia do resto das criaturas do universo. Eles aprisionaram a rebelião. Em suma, transformaram-no num "Sim" absoluto. Transformaram-nos em máquinas predispostas a consentir, a obedecer, a admitir o "consensos". Em reflexos condicionados. A Humanidade encontra-se à beira de um precipício cujo monstruoso fundo mal antevemos. "Basta!" rugimos, nós, os poetas do mundo.
7. Duas dimensões essenciais nos orientam (a do "Sim" e a do "Não"), mas só a primeira é permitida, pois insolente e quase que imperceptivelmente nos surrupiam a segunda.
8. Todavia, a Beleza, a Verdade e o Bem (valores supremos socráticos e de toda a filosofia que se lhe seguiu) não podem ser entendidos em toda a sua magnificência senão pela via do "Não". O "Não" nega a comodidade, a facilidade e a vulgaridade do instante imediato, os "fatos". O "Não" é o símbolo da liberdade.
9. Nós, poetas do mundo, seremos os Poetas do "Não", ou não seremos.
10. Para nós, a Beleza será convulsiva ou não será. Nem o amor, nem o erotismo nem a sexualidade nos são estranhos. Nem a Paixão do Absoluto. Nem aquilo que hoje se chamam as guerras. "Guerras", são o que se chama às agressões do Império contra os povos mais frágeis da Terra, por mais pequena que seja a sua riqueza que falta ainda pilhar, ou aqueles que têm uma posição estratégica, do ponto de vista da execução do sacrossanto trabalho de pilhagem dos povos que restam ainda relativamente indenes. A nós, poetas do mundo, elas não nos deixam indiferentes e perturbam-nos. Somos igualmente sensíveis à miséria "globalizada" que cresce regularmente, à hipocrisia dos também e cada vez mais globalizados "direitos dos homens" que são, na realidade, os "direitos dos dissolventes". "Direitos dos Homem". Eis uma esquisita associação de palavras. Palavra que temos o dever de defender contra toda a malícia, contra todo o contrabando que possa ocultar ou corromper a verdade.
11. Nós, os poetas do mundo, temos o dever de alumiar as auroras. O nosso ofício são as palavras e a nossa obrigação, em conjunto com os nossos camaradas criadores da ficção literária, é de desmascarar milhões de termos e de frases evidentemente falhas que nos "vendem" como se fossem verdadeiras. Temos igualmente horror aos restos das bandeiras negras dos piratas dos piratas do século XXI. Essas bandeiras não têm já as caveiras com dois ossos entrecruzados. Por um passe de magia, elas exibem agora as caras de jovens moças, fascinantes e bonitas. Caras essas com as quais nos tentam vender quer um veículo quer uma crença ingênua, sob o pretexto que o único interesse dos Assassinos Internacionais, multinacionais e nacionais é o nosso bem estar ou a preservação da Natureza, os nossos "direitos do homem" e a nossa benfeitora - ainda que por eles desprezada - Terra Mãe. Nós, os poetas do mundo, tomamos por exemplo o Cristo dos Evangelhos, e caminharemos ao lado dos Povos quando eles acordarem e gritarem "Basta!", lançando os mercadores para fora do Templo. O Templo do século XXI não se encontra em Jerusalém mas na própria Humanidade, aprisionada e espoliada como hera seca. "Basta!": chega de seres humanos condenados e condescendestes, apesar de condenados às trevas.
12. Nós, os poetas do mundo, voltaremos ao amor. Porque temos a certeza que não se vive mais "O Amor em tempos de Cólera", mas antes a cólera desprovida de todo o amor. E que por causa do sexo sem alma, nem vida, nem mancha que nos envolve - virtual, incolor, inodoro e insípido - Eros tornou-se num gesto puramente patético que esquece toda a transcendência. O desejo transpõe-se em objetos de consumo e consome-se neles. Renuncia às delícias da comunhão dos corpos, das almas e dos espíritos, e transforma o mundo numa sexualidade privada de todo o erotismo, com homens e mulheres entregues ao consumo da sua própria solidão. Nós dizemos "Basta!" a esta des-erotização do mundo em que cada "eu" é um nômade sem janela a partir da qual ninguém consegue comunicar com quem quer que seja. Nesta compra-e-venda "global" em que o amor se tornou também numa mercadoria, é preciso dizer que a chamada "Revolução Sexual" que nos devia libertar e trazer a Felicidade se metamorfoseou em "Revolução de Negócios".
13. Um mundo sem amor é um mundo sem poesia. Se John Donne, Castro Alves, Paul Eluard, Paul Celan, García Lorca ou Mário de Andrade ressuscitassem neste século eles não escreveriam senão poemas de magnificência pelo amor. Nós, os poetas do mundo, vivendo a mais dramática passagem entre dois séculos, erguemos os archotes e tentemos desesperadamente erotizar o mundo, a partir e com a nossa Poesia. A Beleza é o nosso dever.
14. E nós, poetas do mundo, estamos implicados na esperança, na luta celeste e na sementeira. Para um dia poder dizer: "Eis enfim o tempo dos que amam!”
Obrigado!
CONCERTO COMEMORATIVO DO CENTENÁRIO DE FERNANDO LOPES GRAÇA:
e a ALAGAMARES, associação com Memória não esquece os que contribuíram com o seu talento para o universo cultural nacional.
Conjuntamente com o Grupo Coral de Queluz, dia 21 de Maio pelas 17h, estaremos a evocá-lo em concerto na Sociedade União Mucifalense, no Mucifal, Colares.
Mais informações em: http://www.alagamares.net
WORKSHOP DE TEATRO:
Em 1863 nasceu na Rússia um homem chamado Constantin Stanislawski, que dedicou toda a sua vida à construção de um método que ajudasse os actores e encenadores a combater esta problemática.
Este método foi evoluindo e abordado, por encenadores e actores, sob diferentes perspectivas.
Bibi Perestrelo trabalhou com diferentes mestres deste método:
com Sonia Moore – aluna de Stanislavski – estudou um ano em Nova Iorque;
com Polina Klimovitskaya – que aborda o método segundo Checov – estudou um ano e foi actriz na sua encenação de “As Três Irmãs”, apresentada no CCB;
com Marcia Haufrecht – o método segundo Lee Strasberg do Actor’s Studio – realizou seis estágios entre 1996 e 2001.
Este workshop resulta dos conhecimentos adquiridos por Bibi Perestrelo com estes e outros professores e da aplicação que deles foi fazendo enquanto actriz e encenadora.
Mais informações no renovado site dos Utopia teatro: www.utopiateatro.com
CONFERÊNCIA:
Conferência e DebateDia 22 de Maio pelas 18h30
Conferencistas: João Aguiar, Ricardo Ventura e Rui Freitas
«No século IV da nossa era, a cidade de Braga foi dominada por uma heresia. O Priscilianismo, doutrina a que foi atribuída uma filiação gnóstica, talvez de origem egípcia, conquistou a província romana da Galécia - de que Braga era a capital -, avançou pela Lusitânia, estendeu-se à Bética, e atingiu a Gália.
Prisciliano, o chefe espiritual do movimento, teve de enfrentar uma viva oposição por parte da hierarquia eclesiástica e do poder temporal. No entanto a sua doutrina sobreviveu durante cerca de duzentos anos, pois resistiu à queda do império, às invasões bárbaras e ao estabelecimento do reino suevo».
In contracapa da obra O Trono do Altíssimo , de João Aguiar~
O Priscilianismo foi uma corrente cristã gnóstica? Uma heterodoxia que não venceu?
Uma forma de cristianismo primitivo? Porque teve uma adesão tão forte, por parte das populações da Galécia e da Lusitânia? Em que consistia a sua doutrina e que traços deixou na génese da nossa nacionalidade e naquilo que somos nos dias de hoje?
Estas são algumas das questões que serão debatidas neste colóquio, organizado pela Fundação Rosacruz em colaboração com o Museu Biblioteca República e Resistência, que conta com a presença do escritor João Aguiar, autor de " O Trono do Altíssimo" e Ricardo Ventura, tradutor dos Tratados, de Prisciliano e Rui Freitas, investigador.
Biblioteca Museu Républica e Resistência Espaço Cidade Universitária
Rua Alberto de Sousa, 10-A, à Zona B do Rego Tel: 217 802 760
Fax: 217 802 788
e-mail: bib.republica@cm-lisboa.pt www.cm-lisboa.pt/cultura/DBD/brepublica <http://www.cm-lisboa.pt/cultura/DBD/brepublica>
segunda-feira, maio 15, 2006
PRÓXIMA SESSÃO:
Será uma sessão de leitura livre onde cada um terá a oportunidade de levar, declamar e partilhar poemas e outros textos.
A poesia está na rua! Não pisar!
sexta-feira, maio 05, 2006
CURSO:
Curso Livre pelo Dr. Miguel Real
6 MAIO · 24 JUNHO 2006 Sábados 10h30 · 12h30
O LABIRINTO DA RAZÃO E A FOME DE DEUS
De Pedro Amorim Viana e Teófilo Braga, no século XIX, a Paulo
Borges e Viriato Soromenho-Marques, já no século XXI, intenta-se
levantar as estrutura configurativa do pensamento português contemporâneo,
dividindo-o em quatro grandes vertentes culturais:
o Racionalismo (de Júlio de Matos a Fernando Gil),
o Espiritualismo (de Domingos Tarroso a António Brás Teixeira e Carlos H. do C.
Silva),
o Providencialismo (de Sampaio Bruno a António Quadros e Dalila Pereira da Costa)
o Modernismo (da “Questão do Bom Senso e do Bom Gosto”, em 1865, e das “Conferências do Casino”, em 1871, à integração de Portugal na Comunidade europeia, em 1986).
CONDIÇÕES DE PARTICIPAÇÃO:
Palácio da Quinta da Regaleira, Sala da Renascença.
Datas e Horários De 6 de Maio a 24
Custo: Curso completo € 100. Inclui entrega de diploma de participação e uma visita guiada à Quinta da Regaleira
Sessões individuais € 17/sessão.
Descontos:20% Estudantes, Passaporte
Regaleira e adultos com mais de 65
anos.
quinta-feira, maio 04, 2006
SESSÃO DE DIA 03/05/06:
De seguida fica uma transcrição de um texto da autoria de Filomena Oliveira e de Luís Martins, que analisa alguns dos romances de Sérgio Luís de Carvalho.
Analisando os três romances de Sérgio L. Carvalho (“Anno Domini”; “As Horas de Monsaraz” e “El-Rei Pastor”) como um todo, não podemos deixar de evidenciar três vertentes ideológicas e duas invariantes estruturais que caracterizam e singularizam a obra deste autor no panorama geral da literatura portuguesa actual:
1- O novo romance histórico não é estruturado segundo teses ou mensagens a transmitir ao leitor como verdades. Não se trata de evidenciar ficcionalmente uma lei histórica, de anunciar uma verdade, de contradizer uma argumentação, como o romance histórico do Romantismo, o drama histórico do realismo e naturalismo ou o romance histórico nacionalista; trata-se, somente, de escrever um romance, ou seja, um livro de ficção que pela ficção se resta. Em “El-Rei Pastor”, conclui-se que todos os grupos, todos os indivíduos históricos têm alguma razão e ninguém tem a razão total, nem as instituições oficiais, mais defensoras dos privilégios da Igreja dos cónegos e da hierarquia do poder, nem a seita do “Pastor”, que nasce como uma reacção do desagrado contra aquela, nem o próprio “Historiador”, cuja verdade depende da consulta das fontes, as quais, por sua vez dependem do processo de exclusão de outras fontes, quando não depende do processo de legitimação das próprias fontes como se constata em "El-Rei Pastor”.
2- Outra das marcas singulares da obra de Sérgio Luís de Carvalho nos seus romances é a da total ausência de leis históricas absolutas. Diferentemente, constatamos a existência de leis contingentes que favorecem ou inclinam a acção individual e colectiva num ou noutro sentido (o “tempo dos mercadores” em “As Horas de Monsaraz” por exemplo), mas nunca a existência de um sistema de leis que determinasse de um modo total o sentido da História.
3- Finalmente, sem o conforto de uma explicação providencialista ou sistemática da História e sem o conforto mental de adopção de leis necessárias, o resultado ficcional só pode ser de cepticismo e de pessimismo.
Gostaríamos, igualmente de sublinhar, como invariantes da obra de Sérgio Luís de Carvalho, seja o seu gosto pelos ambientes e história centrados na Idade Média, mas sem a carga de nacionalismo romântico dos autores do século XIX, seja a sua capacidade de dramatização do conceito milenário de “fim dos tempos”, que surgiram no seu primeiro romance, que enforma as personagens e a acção de “As Horas de Monsaraz” e que permanece em “El-Rei Pastor”, principalmente nos escritos do “Pastor”.
TEATRO:
Dias 5, 6, 12, 13 e 19 de Maio na Escola Secundária de Mem Martins (Pavilhão 8).
Entrada Gratutita
Todas as informações em http://nunolacerda.com.sapo.pt/absurdo/AbI2006.html
http://nunolacerda.com.sapo.pt/absurdo/AbI2006.html>
segunda-feira, maio 01, 2006
PRÓXIMA SESSÃO:
Já escreveu vários livros dos quais destacamos: “História de Sintra”; “Sintra: As pedras e o Tempo” (escrito em parceria com João Rodil outro autor que já esteve presente nas nossas sessões).
É activista da Amnistia Internacional, Director do Museu do Pão em Seia e professor de História e História de Arte na escola secundária de Mem-Martins!
segunda-feira, abril 24, 2006
SESSÃO DE DIA 19/04/06
Contámos com a presença do poeta croata Tahir Mujičić e do pintor Hrvoje Šercar (autores do livro Causa Portuguesa) assim como de outros convidados não anunciados, como o poeta Alberto Oliveira e o "especialista" em BD Geraldes Lino (organizador da tertúlia de BD mais antiga de Portugal, esta dura à mais de 20 anos com encontros nas primeiras segundas feiras de cada mês no Parque Mayer) e finalmente um destaque especial para os nossos "Avós" a Paula e o Luís que finalmente reapareceram nas nossas sessões.
Muitas ligações e sinergias foram encontradas e estabelecidas nesta sessão, ficámos a saber que o poeta Tahir Mujičić tem fortes ligações à banda desenhada e aos filmes de animação, é dramaturgo e encenador e claro ficamos a conhecer algumas ligações entre Portugal e a Croácia! Ficou a agradável sensação que voltaremos a encontrar estes nossos amigos quem sabe se numa ligação artística!
Para terminar fica um poema do livro "Causa Portuguesa" que vai ser lançado oficialmente na biblioteca Nacional no dia 27 (quinta-feira) às 18 horas.
adormeçamos
os crepúsculos do porto nos finais de outubro são mesmo feitos à nossa medida futuros
velhos
agradavelmente ternos como se estivessem revestidos de bambákion ou seja de
algodão
são amáveis e cordialmente calorosos e em cada tua boa noite
crepúsculo
com boa noite ó homem te respondem e ao mesmo tempo timidamente
sorriem
porque para eles a noite nunca é boa nem é noite boa pois no fundo eles com as noites
morrem
agonizam como os dentes-de-leão irrequietos com que as crianças correm pelos ventosos prados abaixo
os crepúsculos no porto são melosamente excitantes como vinho do
porto
um pouco cansados também da afabilidade que nos oferecem
em abundância
eles nem escondem o anseio para nos encantarem e aliciarem já em
novembro
eles cumprem esta tarefa como os soldados e como os empregados de mesa profissionalmente
e com honra
eles servem para o agrado teu e meu e para a fé o entusiasmo a esperança mas também para o turismo piroso
mas mesmo assim esses crepúsculos amam-te e abraçam-te privada e oficialmente e
até sinceramente
ó homem beija também tu os crepúsculos outonais no porto no entanto troca-os
infielmente
de vez em quando pelas manhãs de primavera cheias de carícias apaixonadas em
coimbra
segunda-feira, abril 17, 2006
ACONTECIMENTOS:
Dia 21 (sexta-feira) de Abril às 19 horas vai ocorrer o lançamento do livro da professora Teresa Marques (para aqueles a quem este nome soe familiar, relembramos que é professora de línguas na escola secundária de Mem-Martins). O lançamento decorrerá na biblioteca de Sintra, mais informações serão colocadas no blog.
O segundo evento envolve outro professor da mesma escola, no dia 19 estreia a nova peça de Miguel Real e Filomena Oliveira. Esta peça chama-se 1755 e evoca o grande terramoto de Lisboa, para quem não esteve ou não se recorda este autor participou numa das nossas sessões onde dissertou precisamente sobre esta efémeride!
1755 O Grande Terramoto de Lisboa é uma peça de teatro que recria ficcionalmente, a partir de figuras e acontecimentos reais, a mentalidade portuguesa na Lisboa do séc. XVIII atravessada por uma catástrofe natural que todos abala. Lisboa antes, durante e depois do terramoto é o contexto de toda a acção dramática. Se antes do terramoto se esboçam já os conflitos entre personagens e grupos sociais (os políticos, os nobres, os religiosos, as prostitutas do Botequim da Rosa e o povo das ruas de Lisboa) na luta por privilégios, influências, interesses e poder, é o terramoto que, tudo tendo destruído, revelará, pelo poder do Marquês de Pombal e do rei D. José I, não só uma cidade nova, como uma nova mentalidade e um novo Portugal. Nos escombros do velho Portugal, supersticioso e decadente, de nobreza falida e dominado tentacularmente pelos jesuítas nasce, a ferro e fogo, uma cidade nova, geométrica, e um país moderno, burguês, sem escravos, nem cristão-novos, com escolas normais, comércio intenso, sem contestação, nem opositores. Dois eixos dramáticos unificam toda a peça: a história de Mariana e do seu presumível incesto com o conde de Unhão, que se inscreve na Lisboa popular, e a história da ascensão ao poder do Marquês de Pombal, como ministro do reino, inscrevendo-se numa Lisboa fidalga à volta de rei D. José e do seu ministro.
A peça encontra-se em cena no Teatro da Trindade, de 4ª a sábado às 21h00 e domingo às 16h00 até ao dia 29 de Julho.
terça-feira, abril 11, 2006
DIANTE DE UM MAR GRANDE


Uma visão de autores croatas
Nas relações europeias, Portugal é um país longínquo e, sobretudo, diferente pela sua exposição ao oceano. Embora a marinhagem determinasse consideravelmente o destino histórico, tanto do nosso povo como do povo português, e particularmente algumas das mais célebres páginas do passado, as consequências da orientação marítima poder-se-iam dificilmente comparar. A imersão mediterrânea tem proporcionado aos espaços (e ao povo) croatas uma medida das relações mais íntimas, enquanto a abertura atlântica tem estimulado nos habitantes de Portugal (e nos respectivos monumentos) os desafios e o entusiasmo das proporções universais. Para não mencionar o abismo verdadeiro que divide a ambição imperial lusófona com a sua realização estatal duradoira, e a dispersão comunal e regional do país croata com elementos espirituais, só em ideias, da coesão e das memórias profundas sobre a auto-essência antiga.
No entanto, “o país à beira do mundo”, o espaço da viagem “até-ao-fim” – como o poeta Tahir Mujičić metaforicamente nomeia Portugal – é particularmente atractivo para nós, tanto pelos contrastes claros, como pelas afinidades possíveis e o reconhecimento ao nível do valor cultural e da actualidade viva. Afinal, com pouco exagero afirmaremos que tanto o nosso país como Portugal foram até há pouco “as belas adormecidas”; que tanto um país como o outro têm participação peninsular, e que compensam certa periferia nas relações europeias (também paralelamente) com a originalidade e intensidade das soluções criativas. Sabemos que a fama dos nossos artistas não equivale sempre aos exemplos lusitanos; contudo, atrevemo-nos a pensar como Marulić pode exercer o mesmo papel que Camões, que Držić, de certo modo, não deve ser menos significativo que Sá de Miranda, que Ujević, em muita coisa, pode ser comparado a Pessoa. Seja como for, sem ambição competitiva, vemos Portugal como um espaço não muito grande, mas de intensidades extraordinárias, como uma janela europeia que dá para um mar imenso, como um território da tradição complexa e frustrações ultrapassadas da grandeza presumível.
Viagem a Portugal estimulou as vibrações criativas e as reacções adequadas de expressão no poeta Tahir Mujičić e no pintor Hrvoje Šercar. Lembranças e anotações foram transformadas em obra bem determinada, em poemas e gráficos que ultrapassam as limitações de ocasião. Podemos dizer que tanto o poeta como o pintor se sentiram inspirados com os ambientes da costa ocidental ibérica, e que encontraram nas cidades e vilas com o património cultural português as cenas e as situações para as quais sentiram inclinação especial, algo entre sensação de movimentos ambientais evidentes e positivos, e pressentimento que também lá poderiam sentir-se como em casa. Por isso, a sua participação neste mapa é pura e espontânea.
Ao poeta é dado o poder de evocar expressamente muitos elementos específicos, o que Tahir Mujičić aproveita abundantemente nos seus poemas evocativos, um pouco nostálgicos e um pouco cómicos. Em estilo de colagem, ele introduz no texto nomes de comidas e bebidas, nomes de interlocutores e transeuntes potenciais, toponímia da região e as cores características dos lugares visitados. As referências, só aparentemente, do relato de viagem pelo Porto e Coimbra, Cálem e Douro, enriquecem no fundo com o factor humano: pescadores e vendedores, marinheiros e ceramistas, turistas e meninas, e sobretudo com os velhos que o autor descreve com certa obsessão – tanto um velho “eterno”, como um dos velhos “futuros”. Mas o motivo conhecido dos velhos (para mim, o do poeta Šoljan) Mujičić desenvolve ou gradua com uma entoação bastante nostálgica (diríamos mesmo: o fado), com a rítmica narrativa e colocação dos motivos em frente do mar grande, o oceano, “uma coisa atrás da qual não há nada”, dando assim à integridade do poema o selo da experiência existencial. Normalmente humorístico e relaxado, Mujičić tocou os registos novos no seu ciclo português, não negando o seu engenho e facilidade de expressão, e colocou-os ao serviço das memórias elegíacas e de identificação afectiva com o mundo das distâncias aproximadas.
Por outro lado, o pintor tem possibilidade de anotar mais de imediato as formas e sinais recebidos. Hrvoje Šercar gosta de partir do visto e memorizado, mas ainda prefere e sente necessário transformar o motivo numa realidade nova. A construção emblemática de Belém, Coimbra, Porto e o Mosteiro de Jerónimos está praticamente inserida na sua circulação sanguínea, e ele renova-os, conforme a recordação, numa projecção elástica e orgânica. Na reconstrução desenhadora aproveitou as experiências das suas imaginações anteriores (“cidades invisíveis” calvinistas), mas também dos devaneios sobre os motivos bem conhecidos e adoptados no coração de Dubrovnik, Trogir, Zagreb... Quer dizer, estabeleceu as coordenadas histórico-geográficas, criou a cenografia certa (fantástica, embora fundada no real) em que então deixou entrar os exemplos humanos e animais: desde os bois que puxam o barco até ao diabo macaco que está sentado num barril; desde o acto feminino com as características de bruxa até ao cortejo dos participantes humildes, provavelmente a procissão medieval dos peregrinos, para não falar das figuras de cantores, apresentadores ou dos navios que parecem estar a orientar a integridade. O bestiário imaginativo de Šercar e o florilégio temático ainda é ampliado com a série de iniciais inventivas, feitas para avivar a factura textual, enquanto a sua iconografia fortalece também o farnel comum e reconhecível do círculo europeu ocidental e a componente concreta portuguesa. Por ocasião de trabalhar no meio gráfico este pintor aproveita também para a combinação dos diferentes níveis (diferentes níveis e fases de realização), com que adquiriu a possibilidade de citar directamente, incrustar os trechos fotográficos, não ficando impedido na emanação do temperamento do manuscrito próprio, na manifestação do estilo individual. Pelo contrário, o diário icónico de Šercar sobre os caminhos portugueses é mais uma afirmação de coesão da sua visão dinâmica e diacrónica do fenómeno, uma prova de segurança do verdadeiro ponto de vista artístico.
Tonko Maroević

O IRAQUIANO IRAQUÊS:
O IRAQUIANO IRAQUÊS (MD, Zagreb, 2000)
O Cancioneiro tudocroata
Os velhos sentaram-se
(para o país à beira do mundo)
1 ou prólogo
eles os cinco os cinco mesmo
numa parede com quilómetros e quilómetros e quilómetros de comprimento
2
eles os cinco os cinco mesmo
ao sol triste de Dezembro triste
mesmo por volta do meio-dia e antes do almoço
3
eles os cinco os cinco mesmo
virados como deve ser de cara para a fila de casinhas
escondidas atrás dos azulejos azuis de mau gosto
nas fachadas podres que parecem de casa de banho
4
eles os cinco os cinco mesmo
de olhar vazio-desbotado fixado em nós
desajeitados nas nossas bebidas não bebidas nas nossas
cartas não escritas nos nossos sonhos não sonhados
na nossa fingida distracção e leveza
5
eles os cinco mesmo os cinco
virados (mais ainda como deve ser) de costas para o Atlântico
durante séculos com os ânulos aos ômbrulos
com o conhecimento do fim e sem-fim do final e
sem-final da finalidade e sem-finalidade da paredezinha de facto
e das fachadas em frente e américas invisíveis
6
eles os cinco mesmo os cinco
olha, entrevejo também um jornal a esta distância
e é o jornal nacional com o suplemento desportivo
e portanto com o tema (devemos dizer, de futebol)
de sempre e também com o resto da folha amarrotada
numa almofada debaixo do cu para os ossos cansados
próstata afectada bexiga inflamada
a
eles os cinco os cinco mesmo
e só um barrete gasto
e só três óculos rachados
b
eles os cinco os cinco mesmo
e contudo para nós forasteiros
vestidos a preceito e agasalhados
7
eles os cinco os cinco mesmo
virados de costas para o oceano gelado
chamam-se são talvez e confirmam que são
o joão o barbeiro reformado da rua sete
o rui o controlador dos bilhetes de aveiro até ao porto
antunes o ceramista local numa paz profunda
andré o pescador que já não pesca
álvaro o navegador que já não navega
c
eles os cinco mesmo os cinco
ah sim aproxima-se o sexto estou a vê-lo é verdade
com os óculos na cabeça contido e parece-me que
quer dizer algo e parece-me que não
d
eles os cinco os cinco mesmo
e com eles o sexto com eles que talvez seja
alves jorge que vem e não vem
que é e que não é
8
eles os cinco os cinco mesmo
estão sentados e calados e calados e sentados
e com eles também o sexto
até que o barbeiro abre com a mão trémula
o saco de plástico transparente e manchado
e começa a oferecê-los sem paixão
os papo-secos baratos (em redor o cheiro a bacalhau)
e eles tomam sem paixão ou não tomam e mastigam com a boca desdentada
fitando na mesma os azulejos azuis de casa de banho
9
eles os cinco os cinco mesmo
ficam assim eternamente sozinhos e separados da vida
sozinhos com o jornal de ontem encontrado na praia
sozinhos com os resultados comprados do futebol
sozinhos com os talões da reforma amarrotados
sozinhos com os dedos retorcidos da artrite
sozinhos com o vinho tinto e o vinho branco e verde
sozinhos com as mulheres que dantes os enganavam ou não
sozinhos com o fado triste e com o fatal barco negro
sozinhos com certo futuro galopando ao encontro deles
e
eles os cinco os cinco mesmo
ficam e aquele sexto alves jorge
sem profissão reforma origem
vai-se embora e não volta mais
f
eles os cinco os cinco mesmo
ficam porque ficam e porque
se sentaram o que é segundo dizem
a melhor posição para esperar e fim
10 ou epílogo
e ninguém mesmo ninguém
nem de costas nem por cima dos ombros
olha o oceano
porque sabem como é difícil olhar
para uma coisa atrás da qual não há nada
para uma coisa que não tem fim
(1998) Tradução: Tanja Tarbuk
sexta-feira, abril 07, 2006
PRÓXIMA SESSÃO:
Os dois autores croatas - o poeta e o pintor - vêm apresentar em primeira mão nos Meninos da Avó o seu livro "Causa Portuguesa" - poemas e gravuras que constituem um "mapa artístico de Portugal". Também estarão expostas na Gula da Regaleira algumas gravuras do pintor. A apresentação do livro será feita pelo poeta Fernando Dias Antunes enquanto a tradutora de croata-português Tanja Tarbuk ajudará a estabelecer a ligação entre croatas e portugueses.
Tahir Mujičić nasceu em Zagreb, Croácia, em 1947, onde se licenciou em Literatura Comparada e Estudos Eslavos, na Faculdade de Letras de Zagreb.
Publicou vários livros de poesia e ensaio, entre os quais O iraquiano iraquês (Irski Irance), A galinha in the rye (Kokoš in the rye), O galo no vinho (Kokot u vinu). Escreveu ainda 14 dramas e realizou três programas de televisão.
Foi durante vários anos director da Zagreb Film, a celebre escola de cinema de animação de Zagreb. É o director do Festival de Teatro Infantil de Šibenik.
Dono de um humor e de uma alegria contagiantes, é um apaixonado por Portugal, que visita frequentemente, tendo por diversas vezes participado no Cinanima, festival anual de cinema de animação em Espinho.
Hrvoje Šercar nasceu em Zagreb, Croácia, em 1936. Concluiu a Academia de Arte na classe do prestigioso pintor croata Krsto Hegedušić. Teve de 150 exposições individuais e em grupo no país e no mundo. Recebeu vários prémios para a sua obra, e as suas pinturas encontram-se em muitas colecções particulares e institucionais. Dedica-se também a ilustração de livros, cenografia e animação.
Mais informações e dados serão colocados posteriormente.