terça-feira, abril 11, 2006

DIANTE DE UM MAR GRANDE

De seguida mais um texto e imagens relacionadas com os nossos próximos convidados:

Uma visão de autores croatas

Nas relações europeias, Portugal é um país longínquo e, sobretudo, diferente pela sua exposição ao oceano. Embora a marinhagem determinasse consideravelmente o destino histórico, tanto do nosso povo como do povo português, e particularmente algumas das mais célebres páginas do passado, as consequências da orientação marítima poder-se-iam dificilmente comparar. A imersão mediterrânea tem proporcionado aos espaços (e ao povo) croatas uma medida das relações mais íntimas, enquanto a abertura atlântica tem estimulado nos habitantes de Portugal (e nos respectivos monumentos) os desafios e o entusiasmo das proporções universais. Para não mencionar o abismo verdadeiro que divide a ambição imperial lusófona com a sua realização estatal duradoira, e a dispersão comunal e regional do país croata com elementos espirituais, só em ideias, da coesão e das memórias profundas sobre a auto-essência antiga.

No entanto, “o país à beira do mundo”, o espaço da viagem “até-ao-fim” – como o poeta Tahir Mujičić metaforicamente nomeia Portugal – é particularmente atractivo para nós, tanto pelos contrastes claros, como pelas afinidades possíveis e o reconhecimento ao nível do valor cultural e da actualidade viva. Afinal, com pouco exagero afirmaremos que tanto o nosso país como Portugal foram até há pouco “as belas adormecidas”; que tanto um país como o outro têm participação peninsular, e que compensam certa periferia nas relações europeias (também paralelamente) com a originalidade e intensidade das soluções criativas. Sabemos que a fama dos nossos artistas não equivale sempre aos exemplos lusitanos; contudo, atrevemo-nos a pensar como Marulić pode exercer o mesmo papel que Camões, que Držić, de certo modo, não deve ser menos significativo que Sá de Miranda, que Ujević, em muita coisa, pode ser comparado a Pessoa. Seja como for, sem ambição competitiva, vemos Portugal como um espaço não muito grande, mas de intensidades extraordinárias, como uma janela europeia que dá para um mar imenso, como um território da tradição complexa e frustrações ultrapassadas da grandeza presumível.

Viagem a Portugal estimulou as vibrações criativas e as reacções adequadas de expressão no poeta Tahir Mujičić e no pintor Hrvoje Šercar. Lembranças e anotações foram transformadas em obra bem determinada, em poemas e gráficos que ultrapassam as limitações de ocasião. Podemos dizer que tanto o poeta como o pintor se sentiram inspirados com os ambientes da costa ocidental ibérica, e que encontraram nas cidades e vilas com o património cultural português as cenas e as situações para as quais sentiram inclinação especial, algo entre sensação de movimentos ambientais evidentes e positivos, e pressentimento que também lá poderiam sentir-se como em casa. Por isso, a sua participação neste mapa é pura e espontânea.

Ao poeta é dado o poder de evocar expressamente muitos elementos específicos, o que Tahir Mujičić aproveita abundantemente nos seus poemas evocativos, um pouco nostálgicos e um pouco cómicos. Em estilo de colagem, ele introduz no texto nomes de comidas e bebidas, nomes de interlocutores e transeuntes potenciais, toponímia da região e as cores características dos lugares visitados. As referências, só aparentemente, do relato de viagem pelo Porto e Coimbra, Cálem e Douro, enriquecem no fundo com o factor humano: pescadores e vendedores, marinheiros e ceramistas, turistas e meninas, e sobretudo com os velhos que o autor descreve com certa obsessão – tanto um velho “eterno”, como um dos velhos “futuros”. Mas o motivo conhecido dos velhos (para mim, o do poeta Šoljan) Mujičić desenvolve ou gradua com uma entoação bastante nostálgica (diríamos mesmo: o fado), com a rítmica narrativa e colocação dos motivos em frente do mar grande, o oceano, “uma coisa atrás da qual não há nada”, dando assim à integridade do poema o selo da experiência existencial. Normalmente humorístico e relaxado, Mujičić tocou os registos novos no seu ciclo português, não negando o seu engenho e facilidade de expressão, e colocou-os ao serviço das memórias elegíacas e de identificação afectiva com o mundo das distâncias aproximadas.

Por outro lado, o pintor tem possibilidade de anotar mais de imediato as formas e sinais recebidos. Hrvoje Šercar gosta de partir do visto e memorizado, mas ainda prefere e sente necessário transformar o motivo numa realidade nova. A construção emblemática de Belém, Coimbra, Porto e o Mosteiro de Jerónimos está praticamente inserida na sua circulação sanguínea, e ele renova-os, conforme a recordação, numa projecção elástica e orgânica. Na reconstrução desenhadora aproveitou as experiências das suas imaginações anteriores (“cidades invisíveis” calvinistas), mas também dos devaneios sobre os motivos bem conhecidos e adoptados no coração de Dubrovnik, Trogir, Zagreb... Quer dizer, estabeleceu as coordenadas histórico-geográficas, criou a cenografia certa (fantástica, embora fundada no real) em que então deixou entrar os exemplos humanos e animais: desde os bois que puxam o barco até ao diabo macaco que está sentado num barril; desde o acto feminino com as características de bruxa até ao cortejo dos participantes humildes, provavelmente a procissão medieval dos peregrinos, para não falar das figuras de cantores, apresentadores ou dos navios que parecem estar a orientar a integridade. O bestiário imaginativo de Šercar e o florilégio temático ainda é ampliado com a série de iniciais inventivas, feitas para avivar a factura textual, enquanto a sua iconografia fortalece também o farnel comum e reconhecível do círculo europeu ocidental e a componente concreta portuguesa. Por ocasião de trabalhar no meio gráfico este pintor aproveita também para a combinação dos diferentes níveis (diferentes níveis e fases de realização), com que adquiriu a possibilidade de citar directamente, incrustar os trechos fotográficos, não ficando impedido na emanação do temperamento do manuscrito próprio, na manifestação do estilo individual. Pelo contrário, o diário icónico de Šercar sobre os caminhos portugueses é mais uma afirmação de coesão da sua visão dinâmica e diacrónica do fenómeno, uma prova de segurança do verdadeiro ponto de vista artístico.


Tonko Maroević





O IRAQUIANO IRAQUÊS:

De seguida fica um excerto de um livro de Tahir Mujičić.

O IRAQUIANO IRAQUÊS (MD, Zagreb, 2000)
O Cancioneiro tudocroata
Os velhos sentaram-se
(para o país à beira do mundo)

1 ou prólogo

eles os cinco os cinco mesmo
numa parede com quilómetros e quilómetros e quilómetros de comprimento

2
eles os cinco os cinco mesmo
ao sol triste de Dezembro triste
mesmo por volta do meio-dia e antes do almoço

3
eles os cinco os cinco mesmo
virados como deve ser de cara para a fila de casinhas
escondidas atrás dos azulejos azuis de mau gosto
nas fachadas podres que parecem de casa de banho

4
eles os cinco os cinco mesmo
de olhar vazio-desbotado fixado em nós
desajeitados nas nossas bebidas não bebidas nas nossas
cartas não escritas nos nossos sonhos não sonhados
na nossa fingida distracção e leveza

5
eles os cinco mesmo os cinco
virados (mais ainda como deve ser) de costas para o Atlântico
durante séculos com os ânulos aos ômbrulos
com o conhecimento do fim e sem-fim do final e
sem-final da finalidade e sem-finalidade da paredezinha de facto
e das fachadas em frente e américas invisíveis

6
eles os cinco mesmo os cinco
olha, entrevejo também um jornal a esta distância
e é o jornal nacional com o suplemento desportivo
e portanto com o tema (devemos dizer, de futebol)
de sempre e também com o resto da folha amarrotada
numa almofada debaixo do cu para os ossos cansados
próstata afectada bexiga inflamada

a
eles os cinco os cinco mesmo
e só um barrete gasto
e só três óculos rachados

b
eles os cinco os cinco mesmo
e contudo para nós forasteiros
vestidos a preceito e agasalhados

7
eles os cinco os cinco mesmo
virados de costas para o oceano gelado
chamam-se são talvez e confirmam que são
o joão o barbeiro reformado da rua sete
o rui o controlador dos bilhetes de aveiro até ao porto
antunes o ceramista local numa paz profunda
andré o pescador que já não pesca
álvaro o navegador que já não navega

c
eles os cinco mesmo os cinco
ah sim aproxima-se o sexto estou a vê-lo é verdade
com os óculos na cabeça contido e parece-me que
quer dizer algo e parece-me que não

d
eles os cinco os cinco mesmo
e com eles o sexto com eles que talvez seja
alves jorge que vem e não vem
que é e que não é

8
eles os cinco os cinco mesmo
estão sentados e calados e calados e sentados
e com eles também o sexto
até que o barbeiro abre com a mão trémula
o saco de plástico transparente e manchado
e começa a oferecê-los sem paixão
os papo-secos baratos (em redor o cheiro a bacalhau)
e eles tomam sem paixão ou não tomam e mastigam com a boca desdentada
fitando na mesma os azulejos azuis de casa de banho

9
eles os cinco os cinco mesmo
ficam assim eternamente sozinhos e separados da vida
sozinhos com o jornal de ontem encontrado na praia
sozinhos com os resultados comprados do futebol
sozinhos com os talões da reforma amarrotados
sozinhos com os dedos retorcidos da artrite
sozinhos com o vinho tinto e o vinho branco e verde
sozinhos com as mulheres que dantes os enganavam ou não
sozinhos com o fado triste e com o fatal barco negro
sozinhos com certo futuro galopando ao encontro deles

e
eles os cinco os cinco mesmo
ficam e aquele sexto alves jorge
sem profissão reforma origem
vai-se embora e não volta mais

f
eles os cinco os cinco mesmo
ficam porque ficam e porque
se sentaram o que é segundo dizem
a melhor posição para esperar e fim

10 ou epílogo
e ninguém mesmo ninguém
nem de costas nem por cima dos ombros
olha o oceano
porque sabem como é difícil olhar
para uma coisa atrás da qual não há nada
para uma coisa que não tem fim

(1998) Tradução: Tanja Tarbuk

sexta-feira, abril 07, 2006

PRÓXIMA SESSÃO:

Na próxima sessão de dia 19 de Abril teremos o privilégio de receber dois convidados muito especiais. Especiais por serem croatas, mas também pela sua obra, fica em seguida uma pequena nota biográfica.
Os dois autores croatas - o poeta e o pintor - vêm apresentar em primeira mão nos Meninos da Avó o seu livro "Causa Portuguesa" - poemas e gravuras que constituem um "mapa artístico de Portugal". Também estarão expostas na Gula da Regaleira algumas gravuras do pintor. A apresentação do livro será feita pelo poeta Fernando Dias Antunes enquanto a tradutora de croata-português Tanja Tarbuk ajudará a estabelecer a ligação entre croatas e portugueses.

Tahir Mujičić nasceu em Zagreb, Croácia, em 1947, onde se licenciou em Literatura Comparada e Estudos Eslavos, na Faculdade de Letras de Zagreb.
Publicou vários livros de poesia e ensaio, entre os quais O iraquiano iraquês (Irski Irance), A galinha in the rye (Kokoš in the rye), O galo no vinho (Kokot u vinu). Escreveu ainda 14 dramas e realizou três programas de televisão.
Foi durante vários anos director da Zagreb Film, a celebre escola de cinema de animação de Zagreb. É o director do Festival de Teatro Infantil de Šibenik.
Dono de um humor e de uma alegria contagiantes, é um apaixonado por Portugal, que visita frequentemente, tendo por diversas vezes participado no Cinanima, festival anual de cinema de animação em Espinho.

Hrvoje Šercar nasceu em Zagreb, Croácia, em 1936. Concluiu a Academia de Arte na classe do prestigioso pintor croata Krsto Hegedušić. Teve de 150 exposições individuais e em grupo no país e no mundo. Recebeu vários prémios para a sua obra, e as suas pinturas encontram-se em muitas colecções particulares e institucionais. Dedica-se também a ilustração de livros, cenografia e animação.


Mais informações e dados serão colocados posteriormente.

SESSÃO DE DIA 5/04/06:

No passado dia 5 de Abril realizou-se a 30ª sessão dos Meninos da Avó. Como anunciado contámos com a presença do poeta e tradutor Alexandre Vargas.
Durante a sessão foram referidas algumas efemérides que merecem serem destacadas:

Fez no dia 1 de Abril 10 anos do falecimento do actor e produtor de teatro Mário Viegas, uma personagem polémica mas muito importante para o rejuvenescimento do panorama teatral nacional.

Comemoram-se os 100 anos do nascimento de Samuel Beckett, dramaturgo com uma vastíssima e importante obral teatral.

Finalmente é de referir que dia 1 de Abril é também a data de aniversário do poeta Fernando Grade, que já passou e marcou as nossas tertúlias!

A participação de Alexandre Vargas fica ligada à leitura de um caderno de poemas (inéditos) dos quais ele próprio irá seleccionar alguns para serem colocados no blog!

quarta-feira, março 29, 2006

AGOSTINHO DA SILVA




AGOSTINHO DA SILVA NASCEU HÁ 100 ANOS

Às 20 horas do dia 13 de Fevereiro de 1906 - há um século !!!
- nascia na cidade do Porto GEORGE AGOSTINHO BAPTISTA DA SILVA, mais precisamente na Rua do Barão de Nova Cintra.

Aquariano com ascendente em Virgem e com o Nodo Norte na Casa XI, AGOSTINHO DA SILVA foi uma figura com um apurado sentido crítico, quenão tem paralelo no nosso universo cultural. A vida propôs-lhe uma série de projectos relacionados com trabalhos de grupo, estudos, renovação da vida social e da partilha com os amigos. Foi um canal por excelência de esperanças e de sonhos, através do qual o sentimento de muitos grupos se manifestou. Todos os povos de língua portuguesa dedicam-lhe, hoje, igualmente uma notória atenção quer pela vastidão do seu saber, quer ainda pela qualidade e pluralidade da sua obra.

AGOSTINHO DA SILVA, amigo e companheiro de António Sérgio, foi um"pensador-viajante" que, tal como o próprio afirmou "a única coisa queeu penso é que não estou ancorado em Portugal". No livro "Portugal Amordaçado", MÁRIO SOARES, aluno no Liceu de AGOSTINHO DA SILVA, confessou, por exemplo, "ter ficado marcado pelo seu exemplo".

A GALERIA MATOS FERREIRA, com a colaboração da ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DASILVA e do CORO LOPES-GRAÇA da ACADEMIA DE AMADORES DE MÚSICA associa-se aos inúmeros eventos que, ao longo deste ano e um pouco por todo o lado, irão assinalar a efeméride. A iniciativa terá lugar em Abril e arranca logo no dia 1 - data em que a GALERIA MATOS FERREIRA perfaz exactamente o primeiro ano de Actividades Culturais - com a actuação do CORO LOPES-GRAÇA da ACADEMIA DE AMADORESDE MÚSICA e, ainda, com a palestra "AGOSTINHO DA SILVA : O POETA"proferida RISOLETA PINTO PEDRO.Seguem-se ainda as seguintes palestras e debates:
* 8 de Abril de 2006 - Sábado, às 21h30: PALESTRA Tema: AGOSTINHO DA SILVA : O FILÓSOFO Proferida por PAULO BORGES.

* 20 de Abril de 2006 - Quinta-feira, às 21h30: PALESTRA Tema: AGOSTINHO DA SILVA : O POETA E O POEMA Proferida por JOSÉ FLÓRIDO.

* 22 de Abril de 2006 - Sábado, às 21h30: PALESTRA Tema: AGOSTINHO DA SILVA : O TEÓRICO DA CULTURA PORTUGUESA Proferida por RENATO EPIFÂNIO.

* 28 de Abril de 2006 - Sexta-feira, às 21h30: TERTÚLIA Sessão Interactiva de leitura e debate das ideias de AGOSTINHO DA SILVA Animada por MARIA FERNANDES, JOSÉ MARÇAL e PEDRO GOMES.

* 29 de Abril de 2006 - Sábado, às 21h30: PALESTRA Tema: AGOSTINHO DA SILVA : O PROFESSOR E O CRÍTICO LITERÁRIO Proferida por MIGUEL REAL.

Para informações mais detalhadas sobre estes eventos ou de outras actividades culturais da GALERIA devem contactar para o seguinte Tlm.:96 295 37 22 ou, em alternativa, ver a página Web: www.galeriamatosferreira.com.

terça-feira, março 28, 2006

PRÓXIMA SESSÃO

Na próxima sessão de dia 5 de Abril teremos como convidado o escritor Alexandre Vargas.

Alexandre Vargas é poeta e tradutor. De poesia publicou «Morta a sua Fala»,«Cyborg», «Vento de Pedra», «Lua Cisterna», «Organum» além de ter participado em antologias, cadernos, etc. Traduziu os músicos-poetas Peter Hammil e Patti Smith. Sintra ocupa um lugar especial no seu imaginário.

Ouçamos o que sobre ele diz Luis Adriano Carlos, o antologiador de "PoesiaDigital - 7 Poetas dos Anos Oitenta":
ALEXANDRE VARGAS, marcado pelo universo pós-simbolista e modernista, e sobretudo pelos fantasmas de Antero, Pascoaes, Sá-Carneiro, Álvaro de Campos e José Gomes Ferreira, é essencialmente um poeta visionário que exprime aconflitualidade interna de uma mitologia pessoal dividida entre um passado naturalista e um futuro cibernético. [...] Poeta que traduz o visionarismoda sua epopeia lírica numa discursividade a um tempo meditativa e narrativa, tecnicamente neobarroca, sustentando a retórica da imagem e os seus efeitos oniristas em mecanismos surrealizantes, mas por vezes cedendo perante a construção alegórica, exibe nas suas criações mais recentes uma forte atracção pela temática luciferina e por um experimentalismo formal vazado em enumerações caóticas, neologismos telescópicos, sinestesias e misturas polifónicas que provocam em certos ângulos uma impressão estética muito próxima de um Ângelo de Lima na sua faceta pré-joyciana.

Alexandre Vargas lê poemas inéditos seus na Tertúlia dos Meninos da Avó.

segunda-feira, março 20, 2006

SESSÃO DE DIA 15/03/06

Dia 15 de Março realizou-se a 29ª sessão dos Meninos da Avó. Como já tinha sido anunciado contamos com a presença do escritor António Augusto Sales, que veio falar da sua obra. A sua participação incidiu sobretudo no poeta António Botto (de quem é autor de uma biografia), de uma forma apelativa foi-nos dando a conhecer a vida e obra deste importante autor, contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa. A obra poética de António Botto será mais tarde alvo da nossa atenção.



sexta-feira, março 10, 2006

PRÓXIMA SESSÃO:

Na próxima sessão, dia 15 de Março teremos como convidado na nossa sessão o escritor António Augusto Sales. Este escritor notabilizou-se como o biográfo e estudioso da vida e obra de António Botto, atráves da publicação do livro "António Botto: real e imaginário". Para além da desta faceta tem publicados os seguintes livros: "Uma Longa Estranha Pausa" e "Corpo Inigmático". Um autor residente no concelho de Sintra desde longa data e que nos irá brindar com suas histórias e vivências.
Esta sessão vai decorrer no restaurante Regalo da Gula (quinta da Regaleira) Rua do Barbosa do Bocage, 5 estrada de Seteais.

A poesia está na rua. Não pisar.

segunda-feira, março 06, 2006

CAMILO PESSANHA

Camilo Pessanha nasceu em Coimbra em Setembro de 1867 e morreu em Macau, em Março de 1926, figura singular da poesia portuguesa do início do século XX, o nosso maior poeta simbolista, mereceu a Eugénio de Andrade a justeza destas palavras: “Sempre tive Camilo Pessanha como exemplo da mais alta ascese poética, digamos, um homem da raça de Baudelaire, ou de Cavafy. Pessoa, Pessanha, Cesário, Camões – e agrada-me citá-los assim a contrapelo – foram sempre para mim os nomes supremos da poesia de língua portuguesa”. E ainda aquela vida sua vivida (ou antes desvivida) exemplarmente à margem da impenitente e sentenciosa e sobranceira verborreia nacional, com o poeta apenas empenhado numa crítica da eternidade que era o seu caminhar para o silêncio, mais interessado pelos seus cães que pelos seus contemporâneos.
A tal exemplaridade fiquei fiel para sempre.”


INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme…


OLVIDO

Desce por fim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas distendidas
As feições, imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimeras modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor…
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…

Ias anda, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação…


INTERROGAÇÃO

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! Nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez um começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha, in "Clepsidra"

domingo, março 05, 2006

SESSÃO DE DIA 1/03/06


Dia 1 de Março realizou-se a 28ª sessão dos Meninos d´Avó. Esta sessão ocorreu no restaurante "Regalo da Gula", foi uma agradável primeira sessão neste novo espaço, o tema era livre apesar de se ter evocado duas efémerides dignas de posterior homenagem: os 80 anos da morte de Camilo Pessanha e os 10 anos do desaparecimento de Vergílio Ferreira! Não se proporcionou nenhuma leitura destes poetas na sessão, leram-se poemas de Mário de Sá Carneiro, Herberto Heldér entre outros.


Hilário presenteou-nos com uma performance musical.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

PRÓXIMA SESSÃO:

Depois de um período de dúvidas podemos assegurar já a realização da próxima sessão dos Meninos d´Avó no restaurante o "Regalo da Gula", Quinta da Regaleira Rua Barbosa do Bocage, 5 estrada de Seteais, Sintra (e-mail: regalo_da_gula@sapo.pt). A sessão realiza-se dia 1 de Março e será livre, não temos nenhum convidado especial. Como será a primeira sessão neste novo espaço pretendemos deixar o ambiente e as participações fluirem naturalmente.
Contamos com a presença de todos os Meninos d´Avó! Qualquer dúvida que tenham contactem-nos por mail que iremos fazer os possíveis para as resolver.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

OLÍMPIO NEVES GONÇALVES

Olímpio Neves Gonçalves, natural do Porto, é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da mesma cidade. Para além de alguma publicação dispersa por várias revistas e suplementos literários, com o pseudónimo de Carlos Gabriel, colaborou na plaquete de poemas para Florbela Espanca e na “Antologia a Teixeira de Pascoais”. Em 1962 publicou o livro de poesia “Alguém Mora na Outra Margem” e, em 1962 colaborou na Antologia “Poesia e Tempo”, com outros autores, tais como António Ramos Rosa, Fiama Pais Brandão, Maria Teresa Horta, entre outros.

25

Onde mesmo as telúricas tardes são hálito e
sussuro na terra ardente este acsao em cavalgada
inútil passáros toma por muro intransponível

Canta um pássaro o riso e não se derrama oh
tão espalmado ele voa no lastro das dores que estas
modulam seus muitos idiomas e gorjeios seus soluços
baloiçantes nos flocos do sonho

Dores e riso sim na ternura febril das
ancas da insónia e lágrimas cristais verdes de
lágrimas na vertente radiosa dos rostos cúmplices

Que sôfrega demência ante as diáfanas e rarefeitas
Traições desta hora insubmissa

Resíduo flor supérflua na proa da nave que
paira resvala o efémero gume no vislumbre da lâmina
o eco da elegia o escoa na anemia vítrea das iras



26


E então direis
que a alegria desce do maná
na abundância do deserto
e que a vara
fende na rocha adusta o fio cristalino
da água da ablução de cada dia

Nunca mais
as prostrações ante o bezerro dourado
enfeitado nas tranças falazes da serpente
Nos altares
agora alisados nos musgos e líquenes húmidos
dos cultos mortos o fedor das lajes
há muito abandonados na clareira árida

O riso
irrompe por entre os dentes da claridade
da axila orvalhada da manhã
e orvalho embebe sua oleosa pupila
no beijo da frescura das têmporas

Inocência
das coisas puras Inocência nua na epiderme
exposta à libação do vinho e do pão
repartido pelo sacerdócio das carícias e afectos
As bailadeiras ungidas pela osmose do incenso
Sorvem nas volutas os haustos
Da ébria e sinuosa amplitude dos gestos

A ambrósia
excita as papilas da língua Os sápidos sabores
transmutam-se nas licorosas bodas
espasmos nas virgens seduzidas e prontas

São nossas
as janelas de todos os assomos de todos os abraços
ancorados nas angras de todos os seios
são nossas as velas enfunadas de todos
os veleiros do êxtase

Um novo deus
alcança a beatitude nas alturas envadas
os calmos himalaias inundam na paz do silêncio
os inquietos pensamentos os gafanhotos saltadores
na selva das emoções apaziguadas

Se um deus
ronda nas imediações das províncias da alma
nessa fronteira elástica da vertigem das pátrias
quem o reprovará com palavras indiscretas

Olímpio Neves Gonçalves; in “Os Arquétipos”; Tertúlia, 1996.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

SESSÃO DE DIA 15/02/2006


Helena Langrouva ladeada por Jorge Menezes e Rui Lopo

No dia 15 de Fevereiro realizou-se a 27ª sessão dos Meninos d´Avó. Como foi anunciado tivemos a participação da Helena Langrouva, esta estudiosa de cultura Clássica apresentou o seu livro de ensaios "De Homero a Sophia". Depois de uma apresentação biográfica, a autora (sintrense de nascimento), falou dos seus estudos académicos e gostos adquiridos ao longo de uma vida dedicada à literatura. Declamou Sophia de Mello Breyner Anderson e Camões, foi uma participação muito interessante, ainda ficaram por revelar facetas da nossa convidada o que augura novos encontros para o futuro.

Falando de futuro, nesta sessão também se decidiu em assembleia o caminho que os Meninos d´Avó devem tomar, agora que perdemos com extrema tristeza o nosso poiso de sempre: a Casa da Avó. Decidiu-se que o espírito deve ser mantido e que se deve procurar novo poiso!
De entre as várias hipoteses que surgiram e foram debatidas chegou-se ao Resturante da Quinta da Regaleira. Este espaço ainda não é definitivo mas ficou como a hipotese mais desejável para a realização das nossas tertúlias. Até à próxima sessão (dia 1 de Março) esperamos ter garantido um espaço (provisório ou definitivo) para o nosso encontro!
Mais informações serão aqui colocadas e transmitidas por mail.
O momento poético final foi feito pelo aniversariante Pedro Hilário que nos presenteou com poemas de um poeta seu conhecido: Luís Baltazar. Fica o desejo de dar a conhecer mais deste poeta numa oportunidade próxima. Por agora fica apenas um pequeno Haik:

ACIMA DAS NUVENS
NUNCA CHOVE

Exige-se uma nota final de agradecimento a todos na Casa da Avó pela sua disponibilidade, simpatia e amizade ao longo deste tempo. Desejamos votos de boa sorte para o futuro e prometemos que não se irá perder o contacto e o espírito criado naquele já saudoso espaço!

O aniversariante Hilário brindou-nos com poesia açoriana!

terça-feira, fevereiro 14, 2006

ESTREIA:

Como o próprio título indica, o enredo de Policial gira em torno de um crime: o homicídio, envolto em mistério, de Anselmo Valenças. O principal suspeito, na opinião do Inspector Raúl, da Polícia de Segurança do Estado, é o irmão do morto, o excêntrico D. Galiano - que insiste em dar uma festa no dia seguinte ao crime. Caberá ao novato detective Armando das Mil Estrelas - e ao seu inconsequente ajudante Hipólito - descobrir o verdadeiro assassino antes do final da festa. Mas as investigações vão revelar-se mais complicadas do que o detective privado esperaria e as surpresas e revelações vão ser muitas...

Casa de Teatro de Sintra: Rua Veiga da Cunha, nº 20, Sintra
• De 16 de Fevereiro a 5 de Março (Quintas, sextas, sábados e domingos às 22h00)

Mais informações em: www.utopiateatro.com

domingo, fevereiro 12, 2006

EVENTO:

O Núcleo de Música da Alagamares-Associação Cultural propõe-lhe, no próximo dia 18 de Fevereiro, Sábado, na Sociedade Filarmónica 'Os Aliados', um Baile de Máscaras fora do modelo habitual, característico dos tradicionais Bailes de Carnaval, prolíferos nesta altura do ano.

Para tal, sugerimos-lhe um espectáculo musical ao som dos Almighty Love e da sua abordagem à World Music, com a participação de elementos dos Kump'ania Al-Gazarra e after-show party com o Dj ManMachine (pop 80s, rock, funk, banda-sonora-de-séries-de-tv-antigas).

Dia 18 de Fevereiro de 2006, Sábado, na Sociedade Filarmónica 'Os Aliados', em S. Pedro de Sintra, pelas 21h30 e até às 2h. Compareça e venha divertir-se com os seus amigos!

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

HELENA C. LANGROUVA

Na próxima sessão dia 15 de Fevereiro iremos ter como convidada a escritora sintrense Helena Langrouva. Em seguida fica uma biografia dos escritos da autora:

Helena Langrouva estudou nas universidades de Lisboa, Paris, Tours, Montpellier e Londres. É licenciada em Filologia Clássica (Lisboa), Maître ès Lettres Modernes - Cinéma (Montpellier III), pós-graduada - D.E.A. (Paris III), M.A. e M. Phil. (Londres) e doutorada em Estudos Portugueses (Lisboa, UNL). Leccionou Literatura Portuguesa Clássica, Teoria da Literatura, Introdução aos Estudos Literários, no ensino superior, com passagem pelo ensino secundário onde leccionou Grego, Latim e Português; foi Leitora de Língua e Cultura Portuguesas nas universidades de Montpellier e Rouen.

Publicações assinadas: Helena Langrouva
“Camões, São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila”, em Homenagem a Maria de Lourdes Belchior, Paris e Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998. Uma versão diferente e ampliada foi publicada com o título: “Viagem interior e via mística: Santa Teresa de Ávila , São João da Cruz e Camões” no volume abaixo indicado De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, 2004.
“As Cartas de Camões: da viagem ao pensamento”, em Humanismo para o nosso tempo- Homenagem a Luís de Sousa Rebelo, Lisboa, edição de que é co-organizadora, com A. A. Nascimento, J. V. De Pina Martins e T.F. Earle, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian (distribuída e comercializada pela A.PPACDM - Braga), 2004. Outra versão deste ensaio foi publicada, com o mesmo título, no volume abaixo mencionado De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, 2004.
De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, ensaios, Coimbra, Angelus Novus, edição patrocinada pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, 2004.
Actualidade de Os Lusíadas, ensaios, Lisboa, Revista Brotéria, Abril, Maio-Junho e Julho, 2004.

No prelo:
A viagem na poesia de Camões (tese de doutoramento), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian em protocolo com a Fundação para a Ciência e Tecnologia;
Actualidade de Os Lusíadas, Lisboa, Roma Editora, edição subsidiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, apoiada pelo Instituto São Tomás de Aquino (ISTA).

DIVULGAÇÃO:

22 de Fevereiro, 1, 8, 15, 22 e 29 de Março de 2006
(12 horas – 18h30 às 20h45)

Curso Camoniano I

Dos desafios da escrita e da vida ao humanismo cívico - Revisitando Os Lusíadas e
As Cartas de Camões

por

Helena Langrouva

Este curso permitirá aos inscritos um encontro e/ou reencontro com Os Lusíadas e com duas Cartas de Camões. Dar-se-á prioridade ao estudo das pausas de Os Lusíadas: as invocações e os finais de canto, vendo as suas relações com alguns episódios. Nas invocações, Camões renova a tradição da epopeia clássica e medieval, introduzindo um conjunto de notáveis desafios para a sua própria obra e para todos os vindouros que lutam pela criação de uma obra de arte. O estudo aprofundado dos finais dos cantos (epifonemas) contribui para compreender o que o próprio narrador pensa sobre a epopeia e a sua época, o seu modo de meditar, reflectir, interferir, ter voz, comunicar com os seus contemporâneos as suas preocupações sobre a crise de valores éticos, artísticos, culturais e sociais que perduram no tempo. É a voz do humanista cívico que desafia os seus contemporâneos para a coerência entre o agir e o pensar; que critica, distinguindo o trigo do joio, repondo o sentido original da palavra criticar (gr.krino /lat. cerno): joeirar, ver; que reitera a bipolaridade entre o ser e o dever-ser, e procura ter uma visão distanciada do mundo
Os participantes são ainda convidados à meditação sobre a ligação profunda entre a arte e a vida: o naufrágio de Camões, a consciência do seu próprio valor- sintetizados em Os Lusíadas-, o modo como sentiu a sua época, através das suas Cartas, raramente lidas e conhecidas, a sua denúncia da “pura inveja”de que foi alvo, a sua tentativa de aceitar a vida e de ter uma visão sábia do mundo.
No seu conjunto, este curso convida à meditação, à reflexão e à crítica, para um público alargado, aberto à cultura.
A desenvolver em cursos seguintes.
Este curso destina-se a todos os que se interessam por Luís de Camões e em particular por Os Lusíadas e As Cartas.

Datas: 22 de Fevereiro, 1, 8, 15, 22 e 29 de Março de 2006, das 18h30 às 20h45.
Preço: até 15 de Fevereiro de 2006 – € 90 ("Amigos da Fundação" e Estudantes - € 75). Inscrições Limitadas. Depois de 15 de Fevereiro de 2006, sobretaxa de € 5.

Local: Palácio Fronteira, Largo São Domingos de Benfica, 1, 1500-554 Lisboa.
Informações: Telefone: 21 778 45 99 (Assuntos Culturais) Fax: 21 778 03 57

SESSÃO DE 1/02/06

No dia 1 de Fevereiro realizou-se a 26ª sessão dos Meninos d´Avó. Como já tinha sido anunciado contamos com a presença do escritor João Rodil, a sua participação incidiu na história das referências literárias em Sintra, desde tempos imemoriais (antes de Cristo) até ao sec. XIX!
Esta sessão ficou marcado por uma futura efémeride! A próxima sessão será a última a ser realizada na Casa da Avó! Lamentavelmente e por razões completamente alheias aos Meninos assim como à Paula e ao Luís no fim do presente mês a Casa da Avó encerrara! Tal facto causa-nos um profundo desgosto não só pela perda do espaço assim como pelo simbolismo agregado ao espaço! Na próxima sessão esta problemática será discutida.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Recitais de poesia, apresentações de livros, simples encontros de amigos com amor pela literatura e por Sintra: eis a proposta d'Os Meninos da Avó. Sempre às primeiras e nas terceiras quartas-feiras de cada mês, na Casa da Avó, Rua Visconde de Monserrate, Sintra, entre as 22h00 e a 01h00.

PRÓXIMA SESSÃO:

Na próxima sessão, dia 1 de Fevereiro, teremos como convidado o escritor João Rodil. Este ilustre sintrense irá falar-nos de literatura em Sintra, inspirada ou escrita nesta nossa Serra maravilhosa. Em destaque ficam excertos do seu livro SERRA, LUAS e LITERATURA.


Com rara felicidade, o título deste delicioso ensaio cinge o seu conteúdo como fechadura de manuscrito antigo e precioso. Ele não nos ilude – o que qualquer amante de Sintra e da Literatura pode encontrar nestas páginas, erguido sobre o fundo de um trabalho árduo, valoroso e honesto de pesquisa documental, é um monumento à Serra e à Literatura que ela inspirou, um palácio de sonho e poesia esculpido pelo Assombro, a Lenda e a História, parafraseando o poeta Mário Beirão, citado pelo autor.
Mas João Rodil não se quis limitar a apresentar ao leitor, de uma forma árida e monótona, qual enfastiado guia de museu, a genealogia ilustre de autores que desde recuados tempos pela Serra da Lua se deixaram inspirar. Nem o poderia, quer como filho genuíno da terra que ele é, quer como homem de Letras profundamente arrebatado pela grandeza de tudo o que a esta Serra sagrada concerne. O que ele criou neste livro, foi uma autêntica prosopopeia da Serra de Sintra, que vira personagem animador e animado pelos mais marcantes momentos da história e da cultura portuguesa, europeia e universal.
O mais extraordinário é aqui, porém, o olhar com que João Rodil vê desfilarem os grandiosos vultos que com suas palavras sábias e belas foram esculpindo essa outra montanha, a do mito e do imaginário dos homens. Porque nesse olhar há a firmeza do homem da terra que observa as estações e as épocas seguirem-se, como quem sabe que existe um grande mistério nas coisas da vida, uma abundância de sinais no livro exposto do cosmos que a humana inteligência vai folheando com panteísta admiração.

Jorge Telles de Menezes.


ANTES DE NÓS, OS OUTROS

Já se fez luz e as trevas se separaram. E até às trevas se deu luz. Rola de dia o Sol por cima da Serra antiga, a admirar-lhe o corpo de serpente. À noite, quando os píncaros se transformam em gigantes de pedra, deambula a Lua perdida em sua casa. Estão enamorados o Sol e a Lua, mas apenas se beijam à esquina da madrugada. E o espaço mágico onde trocam o beijo furtivo, é esta Serra de Sintra: maternidade do tempo, altar primitivo onde os deuses vão rezar, pedaço do coração do velho Pangea.

Depois, não há depois. Só a imitação dos homens, a tentativa desesperada de igualarem o amor dos astros, a vontade impotente de cantarem aquilo que não entendem. E muitos foram os homens a empreenderem essa demanda ao longo dos séculos. Uns, perderam-se ignorados como peões em campo de batalha; outros, aqueles que souberam sentir o pulsar do Universo, que acreditaram na transcendência do Promontório, que beberam de sua água inspiradora, conseguiram transportar para a palavra o que esta terra sem mal lhes segredou.

Em Sintra, lugar imenso e mítico, grande número de poetas e escritores sonharam pelo alto da sua Serra serpentária. Deixaram, então, ao longo de todo o calendário dos homens, uma literatura abundante e viva, inesgotável, ainda hoje por completar. Talvez sempre por completar.

Dá-nos o Sol dias longos ou curtos, conforme toca os dois pontos da eclíptica que ficam nos extremos opostos do equador celeste. E nessas variações de luz, esse grande jogo claro-escuro universal, surgem dias poliédricos, embrionários, comutadores da vida. E é de luz e criação que vamos falar, ao sabor das estações, como se elas produzissem nos homens as mudanças de espírito, de mentalidade. Solstício é plural, assim como plural é a Lua projectada nas águas do mar ocidental. O Mar! Mundo ignoto, magnético e assustador, que puxou os homens à diáspora atlântica. Nadaram em busca da terra iniciática, doadora da vida verdadeira, e escarparam o Promontório para cheirar a Lua. E nesta região entre dois-mundos, admiraram as borboletas de fogo que pairavam na suspensão do pó.

Eram os primeiros artistas a vaguearem por Sintra, espelhando os seus tormentos e sentimentos em materiais líticos ou osteológicos, embrionando a Arte nos suportes naturais. Contudo, desde esses recuados tempos, há-de o homem conferir a Sintra o estatuto de templo sagrado.

João Rodil, in “SERRA, LUAS e LITERATURA”, Edições da Palavra e Câmara Municipal de Sintra, 2ª edição, 2004

terça-feira, janeiro 24, 2006

HOMENAGEM:

Assinala-se neste mês de Janeiro duas efemérides, a morte dos poetas José Carlos Ary dos Santos (7/12/193718/01/84) e de Miguel Torga (12/08/190717/01/1995).
Como achamos que a melhor homenagem que se pode fazer a um poeta é a divulgação da sua poesia em seguida ficam exemplos das suas obras e o convite para descobrirem mais destes poetas.


AS SETE VIRTUDES FILOSOFAIS
OU
A ALQUIMIA DOS POETAS


1.

O orgulho

Por vezes no poema
desperdiçamos tudo
e fica apenas

uma terrível faca de silêncio

um muro

uma sebe de sede que defende
a fome de ódio puro.


2.

A Avareza

A palavra vã guardada
A esmola aliterante.
Eis a miséria doirada
da poesia altissonante.


3.

A Luxúria

Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença.
Com elas violentamos
o cerne do silêncio.


4.

A Ira

Uma rosa de cólera
o poema

Uma antena de raiva.

Uma espoleta
na serena gaveta do poeta.


5.

A Gula

Comemos vegetais e animais
Bebemos vinho.
Respiramos fundo.
Somos normais. Apenas


devoramos o mundo.


6.

A Inveja

Não sermos nós a voz
o tacto
o texto.
Darmos cinco sentidos
Para termos o sexto.


7.

A Preguiça

Este

lento

talento

de vazarmos tristeza.

José Carlos Ary dos Santos.



Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que de tou.
Mostro aos olhos que não te disfugura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço.

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga

POEMAS E PENSAMENTOS SOLTOS:

"Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo."

Cecília Meireles


SORTILÉGIO

Se é verdade, quando a noite cai,
E em paz repousam os viventes
E dos céus escorre exangue o raio
Da lua nas lápides dormentes,
Oh, se é verdade que ficam já
Os túmulos vazios, queria
Chamar-te a sombra, esperar Leíla:
Vem, minha amiga, vem cá, vem cá!

Vem, ó sombra bem-amada, tal
Como estavas antes da partida,
Branca e fria como dia invernal
Na última aflição contorcida.
Vem, ó sombra amada, tanto dá
Que sejas um leve toque, um sopro,
Ou visão tétrica de assombro,
Seja qual flores: vem cá, vem cá!...

Não te chamo pra acusar, oh não,
Quem por mal me matou a amiga,
Matou amiga do coração,
Nem para à tumba roubar o enigma,
Ou porque a dúvida me doerá
Não… é por saudade que te chamo,
Pra contar-te como inda te amo
E te pertenço: vem cá, vem cá

Aleksandr Púchkin (1830)

POEMA DE NATAL
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos-
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos-
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai-
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte-
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
"Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas os livros só mudam as pessoas."
Mário Quintana
Se eu tivesse as sedas bordadas do céu.
Com bainhas de luz de ouro e de prata.
As sedas azuis e sombrias e escuras.
Da noite e da luz e da meia-luz.
Deitava-as todas aos teus pés.
Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés
Pisa com cuidado,
É nos meus sonhos que estás a pisar.
W. B. Yeats (tradução de Miguel Esteves Cardoso)
Da ilusão nasce a dor
Mãos que se estendem ao vazio
Em eternos instantes de solidão.
Dedos que não alcançam o destino,
Sons que não fazem uma canção.
Fugazes doces carícias,
Pequenos toques de simples ternura,
Momentos de sorrisos cúmplices,
Paixões que morrem em amargura.
Cerrado vai-se tornando o véu
Com o avanço da caminhada
Na inerente contradição.
Esbate-se o amor em tons de masoquismo,
Mas a dor nasce da ilusão.
Bruno Vitória
Nenhum outro ser humano, nenhuma mulher, nenhum poema ou música, livro ou pintura podem substituir o alcóol no seu poder em oferecer a ilusão da verdadeira criação.
Marguerite Duras
"Fora de um cão, o livro é o melhor amigo do homem. Dentro do cão, é escuro demais para ler."
"Em quem é que vais acreditar? Em mim ou nos teus olhos?"
"Um gato preto que se atravessa no teu caminho quer dizer que o gato vai a algum lado."
"Ou ele está morto ou o meu relógio parou."
"Nunca pertenceria a um grupo que me aceitasse como membro."
"Acho a televisão muito educativa. Assim que alguém a acende, eu vou para outro quarto ler."
"Lembro-me da primeira vez que tive sexo. Guardei o recibo."
"O casamento é uma instituição maravilhosa, mas quem é que quer viver numa instituição?"
"Se já ouviste esta história antes, não me interrompas porque eu quero ouvi-la outra vez."
"A próxima vez que nos virmos lembra-me para não falar contigo."
"A justiça militar é para a justiça o que a música militar é para a música."
"Um dia matei um elefante com o meu pijama, só gostava de saber como é que ele se meteu no meu pijama."
"Estes são os meus princípios, se não gostares deles...bem, eu tenho outros."
Groucho Marx
Burgueses somos nós todos ó literatos
Burgueses somos nós todos ratos e gatos
Mário Cesariny
«Mário nós não somos todos burgueses
os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo nuvens!
O que direi de mim?
Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém
e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.
Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses
Mário o que nós somos todos é sebastianistas.»
Natália Correia
Esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas.
António Lobo Antunes

domingo, janeiro 22, 2006

DIVULGAÇÃO


Eespectáculo de poesia onde poemas de gente grande são reinventados por gente pequena.
Decorre no Teatro do Campo Alegre no Porto nos dias 28 e 29 de Janeiro

sábado, janeiro 21, 2006

CONFERÊNCIA:

Ciclo de Conferências:

dia 25 de Janeiro de 2006

"Fernando Pessoa - Poeta da Mensagem"

Dr. Francisco Queiroz

Programa: 16h - visita gratuita à Casa-Museu de Leal da Câmara

18h - Conferência

Casa-Museu de Leal da Câmara, Calçada da Rinchôa nº67, Rinchôa

sexta-feira, janeiro 20, 2006

CONCERTO:

28 de Janeiro 2006
União Recreativa e Desportiva Fontanelas e Gouveia

Os Big River Johnson, «com as suas raízes no lodo criativo de Robert Johnson, Sun House, Muddy Waters, Howlin' Wolf, Screamin' Jay Hawkins e outros...», irão dar mais um dos seus enérgicos concertos no próximo dia 28 de Janeiro na União Recreativa e Desportiva Fontanelas e Gouveia em Fontanelas. Mais uma celebração musical com a presença dos elegantes DJ Mauamor e DJ ManMachine que complementarão, com graciosidade, uma noite informal de alegria e convívio...



Mais informações: http://www.alagamares.net/ e www.badblues.blogspot.com


segunda-feira, janeiro 16, 2006

RECUPERAÇÃO DE TEXTOS LIDOS EM SESSÕES ANTIGAS:

PAUL ÉLUARD / MAX ERNST


MOLÉCULAS ESTRAGADAS

Os crocodilos de hoje já não são crocodilos. Onde ficaram os bons velhos aventureiros, que metiam nas narinas uma bicicleta minúscula e declives de gelo? Os corredores dos quatro pontos cardeais seguiam a rapidez com o dedo e faziam um cumprimento. Que divertido não era outrora, apoiar-se com uma corajosa despreocupação naqueles rios agradáveis polvilhados de pombas e pimenta.
Já não existem pássaros autênticos. As cordas que se esticavam, à noite, sobre os caminhos de regresso, não deixavam ninguém tropeçar, mas em qualquer falso obstáculo tarjavam-se os olhos dos artistas do equilíbrio com alguns sorrisos. O pó cheirava a raio. Antigamente, os bons velhos peixes usavam bonitos sapatos vermelhos nas barbatanas.
Já não existem mais autênticos ciclistas aquáticos, nenhuma microcospia e nenhuma bacteriologia, em verdade, os crocodilos já não são mais crocodilos.

Tradução de George Till, de uma antologia de surrealismo alemão intitulada «Gib Acht tritt nicht auf meine Träume»ed. por Berndt Schulz, Eichborn Verlag.



Ibn Hazm al Andalusi


O COLAR DA POMBA

Conteúdo

A essência do amor. Os sinais do amor. As pessoas que se apaixonam enquanto dormem. As pessoas que se apaixonam com base numa descrição. As pessoas que se apaixonam ao primeiro olhar. As pessoas que só se apaixonam pouco a pouco. As pessoas que se apaixonam por uma característica. O dar a entender por palavras. O fazer sinais com os olhos. A troca de correspondência. O mensageiro. O guardar o segredo de amor. O renunciar ao segredo de amor. A submissão. O comportamento desabrido. O censurador. O amigo solícito. O observador. O caluniador. A união. O esquivar-se. A fidelidade. A infidelidade. A separação. A sobriedade. A enfermidade. O esquecimento. A morte. A abominação do pecado. A excelência da castidade.



Farid ud-Din Attar (1120-1230)


A CONFERÊNCIA DOS PÁSSAROS

De repente abriu-se o portão e saiu de lá um nobre camareiro, um dos cortesãos da suprema Majestade. Ele examinou-os e viu que dos milhares que eram só estes trinta pássaros tinham sobrevivido. «Então, vós pássaros», disse ele, «de onde vindes, e o que fazeis aqui? Como vos chamais? Ó vós, que sois verdadeiramente todas as coisas, onde fica o vosso lar? Como sois chamados no mundo? O que se poderá fazer com vós que não sois mais do que uma frágil mão cheia de pó?»
«Nós viemos», retorquiram os pássaros», «para reconhecermos o Simurgh como nosso rei. Devido ao nosso amor e à nossa saudade por ele perdemos o entendimento e a nossa paz de espírito. Há muito tempo passado, quando nós partimos para a viagem, éramos milhares, e somente trinta e dois de nós chegaram a esta nobre corte. Nós não podemos acreditar que, depois de todo o nosso esforço e sofrimento o Rei nos irá repudiar. Oh não! Ele só nos pode acolher com benevolência!»...
Depois de o camareiro os ter posto assim à prova, abriu-lhes o portão. Um atrás do outro, ele descerrou centenas de cortinados e por trás do véu descobriu-se um mundo inteiramente novo. Agora revelava-se a luz das luzes, e eles sentaram-se todos no Masnad, o assento da majestade e do esplendor. Entregaram-lhes um escrito que eles deviam ler; e depois de o terem lido e nele terem reflectido, entenderam o seu estado. Depois de terem atingido uma paz completa e de se terem libertado de todas as coisas, reconheceram o Simurgh que estava entre eles, e à luz do Simurgh começou uma nova vida para eles.
Tudo o que eles tinham feito até então foi purificado. O sol da majestade irradiava os seus raios, e as suas almas luziam, e no reflexo dos seus rostos observavam estes trinta pássaros (Si-murgh) do mundo exterior o Simurgh do mundo interior, invisível. Isso deixou-os de tal modo espantados, que eles não sabiam mais se ainda eram eles próprios ou se se tinham tornado no Simurgh. Por fim, num estado de contemplação e ensimesmamento, eles reconheceram que eram o Simurgh e que o Simurgh era os trinta pássaros. Quando eles observavam o Simurgh, eles viam que tinham o Simurgh realmente diante de si; e quando dirigiam o olhar para si mesmos, reconheciam que eles eram o próprio Simurgh. E quando eles perceberam os dois ao mesmo tempo, eles próprios e Ele, tiveram consciência de que eles e o Simurgh formavam um e o mesmo ser. Nunca ninguém no mundo ouviu falar de um milagre que se equipare a este.

Textos traduzidos do alemão por George Till, de «Die Erfindung der Liebe», ed. por Claudia Schmölders, Verlag C. H. Beck, Munique.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

LUÍS FILIPE SARMENTO

Na próxima sessão (dia 18 de Janeiro) teremos como convidado o escritor Luís Filipe Sarmento. De seguida fica um breve nota biográfica e uma pequena apresentação da obra do autor.

Luís Filipe Sarmento numa sessão dos Meninos d´Avó

Luís Filipe Sarmento nasceu a 12 de Outubro de 1956.
Jornalista desde 1970, publicista, editor, realizador de cinema e vídeo.
Alguns dos seus textos encontram-se traduzidos em inglês, espanhol, francês, mandarim, japonês e romeno.
Produziu e realizou a primeira experiência de Videolivro feita em Portugal no programa “Acontece” para a TV2.
É autor de vários livros dos quais se destacam:

TRILOGIA DA NOITE – 1978
NUVENS – 1979
ORQUESTRAS & COREOGRAFIAS – 1987
GALERIA DE UM SONHO INTRANQUILO – 1988
FIM DE PAISAGEM – 1988
FRAGMENTOS DE UMA CONVERSA DE QUARTO – 1989
EX POSIÇÕES – 1989
BOCA BARROCA – 1990
MATINHAS LAUDAS VÉSPERAS COMPLETAS – 1994
TINTURAS ALQUÍMICAS - 1995


1.

São os cavalos, outra vez que me galopam
incessantes nas planícies em branco
Que eu sei de tantas viagens inacabadas
Que segredos guardo na memória
Busco, buscando o impossível, talvez o Amor
Na página virgem, talvez o infindável
Que perscruto numa espeleologia suicida


Sufoco na ansiedade de querer o inexistente
E quando medito regresso ao quotidiano
como palavra cansada, lugar comum e reinicio
com todo o desinteresse pelas coisas
coisas que me ocupam as horas
que me invadem os lugares secretos
que me retiram a alma. Cá estou, outra vez,
bonecreiro, jongleur sedentário de habilidades.



2.

Associo o impossível com um grito
Associo-me ao grito veloz: impossível busca
Em busca do impossível. Grito:sonoridade
com a idade do som. Hoje impensável o grito
na estrutura social possível: silêncio sociável:
palavras sorridas inquestionáveis marcam o ritmo
da surdez do mundo. Possível. Programado,
sem grito. Grito. Grito a dor pela paixão,
o ódio pelo grito eu grito:
todo o impossível é possível no meu grito.
Gritos. Ecos de plasma
Do impossível que desejo, gritando.
Grito. Com a voz nomeio. Grito com o sangue
o impossível que me grita possível o grito.


3.

Classicamente durmo desesperado:
não durmo: perco-me no sono acordado,
sem ar sufoco no cansaço, acordado.
Durmo sem sono, o sono desesperado
Sonho e não durmo, acordo e não sonho,
ao acordar durmo, ao sonhar esqueço.
Esqueço o sono e dorme o sono que mereço.
Não durmo: sonho o sono que me sonho.
Vivo sem acordar. Não durmo, adormeço
o sonho, o sono, dormindo sem sonho
o sonho que me adormece acordado.
Por fim morro sonhando com o sono,
vou morrendo, dormindo, vidrado,
sem saber do sono, o meu sonho:
o sonho que sempre tive acordado.

Luís Filipe Sarmento, in “Tinturas Alquímicas”, Tertúlia, 1995.

SESSÃO DE 4/01/06

Realizou-se no dia 4 de Janeiro a 24ª sessão dos Meninos d´Avó. A primeira sessão de 2006 ficou marcada por uma efeméride: o falecimento do poeta António Gancho. Perante este acontecimento a sessão tornou-se numa homenagem ao autor.

António Gancho (1940-2005) morreu na noite de passagem de ano, na Casa de Saúde do Telhal, onde estava internado desde 1967. Nasceu em 1940 em Évora e veio para Lisboa muito jovem, frequentou o grupo do Café Gelo. Da sua vida pública sabe-se apenas que passou a maior parte do tempo em instituições psiquiátricas. A sua literatura apenas se revelou publicamente em 1985 na antologia «Edoi Lelia Doura», organizada por Herberto Hélder e onde se incluíam onze poemas de Gancho. Em 1995 saí um volume com a sua poesia “O Ar da Manhã”, no ano seguinte é apresentada por Álvaro Lapa, uma novela erótica escrita em 1990 ( “As Diotrias de Elisa”).

De seguida ficam alguns dos poemas lidos deste autor lidos na sessão:


Rui Mário

SINTAXE

Aonde a planície já não tiver um sentido
e os campos forem já só o horizonte
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
e sobre ti a minha fronte.
Por te sobre os joelhos uma flor rubra
por te no lugar das pernas o mais amor que me houver
aí onde a flor deixa o pólen
aí o sémen de mulher.
Por te sobre o sémen o gemido do teu acto
por te sobre o gemido
a planície sem sentido
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
por te sobre as pernas me dilato.



ULISSES-OLISIPO

Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe

A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração

O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou cantar

Grande a nostalgia do teu néon luminoso
A sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso

Aqui a enorme cidade aqui a tentactular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céus.



ARTÉRIA, TU TENS RAZÃO

A única coisa que aprendi meu Deus
a sofrer a desilusão duma passagem de rua
ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar
mas a única coisa que eu aprendi.
Que um bocado de vidro me inundasse de luz uma artéria
eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz
artéria nenhuma
era uma desilusão a olhar para mim
e dizer movimento de rua
é assim movimento de rua
aí está nós cá estamos nós somos tal e qual
uma desilusão em passagem.
Tinha era ainda mais que tudo isso
um inchaço dum vidro em bocado
espetado em cima de pedra.
Havia um estendal de desilusão a devorar-me
todo com os olhos
eu era uma continuação do meu ser.
Onde um simulacro estava a vantagem
de uma desilusão.
Eu não
Eu cá.
Que um cá estamos considerasse ou não
eu não tinha nada com isso.
Eu fum, eu…
Ah,
Havia é que era eu cá estamos nada disso
eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho
tu quê
nós consideramos.
Onde punha fum
tudo por dentro era duma urânia
tudo por dentro era duma constipação palpável
pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.
Não eu cá não vou.
Quem olha descontenta.



TU ÉS MORTAL

Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar

Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte virá de banjo
insinuar-se-te senhor

É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus.

António Gancho, in «Edoi Lelia Doura», Assírio e Alvim 1985

sábado, janeiro 07, 2006

EFEMÉRIDES/ ACONTECIMENTOS DA QUINZENA:

Na sessão de 4 de Janeiro foram evocados os seguintes acontecimentos:

Fez-se referência ao recente falecimento do jornalista Cacéres Monteiro e do poeta António Gancho (que acabou por ser alvo de uma homenagem na sessão).

Estreia dia 13 de Janeiro na Casa de Teatro de Sintra a peça "A Entrega" de João Garcia Miguel.

Finalmente está marcada a estreia do "Policial" dos Utopia teatro, ocorrerá no dia 16 de Fevereiro na Casa de Teatro de Sintra.

Concerto de Blues organizado pela associação Alagamares em Fontanelas no dia 28 de Janeiro.

Na próxima sessão de dia 18 teremos como convidado o poeta/escritor Luís Filipe Sarmento.

Como último acontecimento temos que referir a presença nesta sessão de um coladorador do Jornal de Sintra, finalmente uma prova de reconhecimento por parte da comunicação social das nossas tertúlias!

quinta-feira, dezembro 29, 2005

EFEMÉRIDE: 200 ANOS DA MORTE DE MANUEL BARBOSA du BOCAGE

Manuel Maria Hedoïs Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal - na rua de S.Domingos – a 7 de Setembro de 1765, e faleceu em Lisboa, a 2 de Dezembro de 1805, numa travessa da rua Formosa (actual rua do Século).
Partiu muito jovem ainda para o Oriente onde permaneceu alguns anos. No regresso a Portugal entrou para a Nova Arcádia com o nome de Elmano Sadino. Em breve, porém, acabou por satirizar os seus membros; foi acusado de revolucionário veio a ser preso.
Faleceu com apenas 40 anos. A sua obra é constituída por todos os géneros poéticos em curso no seu tempo, mas foi no soneto que deixou o melhor de si próprio; nas suas composições combina elementosneoclassicistas com o gosto pelo pré-romantismo. A solidão, o sofrimento, o amor-ciúme, o belo-horrível, a morte, são alguns dos temas que trata, de acordo com o próprio infortúnio da sua vida.

Ficam de seguida alguns sonetos como homenagem a este importante poeta.



"Não dês, encanto meu, não dês, Armia,
Ternas lamentações ao surdo vento;
Se amorosa impaciência é um tormento,
Com ledas esperanças se alivia:

A rigorosa mãe, que te vigia,
Em vão nos prende o lúcido momento
Em que solto, adejando o pensamento,
Sobe ao cume da glória, e da alegria:

As fadigas d'Amor não valem tanto
Como a doce, a furtiva recompensa
Que outorga, inda que tarde, aos ais, e ao pranto:

Amantes estorvar, que astúcia pensa?
Tem asas o desejo, a noite um manto,
Obstáculos não há, que Amor não vença."



A frouxidão no amor é uma ofensa

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.



Importuna Razão, não me persigas

Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.



Oh retrato da Morte, oh Noite amiga

Oh retrato da Morte, oh Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.

E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.



Magro, de olhos azuis, carão moreno

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou cagando ao vento.

Nota – em face da Censura totalitária e fradesca, o último verso deste soneto tem andando por aí, em antologias e não só, ao longo destes anos todos, com a seguinte redacção:

“Num dia em que se achou mais pachorrento”.


A verdade é que não foi isso que o Poeta sadino e alfacinha escreveu, mas, sim, o que, agora, aqui se reproduz, composto pelos computadores do secúlo XXI – Fernando Grade.

sábado, dezembro 24, 2005

SESSÃO DE DIA 21/12/05

Realizou-se no dia 21 de Dezembro a 23ª sessão dos Meninos d´Avó! Uma sessão que marca o primeiro aniversário das nossas sessões! Para celebrar esta data tivemos connosco o poeta Fernando Grade. Numa apresentação sempre cativante o poeta falou-nos do seu novo livro ("Poemas de Natal") e do seu fascinante passado.
Desta vez não vão ser colocados poemas lidos na sessão mas sim fotos!
Como se diz uma imagem vale por mil palavras e esta é a nossa forma de agradecer aos presentes (e aos ausentes que por várias razões não podem ir à sessões) que criam o espiríto e o ambiente que todos elogiam e se sentem confortáveis!

A Todos o nosso muito Obrigado!!


Fernando Grade ladeado por Rui Lopo e Jorge Menezes



Que este seja apenas o primeiro de muitos! Obrigado a todos os que passaram ao longo deste ano e ben-vindos sejam nos próximos!

A Poesia está na rua! Não pisar

quinta-feira, dezembro 15, 2005

FERNANDO GRADE

Fernando Grade numa sessão dos Meninos d´Avó

Na próxima sessão (dia 21) voltaremos a ter o poeta Fernando Grade connosco! Desta vez a sua participação irá incidir na apresentação do livro "Poemas de Natal", voltamos a destacar a sua obra, desta vez com um maior enfâse bíográfico:

Fernando Grade nasceu no Estoril (1943, sob o signo do Carneiro). Empenhado na agitação e dinamização de ideias, antes e depois do «25 de Abril», Grade organizou recitais, disse poemas dos outros e seus, dirigiu colóquios sobre poesia moderna, mormente do Orpheu ao Desintegracionismo, fez conferências acerca de artes plásticas, realizou teatro de acção e sessões-a-poesia-está-na-rua, em sociedades de cultura popular, bibliotecas, unidades fabris, clubes desportivos, escolas técnicas, liceus, sessões de esclarecimento e comícios políticos, museus, na via pública, em suma, em muitos e contrastados sítios, nomeadamente Leiria, Lisboa, Amoreira, Carcavelos, Luanda, Cabinda, Barreiro, Paris, Caparide, Benguela, Cambambe, Almada, Parede, Torres Vedras, Caldas da Rainha, Londres, Cascais, Murtal, Sevilha, Caxias. Alcabideche, Montijo, Abóboda, Guimarães, Oeiras, castelo Branco, Estoris, Madorna, Alvide, Peniche, Fundão, Idanha-a-Nova, Póvoa de Penafirme, Vale do Jamor.
Como artista plástico, é o criador da Teoria das Multidões e das Colagens Perversas. Expôs, individualmente, em Lisboa (por três vezes), Benguela, Luanda, Parede, Angra do Heroísmo, Horta, Cascais e Castelo Branco. Está representado com a sua Teoria das Multidões no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Museu de Angola, no Museu de Castelo Branco e nas colecções da Galeria Nacional de Arte Moderna e do Museu da Cidade de Luanda, bem como em diversas colecções particulares nacionais e estrangeiras.
Crítico de arte, tem trabalhos, dispersos especialmente pelo «Jornal de Letras e Artes», «O Século», «Século Ilustrado» (nesta publicação manteve uma secção semanal durante 3 anos) e «Diário de Notícias» (de Maio a Novembro de 1975).

Foi crítico literário do «ABC – Diário de Angola» e do «Podium». Crítico de televisão e espectáculos da «Vida Mundial». Cronista literário de «A Capital», «O Século», «Jornal de Viana e «A Bola». Foi director e chefe de Redacção da revista «Costa do Sol».
Pertenceu à Sociedade Portuguesa de Escritores, destruída pela PIDE e extinta. Foi director técnico da Associação Portuguesa de Escritores e da Associação Portuguesa de Críticos.
Faz parte do MIC (movimento de Intervenção Cultural).
Foi vereador, pela FEPU, da Câmara Municipal de Cascais.


NATAL

Hoje nasceu um poeta
no escuro da minha rua
Cresceu fez-se homem
apagou o sol
e bateu na lua

Amanhã será tão nutrido
que tremem as balanças de esquina
sentido o ranger de sapatos
os seus passos não beatos
Amanhã será tão angélico
que os anjos ruins ou não
sentem a inveja nascer
sob a membrana da fala

vendo voar rente aos astros
esse poeta maldito
sem carne nem abraços
abaixo os sexos e a lua
hoje nascido aqui
do ventre mais volumoso
da virgem da minha rua

Fernando Grade, in "Sangria" (1962), Edições Mic



OS LOUCOS E AS FACAS

Sim os loucos adoram as facas
mas detestam as espingardas carregadas
de sal
Eles matam todos os bicharocos
menos os pobres
Adoram as facas de lâmina prateada
as vermelhas de cortar melancia
as azuis
e cospem nos verdes revólveres
armas luzidias
O manual artístico dos canhotos
é da autoria de um louco

Os loucos são belos divertidos são castanhos
e todos me parecem mestres famoso
O meu primo pintor abstracto
já constrói muito melhor as coisas de dentro
desde que recebe lições de um louco
Dantes era uma nulidade cinzenta
agora só vira a cabeça na rua
quando o tratam por génio

Vou a Hyde Park defender a causa dos loucos
Pois claro hão-de fazer exame de Latim

Como a História é um rebuçado multicor
os loucos sairão distintos em megalomania

Fernando Grade, in “Um Arbusto Entre os Calhaus” (1965), Edições Mic



Anti-Necrológica

para o Urbano Tavares Rodrigues

Os que choram o morto,
o seu antigo rosto trigueiro,
não choram a razão do morto.

Só a lógica na relva
Nos dá a raiva e a semente.

(Quem chora o morto,
chora-o apenas
parvamente).

Não choro os mortos-com-razão:
as suas veias verticais
são riscos onde
os dedos ganham a forma do sal
e dos pardais.

Fernando Grade, in “A + 2 = Raiva” (1970), Edições Mic

quinta-feira, dezembro 08, 2005

F.M. PALMA-DIAS

Durante a sessão dedicada a este poeta ficamos a saber que o Francisco Palma Dias morreu enquanto poeta em 1985, desde então a sua obra vem assinada como F.M. Palma-Dias. Aproveitamos para deixar publicado alguns poemas inéditos que fazem parte dos volumes de Obras Imperfeitas do poeta:

dobragem

sul


olhar de efebo a ver-se
macho. Máscara a máscara, margens e hexílio
suas cartas

[mamuda nos dentes, uma dona
em serpente, tínhamos
vinte anos…Trocar
de língua, de livros, de canções…Tropeçar
em mumadona

no cansaço e no grito – aquele jeito antigo, o mar dos aflitos
mais o sakristédio a jeringonça o país catita
[mas o´neill
de amigo na onça – e o césar
in]



ósculo na boca e unicórneo na máscara
o barco de tânger
atraca num óculo

enxame de abelhas
tangerinas soltas, abrodagens, fruta. Mulas da senhora
carregando verdura e tremoço, bilhas de água fresca

[olhar sem estorvo
alcachofra
fogo]

moldadas pelos dentes, rente à madeira dos licores
chamas vivas en sombras estridentes. Astear
teixeira gomes


pirar en caravelle, rouler DS ou dar
o salto – mais, bientôt, ce nétait plus
le temps des cerises

bruxelas em telhados de zinco
punhos em pino na falha da flandres
e a meia desfeita granulando as coxas. Estrellas

estrelas e maganos travestem a noite.
Churros toledanos y madrugá con
Chocolate [avental, peitoril blanco y goma]
por dos más feas que las meninas
pero con el fuego del inferno en los aceites [puro homenaje
a don luís e federico]


el rímel se deshacia. Detrás
la máscara, en los espejos reclinados,
saliam efebos cábrios del mediterrâneo


solia fumar-se kif con aguardente anisada. La CEE
no sabia que su europa ya estava tocada
. Rue de tanneurs
rehaciamos en circulo la cuadratura hispânica


F.M. Palma-Dias, “Bruxelas de Uzifur”, 1965, tomo 1 de Obras Incompletas, (editor: Procura-se)

LANÇAMENTO:

O que será que um livro esconde?... terá apenas letras? … e se os livros fossem pessoas?... sim, sim personagens animadas que falam, cantam, riem, brincam, sonham, provocam, discutem, espantam-se… mas que sobretudo, divertem-nos, divertindo-se!

Acordem os Livros que queremos ouvir Ler

É este o nosso desafio na apresentação d´”Os livros que gostam de contar histórias”. A pé de Página Editores, os autores fátima & zé-luís & marc & amigos têm o grato prazer de vos convidar&animar.
Quando? Ora, ora, no dia 10 de Dezembro (sábado) às 16.30h. onde? No Espaço Por Timor em frente à Assembleia da Republica (ui!) na R. de S.Bento, 182/184, 1200 Lisboa. Contamos convosco para a Festa dos Livros!... (ah! E podem trazer os pais!)

SESSÃO DO DIA 7/12/05

Francisco Palma-Dias e Jorge Telles de Menezes em destaque



Realizou-se no dia 7 de Dezembro a 22ª sessão dos Meninos d´Avó. Esta sessão ficou marcada por duas visitas, o poeta F.M. Palma-Dias que veio falar-nos da sua obra poética e da presença de três elementos pertencentes à Orquestra de Palavras, um grupo de leitura e escrita criativa da Ericeira. De realçar ainda a adesão ao cantinho do tricot que passou a ser uma imagem de marca das nossas sessões. De seguida reproduzem-se os poemas lidos/representados pelos elementos da Orquestra de Palavras:
Os Anos Felizes

eu tlim ciências
tu tlim matemáticas
ele tlim trabalhos manuais
nós tlim recreio
vós tlim senhora
eles tlim castigo

Mário Cesariny (com António Domingues)



Um Velho no Restelo

Irado, e meio de recusa, olha as gaivotas.

É o Homem do leme?
Não o creio.

Dá tudo por tabaco. Um cigarrinho
Apazigua o velho. A sua queixa
(histórica?) é, afinal, conforme.

Vem para terra o velho. Perde uma alpergata
e apostrofa o mar que não tem culpa
do alcatrão fervente.

O velho morde um pão
E deixa nele o dente.

O velho bebe um copo
Não deixa nele a sede.

O mar é ladrão.
De pais a filhos o mar é o ladrão.

O sal das sobrancelhas alveja em seu olhar.
Está por tudo o velho, menos pelo mar.

Alexandre O´Neill



Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar.

Sophia de Mello Breyner Andersen


Esquecido no Outono

Eram sete e meia
do Outono
e eu esperava
não ineteressa quem.
O tempo
cansado de estar ali comigo
a pouco e pouco desandou
e deixou-me sozinho.
Fiquei então com a areia
do dia, com a água,
sedimentos
duma semana triste, assassinada.

- Que foi? – perguntaram-me
as folhas de Paris. – quem é que
esperas?

E assim fui várias vezes humilhado
primeiro pela luz que se apagava,
depois por cães, por gatos e gendarmes.

Fiquei só
como um cavalo só
quando no pasto não há noite nem dia,
apenas sal de Inverno.
Fiquei
tão sem ninguém, tão vazio
que choravam as folhas,
as últimas, e depois
caíam como lágrimas.

Nunca antes
nem depois
fiquei tão de repente só.
E foi à espera de quem,
não me recordo,
foi tolamente,
passageiramente,
mas aquilo foi
a instantânea solidão,
a mesma
que se tinha perdido no caminho
e num instante como a própria sombra
desenrolou o seu infinito estandarte.

Então saí daquela
esquina louca com os passos mais rápidos que tive,
foi como se fugisse
da noite
ou da pedra escura e roladora.
Não é isto que eu conto
mas passou-se quando eu estava a espera
de não sei quem um dia.

Pablo Neruda

EFEMÉRIDES/ACONTECIMENTOS:

No ínicio da sessão de 7 de Dezembro demos destaque aos seguintes acontecimentos:
Dia 28 de Novembro foram lançados dois livros do Miguel Real na Fnac do Chiado, um sobre o Marquês de Pombal e o outro sobre o terramoto de Lisboa.

Dia 1 de Dezembro comemorou-se a restauração da independência de Portugal.

Dia 8 de Dezembro comemora-se o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal.

Relembrou-se José Alfredo da Costa Azevedo, ilustre sintrense, autor do livro “Velharias de Sintra”, foi presidente interino da câmara municipal de Sintra no pós-25 de Abril.

Estreou a peça “Histórias do Arco da Velha” levada a cena pelo grupo de teatro Tapa-Furos.

Na próxima sessão dos Meninos d´Avó irá ser apresentado o livro “Poemas de Natal” do poeta Fernando Grade e comemoram-se o primeiro aniversário das nossas tertúlias! Espera-se uma sessão muito especial no dia 21 de Dezembro.

Devido a problemas burocráticos e impedimentos vários não se realizaram no fim de semana passado algumas actividades previstas para se realizarem na sociedade filarmónica “Os Aliados”, nomeadamente um concerto organizado pela Alagamares e a Feira Biológica. Uma situação que apenas empobrece o curto panorama cultural de Sintra e que merece a reprovação de todos nós.